Capítulo 7 CORVO NARRANDO Eu não lembro o caminho inteiro de volta pra casa. Só lembro do barulho da música ficando longe, da porta do carro batendo forte demais, do motor rugindo enquanto eu subia as ruas estreitas do morro como se estivesse fugindo de um incêndio que eu mesmo tinha provocado. Helen ia muda ao meu lado. Não porque estivesse calma. Mas porque quando uma pessoa fica quieta demais é aí que mora o perigo. As mãos dela estavam fechadas em punhos no colo. O corpo rígido. O olhar cravado na janela como se preferisse encarar o escuro da favela inteira do que olhar pra mim. E isso me incomodava mais do que qualquer xingamento. Eu tava com raiva. Não dela. De mim. Do cara que tinha quase perdido o controle em público. Do chefe que tinha batido num homem alheio por ciúm

