— Pronto.
Jamile acabara de arrumar o apartamento. Na verdade depois de pouco mais de um ano estava tirando as coisas da mãe, segundo o psicológico não era bom ter coisas que a faziam chorar tanto assim, as deixavam deprimida e isso gerava uma série de traumas. Guardou consigo algumas coisas, óculos, relógio e uma agenda pequena. Já que o celular o pai levou embora depois que cometeu o feminicídio.
— É hoje mãe. Hoje faço vinte anos. — Ela buscou um retrato de cima da mesinha e passou os dedos no rosto sorridente da mãe. — Te amo tanto.
Deixou o retrato com cuidado no mesmo lugar e foi para o banheiro. Estava acabada, os olhos grandes eram duas poças fundas, não se maquiava mais. Vivia um dia após o outro, indo para o hospital onde era enfermeira e voltando para casa. Não ia mais no terapeuta, e desconfiava que ele se sentia aliviado. Só ia mesmo para as seções por causa da amiga Ananda que cismava em afirmar que uma hora, ou ela se matava, ou matava meio mundo.
Jamile notou que o celular estava aceso, havia chegado várias mensagens. Era Ananda, ficava mandando mensagem até ela responder.
Repetindo as palavras Jamile ou gostosa.
Na: Vamos sair hoje gostosa. E não me venha com desculpas.
Jamile: Sei não amiga, estou cansada, hoje é um daqueles dias.
Jamile ficou esperando a resposta que não veio, sabia que Ananda não estava com raiva, mas estava aprontando alguma. Seguiu para o banho e tentou não ficar nervosa.
Mal fechou o chuveiro quando a campainha tocou. O porteiro conhecia Ananda e a deixava passar.
— Oi gostosa. – Ananda falou assim que ela abriu a porta. — Achou que ia se livrar de mim?
— Eu sabia. – Jamile sorriu um pouco. — O que está aprontando?
— O Duda está lá em baixo, é o seguinte, vamos sair hoje. Você não é uma tiazinha e nem tem gatos ainda, embora um gatinho aqui seria bom. – Ela passou pela amiga. - Vamos logo com isso.
Jamile seguiu Ananda para o quarto. Estava de toalha ainda, então foi fácil colocar às roupas que a amiga jogava para ela.
— Veste essa . – Ananda jogou um vestido.
— Curto demais. – Jamile jogou de volta.
—Esse. – Outro vestido.
— Não estou indo para nenhum baile.
Por fim Jamile vestiu uma calça de couro, sandálias pretas e uma blusa de renda preta que deixava a parte de cima do corpo á mostra, a única coisa colorida era o top vermelho que ela estava usando, bem ousada pensou ela. Ananda acabou de pentear o cabelo da amiga. Estavam prontas. As duas desceram o elevador e encontraram Duda sentado no carro.
*****
— Presta a atenção. Não está cheio. Você que está se fechando de mais.
— Tá bom, mas amanhã cedo tenho plantão. – Jamile segurou no braço da amiga. — Se eu matar alguém, a culpa é toda sua.
Jamile estava no Centro de São Paulo, podia muito bem arrumar alguém para beijar e depois vida que segue.
— Cuidado Mi. – Duda bateu no ombro dela. — pode ser que tenha um vampiro aqui.
Ele e Ananda começaram a rir.
— Idiotas. – Ela revirou o olho.
Ananda não tinha tomado três doses, já estava dando show, foi para o meio do aglomerado de gente dançar, com Duda tentando proteger a retaguarda da mulher.
— Posso sentar aqui?
Jamile se assustou com a voz. Era um homem, bem bonito, e não combinava nada com o cenário. Mas parecia um advogado bonitão, um médico, de forma alguma parecia estar vestido para passar a noite ali. O homem se destacava, o que era estranho e sensual.
— Meus amigos estão aí....
— Que pena morena. – Ele sorriu. — Então aceita uma bebida?
Ananda se acabando de dançar, Duda tentando rodear ela, e Jamile com um cara que m*l havia conhecido.
Vinte anos Jamile. Acorda pra vida. Ela escutou aquela vozinha chata.
— Porque não.
— A propósito, me chamo Matheo. – Ele piscou para ela.
— Muito prazer Matheo. Jamile.
*****
Alguns minutos atrás....
— Andreas, hoje é o dia.
—Pai. – Ele esfregou as têmporas. — Acabei de chegar de viagem...
— Posso mandar o Júnior, se ele for será bem pior.
— Tá bom. Onde?
******
Jamile
— O que faz Jamile? – Ele estava debruçado no balcão do bar.
— Sou enfermeira. – Ela respondeu meio sem graça. — E você?
— Advogado. – Ele sorve a bebida do copo. — Mas não sou careta, por favor...
Jamile riu, não sabia se era da bebida, de estar sendo paquerada por alguém que não fosse paciente e estivesse meio sedado, ou porque estava ficando meio b***a mesmo.
Matheo era um tanto mais alto que ela, tinha o cabelo castanho farto e os olhos eram azuis ou era a bebida que fazia ela ver coisas? Ele tinha também uma barba bem aparada. Era homem de mais para ela,
— Matheo, você é Italiano né? – Jamile precisava mudar o foco, ou ia parecer uma tarada doida.
— Sim. Cheguei de lá á pouco, para resolver uns assuntos da família. – Ele ficou sério, mas logo tratou de sorrir maliciosamente. — Você?
— Brasileira mesmo... Não que isso fosse r**m. Quer dizer....
Matheo virou de frente para ela, esticou a mão e ajeitou o cabelo dela atrás da orelha, o gesto fez Jamile pegar fogo, em todas as partes..
— Você é muito bonita sabia? - Ele chegou mais perto.
— Obrigada. Você também... Já deve saber disso. – Como sempre falando de mais quando era para ficar calada.
Matheo focou o olhar na boca dela, e se aproximou mais, a mão ainda em seu rosto. Jamile estava tão concentrada, queria a boca dele na dela. Matheo passou a língua nos lábios e a beijou, com gosto de álcool, um beijo lento, sedutor, descaradamente pegou na coxa dela, e mesmo com a calça de couro ela sentiu a temperatura dele, e sentiu o corpo esquentar também quando Matheo vagarosamente traçou um caminho com a mão quente até o sexo dela.
Matheo interrompeu o beijo, ia falar alguma coisa no ouvido dela, mas parou, olhou adiante e ficou tenso, tirou a mão do cabelo dela, se levantou e deu a desculpa de ir ao banheiro. Deixando Jamile um tanto quanto molhada.
— Quem era ele?
— Que susto Na.– Jamile quase derrubou o copo no chão.
— Mi, vamos indo? – Duda se adiantou.
— Ele disse que precisava ir ao banheiro então..... Pode ser que.
—Que essa noite você tira as teias de aranha, entendi. – Ananda falou tão alto que o barman riu junto. — Eu vou indo. Toma, pega um taxi.
Ananda tirou do sutiã cem reais e entregou na mão dela. Aliás Ananda bêbada era bem mão aberta, chorona e romântica.
— Minha menina. – Os olhos dela encheram de lágrimas.
— Ela tá loucona. – Duda riu. — Amanhã vai achar que perdeu o dinheiro e me fazer dar mais pra ela.
Jamile esperou, e no fim ele não veio. Por fim tinha levado um toco, de novo. Pegou o celular e chamou um Uber.
Levantou sorrindo sem graça para o barman e saiu para a noite fria, ainda olhou para os lados. Matheo não estava mais lá. Devia estar pegando outra mais interessante