Encarou a porta por um bom tempo. Talvez se tivesse ficado mais lá, não teria levado sermão do moço do Uber, e talvez tinha conseguido ficar com alguém para abrandar as coisas nas partes baixas. Tirou as sandálias, não estava m*l vestida o cabelo estava cooperando com o visual também. Mas porquê?
Eram quase duas horas da manhã. As seis estaria de pé, passaria quase uma hora tentando chegar ao emprego e passaria o dia correndo mais que notícia r**m na boca de fofoqueiro.
Jamile que aliás odiava bagunça, pegou a sandália do chão e caminhou até o quarto, mas no meio do caminho voltou e acendeu a luz da cozinha.
— Quem são vocês? – Ela encarou dois homens. Só podia ser coisa da bebida.
— Olá Jamile. – O mais alto de cabelo grisalho ficou em pé.
— Como sabe meu nome?
Os dois conversaram em uma língua, provavelmente Italiano, sei lá. Estava tão cansada e tão apertada para ir ao banheiro que m*l podia se manter ali.
— Como sei seu nome? – Ele limpou a arma com o pano de prato limpo que ela havia colocado mais cedo. — Como acha?
— Como acho? Eu estou te devendo alguma coisa? Eu paguei a fatura do cartão ontem. Se está procurando os drogados do prédio, eles moram no térreo.
Os dois riram dela. Eram maus, ela podia ver nos olhos deles, o provavelmente capanga, porque estava em pé tinha os dois braços tatuados por completo, e tinha uma tatuagem enorme no pescoço.
— Não querida. Você não me deve nada. Pelo contrário, você é pagamento. Do seu pai. Aquele filho de uma mãe te deu como pagamento de umas coisinhas nossa que ele usava. — Ele tirou o pé de cima da mesa.
— Mas se eu não usei essas coisinhas, eu não tenho nada a ver. – Ela estava ficando nervosa. — Olha, quanto é? Eu vendo meu carro, e posso pagar.
Os dois tornaram a rir dela.
— Se quiser eu passo o número dele, amanhã vocês se resolvem... Só... Me deixa fora disso.
— Seu pai morreu garota. – Ele bateu as duas mãos na mesa, Jamile deu um pulo com o susto. — Ele morreu porque estava levando informação de mais para uns amigos nosso. – Ele deu um passo na cozinha pequena. — Ele sabia que você seria nossa se algo desse errado. E quer saber? Ele não pensou duas vezes em dar seu nome.
— Mas eu não vou! – Ela se afastou.
— Você vai! Sabe porquê? Porque você Jamile Alencar é nossa menina agora. Nossa.. Colheita da noite – Ele chegou mais perto dela.
— Posso pelo menos ir ao banheiro? Ou fazer as malas?
Ele esticou a arma na direção do banheiro pequeno e ela praticamente correu até ele. Fechou a porta e analisou as saídas.
Se passasse pela janela, cairia do terceiro andar, se não morresse na queda, morria de um belo tiro, ou seria pega mesmo assim, e ter que levantar com algum osso quebrado era muito doloroso. Olhou para o celular, deslizou a tela, procurou o nome da amiga e digitou
Socorro
A porta abriu com um baque forte, Jamile foi arremessada pelo cara das tatuagens para fora do banheiro e jogada em cima da cama. Estava pronta para morrer. O tatuado foi para cima dela e tirou uma injeção do bolso. Na hora do desespero a enfermeira que habitava dentro se perguntou, é venosa ou intramuscular?
No fim era intramuscular mesmo, e ela apagou.
****
Algum tempo mais tarde.
—Chefe, já estamos com ela.
Jamile sabia que estava em um carro em movimento, ela estava amarrada e atordoada, jogada no banco de trás de um carro novo. Conhecia o cheiro, mesmo que nunca tivesse comprado um nessas condições. Ainda,
— Deu trabalho sim. – Ela escutou o homem dizer...
O carro fez a curva, acelerado, rodou mais um pouco e diminuiu a velocidade. O som de um portão sendo aberto, e logo o carro parou. Ela foi içada para fora e no desespero caiu de joelhos em cima das pequenas pedras.
— Rasgou a calça princesa. – O tatuado falou no ouvido dela. —Desse jeito vou ter que tirar.
— i****a! – Ela se debatia.
— Senhor, aqui está ela.
Jamile estava de frente para um homem, o que via do chão por baixo do saco preto que cobria o rosto, era um chão impecável, e um sapato muito bem envernizado, Sentiu o cheiro de perfume caro.
— Jamile. – Ele era o velho, pela voz. Um velho sarcástico. — Agora pertence a mim..
— Olha aqui. – Ela empinou o queixo na direção do homem. — Eu não sou um objeto, Me solta cara, tenho trabalho. Tenho uma vida. Se o problema é meu pai, ele morreu. Acaba logo com essa merda. Eu pago.
Dessa vez o velho se juntou a eles na risada.
— Eu até iria me divertir com você, mas, - O velho andou em volta dela. – Meu filho veio de longe e está trabalhando duro, acho que ele merece um presentinho. E você será uma bela distração. - Ele puxou o ar com força.- Vou te dar de presente para ele.
O velho cheirou o cabelo dela.
— Chamem meu filho.
Jamile ouviu os passos apressados, sabia que alguém tinha a arma apontada para a cabeça dela, Talvez fosse o tatuado, porque o outro nem mesmo chegava perto dela.
— Pai.
Aquela voz....
— Júnior. – O velho se afastou dela. — Aqui está ela.
Júnior estava longe, Jamile sentia o ar pesar no ambiente. Ouviu os passos do sapato dele andando até perto dela, ele a rodeou e por fim parou de frente para ela.
— Se não quiser, deixarei que se divirtam com ela, e depois daremos um fim na garota. – O velho não tinha emoção na voz. — Ela é a filha do drogado, não deve ter muito valor.
Júnior ficou em silencio, um silencio que pareceu durar horas. Jamile tentava em vão tirar o pano empoeirado do rosto.
— Ficarei com ela.....