O sol m*l tinha nascido quando Helena foi despertada por um som estridente que parecia vir diretamente do inferno. Confusa, ela tateou em busca do celular, achando que era o alarme. Mas o som continuava, mais alto e insistente.
— Rafael! — gritou, se levantando da cama e saindo do quarto, ainda de pijama. — Que diabos está acontecendo?
Ao chegar à cozinha, a cena que encontrou era digna de um pesadelo: Rafael estava em frente a uma cafeteira elétrica que apitava incessantemente, com uma expressão confusa no rosto. Ele usava uma camiseta amarrotada e bermuda, segurando um manual de instruções.
— O que você está fazendo? — Helena perguntou, incrédula.
— Tentando fazer café — ele respondeu, como se fosse óbvio.
— E decidiu acordar o bairro inteiro no processo?
Ele a encarou com uma sobrancelha arqueada.
— Eu sabia que você acordava m*l-humorada, mas não pensei que fosse tão extremo.
— Eu não estou m*l-humorada, só estou tentando entender como você conseguiu transformar uma cafeteira em uma sirene.
— Não foi minha culpa! Essa máquina está possuída.
Helena revirou os olhos, passou por ele e apertou um botão na cafeteira. O som parou imediatamente.
— Pronto, exorcismo concluído.
Rafael cruzou os braços.
— Você podia ter me ensinado isso antes.
— Ou você podia ter usado o bom senso e simplesmente feito café no coador.
Ele a observou pegar o coador e o pó de café com movimentos precisos, como se estivesse acostumada.
— Coador? Isso ainda existe?
— Sim, Montenegro. Algumas pessoas preferem métodos tradicionais.
Rafael suspirou e se apoiou na bancada, observando-a.
— Sabe, eu pensei que dividir a casa com você seria um desafio, mas agora estou achando que é uma sentença de tortura.
— O sentimento é mútuo, confie em mim.
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Horas Depois
Depois do desastre matinal, Rafael foi para o escritório que montara no andar superior, enquanto Helena ficou na sala, tentando revisar alguns contratos da empresa. O problema era que, a cada quinze minutos, Rafael aparecia com alguma "emergência".
— Helena, onde estão os carregadores?
— Na gaveta ao lado da TV.
— Helena, você tem papel de impressão?
— Na estante ao lado da impressora.
— Helena, você tem um adesivo de “Me ajude, minha colega de casa me odeia”?
Ela o encarou, largando os papéis que lia.
— Rafael, você já ouviu falar de Google?
— Ah, claro, mas ele não é tão eficiente quanto você.
— Você está testando minha paciência, Montenegro.
Ele deu de ombros com um sorriso provocador e voltou para o escritório.
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No Final da Tarde
Helena, exausta de lidar com Rafael o dia inteiro, decidiu preparar algo para o jantar. Mas ao entrar na cozinha, encontrou um caos absoluto: louças sujas na pia, uma panela com restos de molho que pareciam fossilizados e farelos espalhados pelo balcão.
— Rafael!
Ele apareceu na porta da cozinha, com o celular na mão.
— Que foi?
— Você acha que isso aqui é aceitável?
— O que tem de errado? Eu comi.
— E esqueceu que louça não se lava sozinha?
Ele olhou para a pia e deu de ombros.
— Achei que você quisesse dividir as tarefas.
— Dividir? Até agora, só eu fiz alguma coisa!
— Eu fiz café de manhã.
— Você fez um escândalo, não café.
Os dois se encararam, uma tensão crescente no ar. Mas então, como se fosse um alarme interno, Helena respirou fundo e tentou manter a calma.
— Rafael, se vamos fazer isso funcionar, precisamos de regras.
— Regras?
— Sim. Regras básicas de convivência. Por exemplo, lavar a louça depois de usar.
— Tudo bem. E posso colocar uma regra também?
— Qualquer coisa para evitar outra discussão.
— Pare de ouvir música clássica no volume máximo. Parece trilha sonora de filme de terror.
Helena abriu a boca para retrucar, mas fechou novamente, pensando melhor.
— Tá bom. Eu concordo, desde que você não deixe suas roupas jogadas pelo sofá.
— Feito.
Os dois trocaram um aperto de mão simbólico, como se selassem um tratado de paz.
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Mais Tarde, na Sala de Estar
Com o clima um pouco mais leve, eles se sentaram para assistir a um filme — algo neutro, para evitar mais discussões.
— Tá vendo? A convivência pode ser suportável — Rafael comentou.
— Até você quebrar alguma coisa de novo ou eu tropeçar em um dos seus sapatos.
— Sempre tão otimista, Costa.
Helena apenas riu, e pela primeira vez, os dois pareciam encontrar um pequeno equilíbrio. Claro, aquilo era só o começo, e ambos sabiam que a estrada seria cheia de obstáculos. Mas, por enquanto, sobreviver ao primeiro dia já parecia uma vitória.
Helena acordou cedo no dia seguinte, decidida a não deixar o caos da noite anterior definir sua convivência com Rafael. Estava com o cabelo preso em um coque bagunçado, vestindo um moletom confortável enquanto organizava a cozinha. Depois de enfrentar o desastre que ele tinha deixado, sentiu-se vitoriosa por finalmente colocar tudo em ordem.
Foi quando Rafael apareceu na porta, bocejando alto e arrastando os pés como se estivesse se adaptando a uma nova zona horária.
— Bom dia, Costa. Acordada e funcional antes das oito? Estou impressionado.
Helena o encarou, levantando uma sobrancelha.
— Alguns de nós têm responsabilidades, Montenegro.
Ele olhou ao redor, notando a cozinha impecavelmente limpa.
— Uau. Você tem poderes sobrenaturais? Isso estava uma zona ontem.
— Nada que um pouco de esforço e organização não resolvam — ela respondeu, enfiando uma caneca de café na mão dele. — E, a partir de hoje, temos horários para organizar a casa.
— Horários? — Rafael repetiu, franzindo a testa enquanto tomava o primeiro gole.
— Sim. Segunda e quinta são meus dias para lavar a louça. Terça e sexta são seus. Vamos revezar o restante.
— Entendi... Então, e os finais de semana?
— Podemos negociar, dependendo de quem estiver mais disposto.
Ele riu, apoiando-se na bancada.
— Não sabia que dividir a casa vinha com contrato secundário.
— Conviver com você exige estratégias.
Rafael levantou as mãos em rendição, ainda rindo.
— Tudo bem, capitã. Siga dando ordens.
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Conflito no Escritório
Depois do café da manhã, Rafael foi para o escritório improvisado, mas o silêncio durou pouco. Helena estava na sala de estar, digitando freneticamente em seu notebook, quando ouviu um barulho alto vindo do andar de cima.
— O que foi isso agora? — murmurou, subindo para verificar.
Ela encontrou Rafael inclinado sobre a mesa, com papéis espalhados por todo lado e um laptop piscando desesperadamente.
— Algum problema?
— Além de tentar convencer investidores de que minha vida pessoal está perfeita? Não, tudo ótimo — ele respondeu com ironia.
Helena cruzou os braços, inclinando a cabeça.
— Vai mesmo jogar isso na minha cara?
Rafael suspirou, esfregando as têmporas.
— Não foi minha intenção. Só estou sob muita pressão, e esse contrato...
— Eu sei — ela o interrompeu, com a voz mais suave. — Estamos no mesmo barco, lembra?
Rafael olhou para ela, surpreso pelo tom conciliador.
— Eu só preciso... parecer estável, sabe? Eles acham que um CEO sem equilíbrio pessoal não pode liderar uma empresa.
Helena abriu um pequeno sorriso, tentando aliviar o momento.
— Então talvez eu devesse te ensinar como lavar louça antes de ensinar como lidar com investidores.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Você é insuportável às vezes, sabia?
— Só às vezes? Achei que fosse sempre.
Os dois se olharam por um instante, uma trégua não declarada pairando no ar.
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Hora do Jantar
O primeiro dia de convivência terminou com Helena decidindo cozinhar. Ela queria algo simples, mas Rafael apareceu na cozinha, insistindo em ajudar.
— Você cozinhando? Isso eu preciso ver — ele disse, encostando na bancada.
— Não estou cozinhando para te impressionar, Montenegro. Estou cozinhando porque prefiro isso a pedir comida toda noite.
— E o que temos no menu?
— Macarrão.
— Clássico.
— Fácil — corrigiu Helena, revirando os olhos.
Ele pegou uma tábua e começou a cortar os ingredientes que ela separara.
— Tá bom, chef Costa. O que faço com isso?
Helena se surpreendeu pela disposição dele, mas não perdeu a chance de provocá-lo.
— Cuidado para não perder um dedo.
Rafael fingiu indignação, mas sorriu enquanto trabalhavam juntos. Aos poucos, a tensão inicial foi dando lugar a uma leve camaradagem. Quando terminaram, sentaram-se para jantar.
— Você não é tão r**m na cozinha quanto imaginei — Rafael admitiu, quebrando o silêncio.
— Obrigada... eu acho.
— Mas não se empolgue. Ainda prefiro delivery.
Helena revirou os olhos novamente, mas não conseguiu evitar um sorriso.
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Final da Noite
Quando finalmente se recolheram para seus quartos, Helena se jogou na cama, exausta, mas satisfeita por terem sobrevivido ao primeiro dia sem maiores desastres. Claro, havia ainda muitos desafios pela frente, mas ela sentiu que, de alguma forma, poderiam encontrar um equilíbrio.
Já Rafael, no quarto ao lado, olhava para o teto, refletindo. Apesar de todas as diferenças, ele não podia negar que havia algo intrigante em Helena. Ela era teimosa, irritante e cheia de regras, mas também determinada, competente e surpreendentemente divertida.
Talvez essa convivência não fosse tão r**m quanto ele imaginava... ou talvez fosse apenas o começo do caos.