A porta da emergência abre num tranco e eu entro com a Daniela nos braços, o lençol grudado no corpo dela, o sangue marcando meu antebraço, o coração martelando feito sirene. Uma equipe vem correndo, a maca surge de algum canto, e eu coloco minha mulher ali como quem deita o próprio peito. O médico que eu chamei - doutor Álvaro - já tá de luva, a voz firme, o olhar cortando o corredor. — Pressão, saturação, acesso venoso agora. Obstetra em sala, chama a toxicologia. Senhor Flávio, precisa assinar aqui. Assino sem ler. Eu só escuto o bip alternando, o zíper da maleta abrindo, a palavra "sangramento" repetida duas, três vezes. O corredor se move como mar em ressaca, e eu fico parado, pesado, com a mão suja procurando o que segurar além do ar. — O que ela tomou? — o médico pergunta sem tir

