Capítulo 2
Paulina Rodrigues
Nunca fui a protagonista da história de ninguém. Sempre fui a piada, a margem, o erro de cálculo nos planos perfeitos de alguém. Mas isso… isso acaba hoje.
Me chamo Paulina Rodrigues. Tenho 27 anos, cabelo liso com as pontas encaracoladas, olhos claros e um corpo que aprendi a aceitar — mesmo quando o mundo inteiro tentou me ensinar o contrário. Moro com meu tio na África, pra bem longe do Rio de Janeiro e de tudo que me quebrou lá atrás.
Desde pequena, meu maior inimigo dormia no quarto ao lado: minha mãe.
Ela dizia que me amava, mas a cada crítica sobre meu corpo, cada regime imposto à força, cada comentário c***l, era como se arrancasse um pedaço de mim.
— Você nunca vai ser feliz desse jeito, Paulina. Homem nenhum gosta de mulher gorda. — repetia ela, como se fosse um mantra.
Enquanto ela me fazia sentir um erro ambulante, meu pai era o único que via valor em mim. Ele me abraçava como se eu fosse inteira, mesmo quando eu me sentia em pedaços.
Na escola, o inferno era diário. Me chamavam de “Paulina, a gorda feia”. E as poucas amizades que eu tinha… bem, só apareciam quando havia algo a se ganhar. Afinal, filha de milionários sempre tem alguma utilidade.
Aos sete anos, ouvi minha mãe dizer que não aguentava mais viver comigo. Que eu era um fardo. Que talvez, um dia, se eu emagrecesse, ela voltasse. Cuspiu na minha cara antes de ir embora.
Foi ali que entendi: ela nunca me amou.
Me tranquei no quarto por dias. Me culpei. Achei que era eu o problema.
Mas meu pai… ele ficou. Sempre ficou.
Com o tempo, a ferida virou cicatriz. Cresci. Fui para o colegial acreditando que, enfim, teria um pouco de paz. Mas o bullying veio ainda mais c***l. Entrar na sala era como atravessar um campo minado.
Então, apareceu Murilo. Bonito, popular, o típico cara que nunca olharia duas vezes para mim. Mas ele olhou. E falou comigo.
— Posso sentar aqui? — perguntou um dia, apontando para a cadeira ao meu lado.
Achei que fosse alguma pegadinha, mas ele insistiu. Disse que queria ser meu amigo. E, depois de um tempo, me pediu em namoro.
— Você tem certeza? — perguntei, insegura.
— Claro que sim. Você é incrível, Paulina. Só não enxerga isso ainda.
Ele foi meu porto seguro. Me tirou da depressão. Me fez acreditar, pela primeira vez, que eu podia ser amada.
Meu pai desconfiava dele. Dizia que Murilo era pobre demais, que não me daria futuro. Mas eu estava cega de paixão. Fiz tudo por ele. E, para não me perder, meu pai cedeu.
Terminei o ensino médio, entrei na faculdade de Letras — meu sonho sempre foi ser intérprete de Libras. Murilo também queria estudar, então começamos a planejar o casamento. Depois de quatro anos juntos e um noivado, marcamos a data.
Mas algo nele mudou. O carinho virou frieza. Os abraços sumiram. As palavras doces silenciaram.
Mesmo assim, continuei acreditando.
No dia do casamento, tudo parecia perfeito. Meu vestido, meu penteado, meus batimentos descompassados de ansiedade. Meu pai veio me buscar no salão.
— Seja feliz, filha. Só não esquece da sua promessa: termina a faculdade, hein? — disse ele, com os olhos marejados.
Entramos na igreja. Estava lotada. Todos se viraram para mim. Meu coração batia forte… até que notei.
Murilo não estava lá.
Andei até o altar. Nada. Nenhum sinal dele.
As pessoas começaram a cochichar. Algumas riram. Meu mundo desmoronou.
— Ele... ele me deixou no altar — sussurrei para mim mesma, sentindo o vestido apertar meu peito como se quisesse me sufocar.
Naquela noite, jurei vingança.
— Isso não vai ficar assim. Ele vai pagar por ter fingido me amar. Vai chorar lágrimas de sangue. — murmurei, enquanto limpava a maquiagem borrada no espelho do quarto.
Meu pai me sugeriu viajar pra África, ficar com meu tio por um tempo. Disse que seria bom pra mim. E, sinceramente, talvez fosse.
Arrumei minhas coisas, embarquei, e deixei o Rio pra trás. Mas o coração… esse veio comigo, remendado, frio e trancado.
Na chegada, meu tio me recebeu com um sorriso caloroso e uma placa com meu nome. Me levou até sua casa, me apresentou algumas pessoas, e depois chegou Jéssica — a filha dele.
Fazia anos que não nos víamos. Hoje, somos amigas. Aquelas por afinidade e por sobrevivência. De tanto apanhar da vida, a gente aprende a reconhecer quem sangra junto.
Agora, tento recomeçar. Faço a faculdade online, ajudo meu tio e tento esquecer o que ficou pra trás.
Mas ontem, ao abrir meu e-mail antigo por engano, algo inesperado apareceu.
Um e-mail. Sem remetente. Com apenas uma frase:
“Você realmente achou que ele te deixaria por nada?”
Meu coração dispara. Olho de novo para a tela do celular como se meus olhos estivessem me pregando uma peça.
“Você realmente achou que ele te deixaria por nada?”
A frase ecoa na minha mente como uma ameaça velada. Meus dedos tremem. Releio o e-mail pela terceira vez. Nenhum remetente. Nenhum assunto. Nenhuma explicação. Só isso. Só essa maldita frase, como se alguém estivesse rindo da minha dor.
— Paulina, tá tudo bem? — pergunta Jéssica da porta, com um copo de suco na mão.
Levanto os olhos, tentando disfarçar o pânico que tomou conta de mim.
— Tá sim… só... tô respondendo um e-mail da faculdade. — minto, forçando um sorriso.
Ela se aproxima, senta ao meu lado no sofá.
— Cê tá meio estranha desde que chegou. Sei que tá tentando ser forte, mas... se quiser conversar, tô aqui, viu?
Assinto com a cabeça, mas não digo nada. Nem sei por onde começar.
O rosto do Murilo aparece como um flash na minha cabeça. O sorriso torto, os olhos castanhos que um dia me fizeram acreditar em amor... e agora só me lembram abandono. Mas... e se não foi só abandono? E se realmente teve algo por trás?
Fecho o e-mail. Jogo o celular de lado. Me levanto como quem precisa tomar uma decisão, mesmo sem saber qual.
— Vou dar uma volta — digo, pegando minha bolsa.
— Vai sozinha?
— É, preciso pensar.
Saio da casa do meu tio com o coração apertado. O sol da África bate forte no meu rosto, mas por dentro tudo continua nublado. Caminho sem rumo pelas ruas movimentadas, tentando me convencer de que foi só uma pegadinha. Alguém querendo me fazer m*l. Gente má existe aos montes.
Mas por que agora? Por que me procurar depois de tudo?
Entro numa cafeteria pequena e discreta. Peço um café forte, sento no canto e puxo meu caderno da bolsa. Sempre escrevo quando tô assim — nervosa, perdida, assustada. A caneta desliza no papel antes mesmo que eu consiga organizar os pensamentos.
“Ele vai pagar. Com cada lágrima que me fez chorar. Mas antes… eu preciso descobrir a verdade.”
Estou terminando de escrever quando escuto uma notificação. O som seco me arrepia.
Pego o celular. Outro e-mail. Agora com assunto:
"Você nunca soube quem ele realmente era."
Engulo em seco. Olho ao redor. Ninguém parece prestar atenção em mim. Mas minha intuição grita.
Abro a mensagem.
“Murilo mentiu desde o primeiro dia. Pergunte a sua mãe o que ela esconde.”
A xícara quase escapa da minha mão.
— Minha mãe? — sussurro.
Saio da cafeteria como se o chão estivesse em chamas. Minha respiração acelera. A cada passo, uma pergunta nova. Uma desconfiança. Uma lembrança distorcida.
Será que minha mãe i... também tem segredos?
Eu achava que já tinha sido traída o suficiente.
Mas talvez, a pior traição… ainda esteja por vir.