3 Paixão perigosa, o dono do morro

1211 Palavras
Capítulo 3 Jéssica Oliveira Desde que me entendo por gente, a vida nunca foi gentil comigo. Mas quem olha pra mim hoje — morena, alta, magra, com 25 anos e um currículo respeitável — jamais imagina o que já enfrentei. Vivo na África com meu pai, mas nasci no Brasil... e algo me diz que em breve estarei de volta pra lá. Moro com minha tia desde pequena. Quer dizer... morava. Ela me criou como filha, mas tudo mudou quando o homem que dizia ser meu tio começou a me olhar de um jeito estranho. Eu tinha apenas sete anos. Sete. A idade em que uma criança deveria brincar e sorrir... e não temer quem deveria protegê-la. Minha história começa bem antes disso. Quando minha mãe descobriu a gravidez, meu pai anunciou que tinha conseguido um emprego na África. Ela não quis ir. Se separaram. Sozinha, grávida e sem rumo, minha mãe se entregou às drogas e à bebida. Viveu nas ruas comigo na barriga, pedindo esmola, dormindo em calçadas. Nasci em meio a mendigos, com fome, frio e choro. Ela foi levada ao hospital, mas em poucos dias voltamos para as ruas. Até que apareceu um homem. Dizia que daria comida e teto em troca de... favores. Minha mãe aceitou. E eu? Eu era só um incômodo. Chorava de fome e solidão. Minha salvação veio em forma de uma senhora de olhar firme: minha avó. Ela descobriu onde estávamos e me levou embora. Com a ajuda da minha tia, fomos viver na África. Minha avó trabalhava muito, então minha tia virou minha mãe de fato. Ela me deu colo, escola, amor. Eu achava que, finalmente, seria feliz. Mas a felicidade, pra mim, sempre foi uma miragem. — Você anda provocando demais — disse minha avó, fria, no dia em que criei coragem pra contar que o namorado da minha mãe tinha tentado me tocar de novo. Como uma criança de sete anos provoca alguém? O silêncio virou meu abrigo. Não contava nada pra ninguém. Mas algo em mim gritava por justiça. Comecei a fazer cursos de idiomas — francês, inglês — e, com a ajuda de alguns amigos, fui atrás do meu pai. Um deles disse: — Acho que encontrei um homem que pode ser ele... quer que eu marque um encontro? Concordei. Pouco tempo depois, conheci o homem que mudou meu destino. Contei tudo. Cada abuso, cada medo. Ele ficou em choque. Foi direto tirar satisfação com aquele traste que dizia me amar como filha. Depois entrou na justiça e conseguiu minha guarda. Passei a morar com ele. Mas as palavras que ouvi, os olhares, as ameaças... nada disso saiu de mim. Até hoje, há noites em que acordo suando frio, sentindo mãos que já não estão mais aqui. Terminei os estudos. Trabalho com meu pai. Tenho saudade da minha tia, da mulher que me chamava de filha, mas não posso esquecer que ela me virou as costas no momento em que mais precisei. Agora, meu pai diz que minha prima Paulina veio morar aqui também. — Talvez vocês se deem bem — ele comenta, sorrindo. — Ela parece uma boa menina. Paulina chegou há alguns dias. Linda. Reservada. Carrega no olhar uma dor que reconheço bem. Tento me aproximar, mas percebo que ela tem dificuldade em confiar. — Tá tudo bem? — pergunto um dia, enquanto ela organiza papéis da ONG onde dá aulas. — Tá sim — ela responde rápido, sem nem me olhar nos olhos. No fundo, sei que não tá. E eu também não tô bem. Tem noites que os pesadelos voltam. O passado bate à porta. Descobri que minha mãe quer me ver. Só de pensar nisso, me dá enjoo. Ela ainda anda com aquele cara. O mesmo que tentou me destruir. Se meu pai soubesse... Mas eu escondo. Guardo dinheiro, faço planos em silêncio. Um dia, vou embora daqui. Não quero mais viver olhando por cima do ombro. Quero voltar pro Brasil. Começar de novo. Talvez no Rio de Janeiro. Fazer faculdade, ser alguém longe de tudo que me machucou. Paulina pode ser minha ponte pra essa fuga. Ela me chamou pra ser assistente dela na ONG enquanto estiver aqui. — Mas depois eu vou voltar pra São Paulo — disse ela. — Sinto falta do meu pai. Talvez eu vá com ela. Uma chance de fugir do medo. De mim mesma. Do que ainda pode acontecer. Mas tem uma coisa que Paulina ainda não me contou... algo que ela tenta esconder a todo custo. E, pelo jeito, não sou a única aqui tentando escapar de um passado que insiste em voltar. Paulina Rodrigues Acordo com um peso no peito. Tem dias que simplesmente não quero sair da cama. Tento me convencer de que estou bem, que o pior já passou… mas meu corpo sabe que ainda não passou. E meu silêncio também. Levanto devagar, prendo o cabelo num coque bagunçado e visto a camiseta da ONG. Hoje vou dar aula de reforço para duas turmas, e Jéssica vai me ajudar. Ela tem sido gentil, atenciosa até demais... e isso me assusta. Quando alguém é bom comigo, minha cabeça logo desconfia. Talvez trauma, talvez instinto. Ela me espera na porta com um sorriso discreto. — Pronta pra encarar mais um dia de caos? — pergunta, brincando. — Se for com café, talvez — respondo tentando parecer leve, mas minha voz sai baixa demais. No caminho, ela tenta puxar assunto. — Você gosta de dar aula? — Gosto. É o que me mantém de pé. Ela concorda com um aceno e ficamos em silêncio por alguns minutos. O som da rua preenche os espaços vazios entre a gente. — Sabe... eu também finjo que tô bem às vezes — ela solta de repente, sem me olhar. Eu paro. — Como assim? — Às vezes sorrir é só uma forma de não chorar — ela responde, com os olhos fixos no chão batido. Sinto um aperto no estômago. Queria dizer que entendo. Que sinto o mesmo. Mas tenho medo de me abrir. Medo de contar demais. Durante a aula, vejo como ela se conecta fácil com as crianças. Elas riem com ela, confiam nela. Fico observando de longe, e por um momento penso que talvez... talvez ela possa ser minha amiga de verdade. Mas logo a ideia se desfaz. Toda vez que me aproximei demais de alguém, me machucaram. No intervalo, estamos sentadas sob a sombra de uma árvore. Ela toma água enquanto eu folheio alguns papéis. — Já pensou em voltar pro Brasil? — ela pergunta, quebrando o silêncio. — Já. Todo dia. Mas não posso — respondo, mais rápido do que devia. Ela percebe. Me encara, séria. — Alguém te impediu? Demoro pra responder. O vento bate no meu rosto e me arrepia. Queria tanto poder contar tudo, mas minhas palavras ainda estão presas naquela noite… naquela voz… naquele toque. — Algumas feridas ainda sangram — sussurro. — E tem coisas que a gente guarda porque ninguém acreditaria se ouvisse. Ela assente, devagar. E pela primeira vez, vejo que ela entende. De verdade. — Eu acredito em você, Paulina — diz. — Seja o que for. Nesse momento, pela primeira vez em muito tempo, sinto vontade de confiar em alguém. Quase conto tudo.
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