Pré-visualização gratuita ANTES DO SILÊNCIO
A mansão dos Antunes nunca dormia de verdade.
Mesmo nas manhãs mais calmas, havia sempre algum som atravessando os corredores largos: o eco suave de passos sobre o mármore claro, o zumbido distante de aparelhos eletrônicos, o farfalhar constante das cortinas longas sendo embaladas pelo vento que entrava pelas janelas gigantes de vidro.
Naquele dia, porém, tudo parecia mais vivo.
Gabriella Antunes desceu a escada principal ainda de pijama, os cabelos longos e escuros presos de qualquer jeito no alto da cabeça, alguns fios rebeldes caindo pelo rosto. Tinha acabado de acordar, mas já carregava no corpo uma energia inquieta, uma animação que fazia seus passos serem mais rápidos do que o habitual.
— Mãe! — chamou, antes mesmo de chegar ao último degrau. — Você viu meu biquíni branco? O de amarrar do lado!
A voz dela ecoou pela sala ampla, iluminada pela luz dourada da manhã que entrava pelas paredes de vidro. O jardim impecável lá fora parecia uma pintura viva: palmeiras altas, piscina azul-turquesa, flores perfeitamente alinhadas.
— No closet da praia! — respondeu Helena Antunes, da cozinha, com o mesmo tom firme e doce de sempre. — Onde você mesma guardou, Gabriella.
Gabi fez uma careta automática, mesmo sabendo que a mãe não podia ver.
— Eu não guardei, eu organizei temporariamente — retrucou, rindo sozinha.
Aos dezoito anos recém-completados, Gabriella era o retrato exato da vida confortável que sempre tivera. Nunca precisou se preocupar com horários rígidos, contas, responsabilidades reais. Cresceu cercada de amor, dinheiro, proteção… e de uma certeza silenciosa de que o mundo sempre daria um jeito de funcionar a seu favor.
Ela atravessou a sala, passou pela cozinha sem parar — onde Helena supervisionava algumas malas abertas sobre a ilha de mármore — e seguiu direto para o corredor que levava à ala íntima da casa.
A viagem tinha sido ideia do pai.
— Precisamos sair um pouco — Augusto Antunes dissera dias antes, durante o jantar. — Só nós três. Sem reuniões, sem compromissos, sem telefone tocando o tempo todo.
Augusto era aquele tipo de homem que parecia sempre no controle de tudo. Alto, postura impecável, olhar firme. Um empresário respeitado, construído do zero, que nunca deixou o sucesso subir à cabeça quando se tratava da família.
E talvez por isso Gabriella fosse tão ligada a ele.
Ela o adorava. Admirava. Sentia-se segura só de estar perto.
No quarto espaçoso, o sol já invadia a varanda. Gabriella abriu o closet enorme, passou os dedos pelos vestidos pendurados em perfeita ordem e puxou o biquíni que procurava.
Sorriu.
A viagem seria curta. Dois dias, no máximo. Um hotel à beira-mar, daqueles discretos e luxuosos, onde ninguém incomodava ninguém. Só descanso, comida boa, risadas e… nada de obrigações.
Ela voltou para a cozinha com o biquíni na mão, sentando-se em um dos bancos altos.
— Eu vou usar esse — anunciou. — Quero pegar sol sem marca estranha.
Helena olhou para a filha por cima dos óculos, arqueando a sobrancelha com um meio sorriso.
— Você sempre quer pegar sol sem marca estranha.
— Porque marca estranha é feio — Gabi respondeu, convencida, arrancando uma risada da mãe.
Helena Antunes era uma mulher elegante sem esforço. O tipo de beleza que não precisava gritar para ser notada. Cabelos claros bem cuidados, postura delicada, voz calma. Sempre foi o equilíbrio da casa.
— Seu pai está no escritório — avisou. — Tentando, pela milésima vez, fingir que consegue se desligar do trabalho.
Como se tivesse sido chamado pelo comentário, Augusto apareceu na porta da cozinha segundos depois, o celular ainda na mão.
— Eu ouvi isso — disse, fingindo ofensa. — E estou, sim, desligado.
Helena cruzou os braços.
— Você acabou de mandar um áudio de três minutos.
— Foi o último — garantiu, guardando o aparelho no bolso do paletó que já estava dobrado sobre o braço. — Promessa.
Gabriella levantou do banco e foi até ele, abraçando-o pela cintura.
— Você merece descansar, pai. — apoiou o queixo no peito dele. — E eu mereço praia.
— Claro que merece — respondeu, beijando o topo da cabeça da filha. — Vocês duas são a melhor parte da minha vida. O resto pode esperar.
Havia algo de tranquilo, quase eterno, naquele momento.
As malas foram sendo fechadas aos poucos. Helena revisava cada detalhe, enquanto Gabriella circulava pela casa, indo e vindo, escolhendo óculos escuros, chapéus, livros que talvez nem fossem lidos.
— Não esquece o protetor solar! — gritou a mãe do quarto.
— Já coloquei três! — respondeu Gabi. — Um pra mim, um pra você e um pro pai que nunca passa direito.
— Eu passo sim — defendeu-se Augusto, da porta. — Às vezes.
Riram juntos.
O motorista já aguardava do lado de fora, mas Augusto decidiu que ele mesmo dirigiria.
— Quero ir com calma — disse. — Curtir a estrada.
Gabriella adorava isso. Sempre que o pai dirigia, ela se sentava no banco de trás, observando os dois, sentindo aquela sensação boba e confortável de pertencimento.
Antes de sair, ela fez algo automático: olhou ao redor da sala uma última vez.
A mansão estava como sempre esteve. Linda. Segura. Cheia de vida.
Ela não sabia — não tinha como saber — que aquela seria a última vez que veria aquele lugar da mesma forma.
No carro, o clima era leve. Música tocando baixo, conversa solta, comentários sobre o hotel, sobre o que comeriam, sobre o quanto Helena precisava relaxar.
— Você anda muito tensa — comentou Augusto, olhando para a esposa pelo retrovisor.
— Alguém precisa se preocupar com tudo — respondeu ela, com um sorriso cansado.
Gabriella observava os dois em silêncio, apoiando a cabeça na janela. Sentia-se completa. Protegida. Como se nada no mundo fosse capaz de atravessar aquele espaço pequeno onde os três existiam juntos.
A estrada se estendia à frente.
O céu estava limpo demais. Azul demais.
E, por um instante breve e inexplicável, Gabriella sentiu um aperto estranho no peito.
Um desconforto sem nome.
Ela franziu a testa, tentando afastar a sensação.
— Tá tudo bem? — perguntou a mãe, virando-se um pouco.
— Tá — respondeu rápido. — Só sono.
Fechou os olhos por alguns segundos.
O riso do pai, a voz da mãe, a música no rádio… tudo se misturava num fundo confortável, quase hipnótico.
E então—
O som.
Metal.
Um impacto brutal.
Luz.
Escuridão.
Silêncio.