Magno não correu.
Ele caminhou.
Mas cada passo parecia comprimir o chão sob os pés.
Henrique ainda segurava o braço de Gabriella quando percebeu a aproximação. O sorriso que ele usava até segundos antes se dissolveu lentamente.
Magno parou a poucos metros.
O olhar não estava mais controlado.
Não havia polidez.
Não havia diplomacia empresarial.
Havia algo muito mais primitivo.
— Solta ela.
A voz saiu baixa. Grave. Densa.
Henrique não soltou imediatamente.
— Ela não está presa.
Magno deu um passo à frente.
— Eu não vou repetir.
Gabriella sentiu o coração disparar.
— Magno, para…
Mas ele nem piscou para ela.
Os olhos estavam fixos em Henrique.
Henrique soltou o braço dela com um leve empurrão displicente.
— Você acha mesmo que manda em tudo?
Silêncio.
Magno aproximou o rosto.
Perto demais.
— Eu sei exatamente quem você é.
Henrique soltou uma risada curta.
— Sabe?
— O cara que aparece em eventos, se aproxima das mulheres certas, promete o que não cumpre e desaparece quando enjoa.
Henrique ergueu o queixo.
— Cuidado com as palavras.
— Eu não estou aqui para ser cuidadoso.
Gabriella deu um passo entre eles.
— Já chega.
Magno moveu levemente o braço, afastando-a para trás, sem olhar.
O gesto foi protetor.
E possessivo.
Henrique notou.
E sorriu de lado.
— Interessante.
Magno inclinou a cabeça.
— O quê?
— Você se acha o herói.
A mandíbula de Magno tensionou.
— Eu não vou deixar você brincar com a minha afilhada.
A palavra ecoou no ar.
Henrique arqueou a sobrancelha.
— Afilhada.
Ele repetiu, quase saboreando.
— Engraçado você usar esse título agora.
Magno avançou meio passo.
Henrique recuou.
Eles começaram a se mover inconscientemente pelo jardim, afastando-se do centro do evento, aproximando-se da pequena ponte de madeira que atravessava um braço raso do mar.
A água estava calma.
Quase irônica demais para o que estava prestes a acontecer.
— Você não sabe nada sobre mim — Henrique rebateu.
— Sei o suficiente.
— Sabe por ouvir boatos?
— Sei pelo histórico.
Henrique riu.
— E você? Qual é o seu histórico, Magno?
Silêncio pesado.
Eles continuavam caminhando.
Henrique andando para trás.
Magno avançando.
Gabriella seguindo alguns passos atrás, tentando intervir, mas sem conseguir espaço.
— Eu não sou o problema aqui — Magno disse.
Henrique parou por um segundo na entrada da ponte.
O vento bateu mais forte ali.
— Não?
Ele inclinou a cabeça.
— Então por que você nunca conseguiu construir nada além de negócios?
A frase foi calculada.
Magno estreitou os olhos.
Henrique continuou.
— Nunca casou.
— Nunca teve filhos.
— Nunca ficou com ninguém tempo suficiente para que alguém acreditasse que você presta para algo além de contratos.
Gabriella sentiu o estômago despencar.
— Henrique, chega!
Mas ele não parou.
Ele sabia que tinha encontrado algo.
— Talvez o problema não seja eu brincar com mulheres.
Ele deu mais um passo para trás, já no meio da ponte.
— Talvez o problema seja você não ser capaz de manter uma.
Silêncio absoluto.
Magno não se moveu por dois segundos.
Mas quando se moveu…
Foi rápido demais.
Ele avançou.
Henrique tentou recuar, mas a madeira da ponte limitava os movimentos.
O primeiro soco veio seco.
Direto.
Acertou o maxilar.
O som ecoou alto.
Henrique cambaleou, mas reagiu quase imediatamente.
O segundo golpe veio do outro lado, atingindo o rosto de Magno.
Gabriella gritou.
— PARA! VOCÊS DOIS!
Mas ninguém ouvia mais nada.
Magno segurou Henrique pela camisa.
Empurrou.
A madeira rangeu sob o impacto.
Henrique acertou um golpe no abdômen de Magno.
Magno respondeu com outro no rosto.
Sangue apareceu no canto da boca de Henrique.
Convidados começaram a perceber a movimentação.
Alguns se aproximavam correndo.
Outros observavam chocados.
Henrique tentou se desvencilhar, mas Magno o agarrou pelo colarinho e o empurrou contra o corrimão da ponte.
— Fica longe dela.
Henrique cuspiu sangue para o lado.
— Você não manda nela.
Ele empurrou Magno com força.
Os dois se chocaram contra a lateral da ponte.
A estrutura balançou.
Gabriella subiu os primeiros degraus.
— Magno! Chega!
Henrique aproveitou a distração e acertou um soco direto no rosto dele.
Magno perdeu o equilíbrio por um segundo.
Henrique avançou agora.
O orgulho inflamado.
Os dois começaram a trocar golpes sem técnica, movidos por pura adrenalina.
Punhos.
Empurrões.
Ofensas.
— Você é um fracasso!
— Pelo menos eu não uso as pessoas!
— Você acha que protege alguém?!
— Eu protejo ela de você!
A ponte estremeceu novamente.
Um dos convidados gritou para alguém chamar a segurança.
Mas já era tarde.
Num movimento brusco, Henrique tentou se livrar segurando Magno pelos ombros.
Magno reagiu, puxando-o pelo braço.
O corrimão cedeu.
E, num segundo desequilibrado, os dois perderam apoio.
Caíram juntos.
A água explodiu ao redor deles.
O impacto foi forte.
O braço do mar não era fundo, mas suficiente para engolir o corpo inteiro por alguns segundos.
Gabriella correu até a beira.
— MAGNO!
Os dois emergiram quase ao mesmo tempo.
Mas não pararam.
Henrique tentou empurrar Magno para baixo.
Magno reagiu, puxando-o pelo pescoço.
A água espirrava.
Areia levantava do fundo.
Camisas encharcadas colavam ao corpo.
Henrique conseguiu posicionar o antebraço contra o pescoço de Magno.
Tentou pressionar.
— Você acha que é melhor que eu?!
Magno empurrou a cabeça dele para dentro da água.
— Eu sou melhor que você!
Henrique voltou à superfície, tossindo.
Agarrou o braço de Magno.
Puxou.
Tentou virar o corpo dele para baixo.
A água começou a ficar turva.
Convidados gritavam.
Dois homens tentavam descer para separar.
Mas os dois estavam cegos de raiva.
Magno acertou um soco dentro d’água.
Henrique respondeu agarrando-o pela camisa e puxando para baixo.
Por um segundo.
Dois segundos.
Magno ficou submerso.
Gabriella sentiu o mundo parar.
— TIRA ELE!
Henrique também foi puxado para baixo quando Magno reagiu, agarrando sua perna.
Agora os dois estavam meio submersos, lutando de forma desorganizada.
Água entrando pela boca.
Respiração falhando.
Orgulho queimando mais que o oxigênio.
Um dos convidados finalmente conseguiu agarrar Henrique por trás.
Outro puxou Magno.
Mas mesmo separados, eles ainda tentavam avançar.
— SOLTA!
— EU ACABO COM VOCÊ!
— TENTA!
A água escorria pelos rostos.
Sangue misturado com sal.
Respiração pesada.
Gabriella desceu até a parte rasa, sem se importar com o vestido molhado.
— PARA, MAGNO!
Ele virou o rosto para ela.
Os olhos ainda inflamados.
Mas havia algo ali agora.
Não era só raiva.
Era dor.
Era algo ferido em um lugar mais fundo do que o rosto machucado.
Henrique tentou avançar de novo.
Precisou ser segurado por dois homens.
— Isso não acabou! — ele gritou.
Magno tentou ir também.
— Você nunca mais chega perto dela!
— Ela não é sua propriedade!
O grito ecoou.
Silêncio pesado.
Porque aquela frase acertou.
Não só Magno.
Mas Gabriella também.
Ela ficou parada.
No meio da água.
Entre os dois.
O vento soprava forte.
Os convidados observavam chocados.
O evento estava oficialmente arruinado.
Mas aquilo já não importava.
Magno ainda ofegava.
Henrique ainda tentava se soltar.
E Gabriella percebia, com um frio no estômago, que aquilo não tinha sido só sobre proteção.
Tinha sido sobre posse.
Sobre orgulho.
Sobre algo que nenhum dos dois tinha coragem de nomear.
Seguranças finalmente chegaram correndo.
Afastaram Henrique.
Afastaram Magno.
Mas os olhares continuaram conectados.
Promessas silenciosas de que aquilo ainda teria consequências.
A água lentamente voltava a ficar calma.
Mas o caos tinha sido plantado.
E ninguém ali sairia ileso.