Capítulo 19

1397 Palavras
Ceifador narrando Eu não sei por que ainda não arranquei a língua da Valentina. Aquela boca desenhada, que parece ter sido esculpida para o prazer, ela só usa para roubar a pouca paz que eu ainda tento manter, ela me desafia com o olhar, me ataca com as palavras e me faz questionar por que ainda não a joguei em uma vala qualquer. Mas a verdade é que, no meio de tanta sujeira, aquela petulância dela é a única coisa que me faz sentir que ainda estou lidando com alguém vivo, e não com os fantasmas que me cercam. O dia começou azedo, antes mesmo de o sol bater forte na laje, o Francisco aquele verme de terno que se acha dono do mundo teve a audácia de me cobrar. Ele quer sangue, quer prova, quer o fim da Doutora. m*l sabe ele que quem dita o tempo aqui sou eu, e o Letinho, com aquela mania de achar que a vida é um baile, tentou fazer gracinha. Mandei ele calar a boca antes que eu o fizesse perder os dentes, e o clima só piorou quando o rádio chiou avisando da zona que a Rita estava fazendo na feira. Aquela v***a passou dos limites, tocar na Valentina foi o seu pior erro, levei a Doutora de volta para a Casa, carregando-a como o fardo precioso que ela se tornou, no quarto, limpei os ferimentos dela com uma paciência que eu desconhecia possuir, ver o lábio dela partido me deu um ódio que não era apenas profissional. Eu precisava do anel, precisava daquela esmeralda para selar a mentira que manteria a vida dela protegida do Francisco. — Me entrega o anel, Valentina — ordenei, a voz gélida. — É isso ou a tua vida. O Francisco não aceita recibo, ele aceita carne e prova. Ela hesitou. Vi o brilho nos olhos dela, uma mistura de luto e revolta. Lentamente, ela deslizou a joia pelo dedo e me entregou. O metal ainda estava quente do corpo dela, eu percebi, pelo jeito que ela apertou os lábios, que aquele anel significava o mundo para ela uma herança, um pedaço de quem ela era antes de cair no meu inferno. Mas não falei nada. No meu mundo, sentimentos não param bala de fuzil. — Vou no micro-ondas. Preciso preparar a encomenda do Francisco — anunciei, guardando o anel no meu bolso. — Como você vai fazer isso? — ela perguntou, a sua voz trêmula, os olhos arregalados de horror. Dei um sorriso de lado, aquele que faz os moleques da contenção baixarem a cabeça. — Você não vai gostar de saber, Doutora. Tem coisas que o teu estômago de porcelana não aguenta. Fica aí e não sai desse quarto. Saí de casa, montei na moto e fui para onde o cheiro de pneu queimado e carne podre nunca sai do ar, o "Micro-ondas" é o meu confessionário, e hoje eu seria o padre, assim que estacionei, o som dos soluços da Rita cortou o silêncio dali Ela estava lá dentro, sendo devidamente "educada" pelo Letinho. Entrei na salinha de concreto encardido, o cheiro de suor e medo era absoluto. Rita estava jogada num canto, um trapo humano, sangrando e soluçando. Letinho estava de pé, limpando as mãos num pano. — Bom trabalho, Letinho — falei, observando o estado da mercadoria. — Valeu, irmão — ele respondeu com aquele deboche característico, ajeitando o fuzil no ombro. — Sabe como é, eu sou o artista da tortura. Essa aqui deu trabalho, mas agora tá bem pianinha. Rita levantou os olhos inchados para mim, tentando encontrar alguma sombra do homem que deitava com ela. — Ceifador... por que você tá fazendo isso comigo? — ela choramingou, a sua voz falha. — Eu sempre fechei contigo, sempre fui leal... Caminhei até ela e me agachei, segurando o queixo dela com uma força bruta. — Cala a boca. v***a não fecha com bandido, v***a fecha com os malotes que ganha dando a b****a repassada pra gente. Tu achou que era patroa? Tu achou que podia tocar na minha hóspede? Larguei o rosto dela com nojo e fui até a mesa onde ficavam meus instrumentos de trabalho, alicates, maçaricos, tesouras industriais. Peguei uma tesoura de poda, pesada e bem afiada. — Pela primeira vez na vida, tu vai ter uma serventia além de sair por aí sentando pra qualquer um que pague — anunciei, testando o corte da lâmina no ar. — Não... por favor! Eu não quero morrer! — ela começou a gritar, tentando se arrastar para longe. — Eu não vou te matar, Rita. Não hoje. Mas vou deixar uma lembrança no teu corpo pra tu nunca mais esquecer de não se meter com a Valentina. — Olhei para o meu sub. — Letinho, segura a mão dela na mesa. Agora. Letinho soltou uma piada curta: — Vai perder o esmalte, bonitona! Ele a prensou contra a madeira. Rita implorava, jurava por Deus, pela mãe, pelo morro que nunca mais chegaria perto da Valentina. Eu apenas sorri, o meu tempo de conversa tinha acabado quando o primeiro tapa foi dado na feira. — Tu não vai encostar mesmo, Rita. Porque agora tu vai sentir o peso da minha Palavra. — NÃO! CEIFADOR, POR FAVOR! EU NÃO ENCOSTO MAIS NELA! EU JURO! EU SUMO DO MORRO! — Rita berrava, o corpo debatendo-se em espasmos de pavor puro. Sorri. Um sorriso sem alma. — Tu não tem mais idade pra brincar de valentona. Com um movimento rápido e preciso, posicionei a tesoura no dedo anelar dela. O som do osso sendo esmagado e da carne sendo cortada foi abafado pelo grito lancinante, um som agudo que rasgou o silêncio do morro e se perdeu no abismo. — AAAAAAARGH! MEU DEUS! PARA! PARA! — Ela desabou, o corpo entrando em choque enquanto o sangue jorrava sobre a mesa. Eu não pisquei. Peguei o anel de esmeralda da Valentina e o deslizei pelo dedo decepado, que ainda retorcia em reflexos nervosos. Encaixou perfeitamente. — Pronto. O Francisco quer uma prova? Pois agora o anel de esmeralda tem um novo dono: um pedaço de carne que vai servir de banquete pra ganância dele. — Olhei para o Letinho, que observava a cena com uma sobrancelha erguida. — Embala isso. Manda pro asfalto agora. Quero que o Francisco sinta o cheiro da morte antes do jantar. Deixei a Rita ali, gritando e sangrando, uma lição viva de que no meu império, quem desafia o Ceifador não perde apenas a razão; perde pedaços de si mesma. Voltei para a boca passando o resto do dia resolvendo as pendências que mantêm essa engrenagem girando. Conferi fuzil, dei ordem de despejo, assinei a sentença de quem achou que podia desviar carga, e quando o relógio marcou cinco e meia e o sol começou a se despedir eu vazei. Cheguei em casa e encontrei a Valentina na laje, o vento lá em cima soprava forte, trazendo o cheiro do mar misturado ao da pólvora, ficamos em silêncio por um tempo, observando o asfalto começar a brilhar lá embaixo, tirei o meu rosário do pescoço e deixei que as caveiras de osso balançassem entre meus dedos. Valentina olhava para aquilo com horror, eu peguei uma das contas, a menor delas, polida pelo tempo. — Tá vendo essa aqui? — perguntei, a minha voz saindo mais baixa que o vento. — Não foi uma conta de negócio. Foi o primeiro homem que tentou tirar a minha vida quando eu não era nada além de um moleque com fome. Ele achava que eu era fraco porque eu tinha piedade. Olhei bem nos olhos dela, sentindo uma vulnerabilidade que eu odiava, mas que não conseguia sufocar perto dela. — A piedade é um luxo que eu enterrei junto com ele, Valentina. Cada osso desse aqui é uma lição de que, se eu não for o monstro, eu viro a caça. — Aproximei meu rosto do dela, o meu hálito quente batendo na sua pele fria. — O Francisco quer o teu fim, o Lobo quer o meu império. E você... você é a única conta desse rosário que eu ainda não decidi se quero carregar ou se quero quebrar. Naquele momento, no topo do mundo que eu conquistei com sangue, a Doutora e o Bandido eram apenas dois fantasmas esperando a noite engolir o que restava da luz.
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