Pré-visualização gratuita Prólogo
Ceifador narrando
O cheiro de ferro e pólvora queimada é o meu perfume favorito, tem quem prefira o aroma do dinheiro limpo ou de perfume importado, mas, para mim, nada supera o odor do fim, o silêncio que se segue após o último suspiro de um traidor é a única paz que eu conheço.
Eu olhei para o corpo estirado aos meus pés o sujeito ainda tentou implorar, as mãos trêmulas pedindo uma misericórdia que eu não carrego no peito meu desde os dez anos de idade, agora, ele era apenas carne apenas um registro no meu caderno e um espaço vago que em breve seria preenchido no solo do morro.
Lentamente, enfiei a minha mão no bolso da minha calça cargo, meus dedos tocaram a superfície fria e polida do pequeno crânio de marfim, era uma peça artesanal, esculpida na dor, retirei o Rosário de Crânios que carregava no meu pescoço meu amuleto, minha maldição, o meu contador de almas.
— Santa Morte, senhora do repouso eterno... — sussurrei, a minha voz rouca como o atrito de duas pedras. — Recebe esse lixo que eu te mando. Que o caminho dele seja escuro, porque a luz ele perdeu quando cruzou o meu caminho.
Rezo para a morte porque ela foi a única que nunca me abandonou, no meu mundo, o amor é uma fraqueza que te faz sangrar, mas o ódio... o ódio é um combustível que nunca acaba. Enquanto eu apertava o rosário, o cheiro do sangue fresco me levou de volta a minha infância a décadas atrás, o cheiro não era de ferro, era de podridão. O lixão da Baixada.
Eu era apenas um moleque, um resto de gente abandonado pela mãe que preferiu o vício ao filho. A fome não dói, ela queima. Ela te transforma em. Eu me lembro do homem que tentou tirar de mim o único pedaço de pão mofado que eu tinha conseguido em três dias, ele era maior, mais forte, exalava cachaça e maldade.
— Me dá isso aqui, seu verme! — ele gritou, me jogando no chão e rindo da minha miséria.
Naquele momento, algo quebrou dentro de mim, o medo secou, e o ódio nasceu, puro e absoluto. Minha mão tateou o solo imundo e encontrou uma pedra pontiaguda, pesada. Eu não pensei. Eu agredi. O primeiro golpe abriu a testa dele. O segundo esmagou o nariz. Eu continuei batendo até que o rosto dele fosse apenas uma massa de carne e arrependimento. Quando ele parou de se mexer, eu não chorei. Senti um silêncio absoluto. A paz do poder.
Com uma faca cega que achei entre o lixo, passei horas talhando um osso da costela daquele homem. Eu queria um troféu. Queria lembrar que, a partir daquele dia, eu não seria mais a presa. Eu seria o Ceifador.
— Irmão? O playboy chegou na barreira, tá num blindado preto, escoltado, achando que é o dono da rua.
A voz do Letinho, meu sub e braço direito, me trouxe de volta ao presente. Letinho era o único cara que não abaixava o olhar para mim, mas respeitava a hierarquia como se fosse uma lei divina
— Ele tá no horário, Letinho. Playboy com medo costuma ser pontual — respondi, guardando o meu rosário por dentro da camisa.
— Qual é a visão, Ceifador? O cara exala dinheiro, mas cheira a problema. Francisco Gomes não sobe o morro pra dar boa noite.
— Ele vem comprar uma morte, Letinho. É o que esses caras de terno fazem. Eles dão a ordem, eu dou o fim, e as mãos deles continuam cheirosas. Prepara a escolta. Se algum segurança dele tossir estranho, faz o morro descer em fogo.
Desci a ladeira na minha moto, o ronco do meu motor ecoando nas vielas na entrada do morro, o SUV blindado de Francisco Gomes brilhava sob os refletores da barricada, parei ao lado, observando os seguranças dele tensos, com as mãos nos coldres. Amadores, se eu quisesse, eles estariam mortos antes de piscarem.
Sem descer da moto, chutei a porta do carona, o vidro baixou lentamente, revelando o rosto polido e arrogante de Francisco.
— Você demorou, Ceifador — ele disse, tentando manter a pose de autoridade.
— O tempo aqui é meu, Francisco. Se tá com pressa, o asfalto é logo ali, o que tu trouxe pra mim?
Ele me estendeu um envelope pardo, grosso. Dinheiro e informação.
— Uma advogada. Valentina, ela está travando meus negócios na Baixada, mexendo onde não deve, ela é um obstáculo que precisa ser removido. Quero ela morta, sem rastro. Quero que ela suma da face da terra.
Puxei o envelope, sentindo o peso do contrato de sangue.
— Mais uma vítima da sua ganância? — debochei, soltando a fumaça na direção dele.
— Eu não te pago para questionar, pago para executar. Quero o anel dela como prova, e quero que ela sofra, ela acha que a lei pode me parar... mostre a ela que a sua lei é a única que importa.
— O anel vai estar na sua mesa — falei, gelado. — Agora vaza da minha frente antes que eu mude o preço.
Francisco partiu, deixando o cheiro de pneu queimado para trás. Eu não fiquei ali pra ver a poeira baixar, mete marcha na moto e acelerei ladeira acima, cortando os becos, subindo até o ponto mais alto da favela, onde a minha casa fica estacionei de qualquer jeito e entrei, joguei o envelope sobre a mesa de madeira rústica enquanto o Letinho entrava logo atrás.
— Vai passar o cerol na doutora, irmão? — Letinho perguntou, encostado no batente da porta, enquanto limpava o fuzil.
— É o que o contrato diz, Letinho. Mais uma alma pro meu rosário.
Abri o envelope, e a foto deslizou entre meus dedos Valentina.
O impacto foi como um tiro à queima-roupa, olhos castanhos, profundos, que pareciam encarar me encarar com uma petulância que me fez apertar o rosário por cima da camisa, lábios finos, nariz afilado, cabelos escuros e ondulados que transbordavam uma pureza que não pertencia ao meu mundo de sombras.
Francisco queria sua língua, seus dedos, sua vida. Senti algo que nunca senti por um alvo. Meus dedos traçaram o contorno do rosto dela na foto, e um calor possessivo, quase doentio, subiu pelo meu pescoço.
— Que foi, irmão? Algum Problema? — Letinho se aproximou, notando meu silêncio incomum.
— Não é um problema — respondi, a minha voz mais baixa, carregada de uma promessa sombria. — É uma sentença.
— A morte dela?
Olhei para a foto, depois para o meu rosário. Valentina não era apenas uma missão; ela era um contraste violento com tudo o que eu era. Pela primeira vez, o meu rosário parecia errado para aquela alma.
— Não, Letinho eu quero que esses lábios finos gritem o meu vulgo, eu quero que esses olhos castanhos percam essa petulância diante de mim, o Francisco quer ela morta... mas eu? Eu a quero viva.
Letinho ficou surpreso.
— Mas... Francisco não é homem de brincadeira, Ceifador. Se ele descobrir que tu tá dando linha pra doutora, vai virar guerra.
— Francisco é um rato de terno, eu sou o dono do império, se eu decidir que ela vive, ela vive. Mas ela não vai viver no asfalto. Ela vai ser minha. Vou arrancar ela daquele mundo de mentiras e enterrar ela aqui, no meu prazer e na minha dor.
Letinho me olhou com cautela, ele conhecia o meu olhar de morte, mas esse olhar de posse... esse era novo, esse era perigoso.
— Valentina... — sussurrei o nome dela, sentindo o gosto da palavra. — Você não vai virar uma conta no meu rosário. Você vai ser a cativa do meu inferno.
Lentamente, puxei o canivete de mola que sempre carregava preso ao cinto. A lâmina saltou com um estalo seco, Caminhei até a mesa de madeira pesada onde eu costumava limpar minhas armas e, com a ponta da lâmina, comecei a talhar a madeira.
V-A-L-E-N-T-I-N-A.
Letinho observava em silêncio, sabendo que, quando eu marcava o território daquela forma, não havia volta. Eu não sentia pena dela. Não sentia misericórdia. O que eu sentia era uma fome súbita, um desejo de posse que subia pela minha espinha como veneno.
— Prepara os moleques e o armamento pesado — ordenei, voltando a ser o bloco de gelo de sempre. — Vamos descer pro asfalto essa noite. Quero ela na minha frente antes do sol nascer.
A caçada tinha começado e ela não tinha a menor ideia de que o seu executor acabara de se tornar seu dono.