Ceifador narrando
A noite foi um deserto de descanso e um oceano de perturbação, o meu sono que costuma ser meu único aliado neutro, resolveu me trair. Cada vez que minhas pálpebras pesavam e o mundo exterior se apagava, o rosto dela emergia da escuridão. Aqueles olhos castanhos, profundos e insolentes, queimavam na minha retina como brasas. Valentina não era apenas uma foto em um envelope pardo; ela tinha se tornado um vírus silencioso invadindo o meu sistema.
— "Há sombras que a gente persegue, e há sombras que decidem nos caçar. Valentina nem sabia, mas ela já tinha começado a devorar a minha sanidade."
Levantei antes do sol terminar de rasgar o céu cinzento do Rio. Meu corpo pesava, não de cansaço, mas de uma tensão nova, um desejo de posse que latejava na base do meu crânio, caminhei até o banheiro, e o mármore frio sob os meus pés descalços me trazendo de volta à realidade. Liguei o chuveiro no máximo, deixando a água gelada chicotear minhas costas marcadas por cicatrizes que contavam histórias de guerras que o asfalto nem sonhava que existiam.
A água escorria pelas minhas tatuagens e o fuzil no antebraço, a Santa Morte nas costas, os nomes dos irmãos que tombaram. Encostei a cabeça no azulejo, sentindo o frio tentar expulsar o calor daquela mulher da minha mente, esfreguei o meu rosto com força, eu sou o Ceifador. Eu não perco o sono por alvo. Eu não sinto. Eu executo.
Saí do banho e não perdi tempo com frescura. Vesti uma calça cargo preta, cheia de bolsos para os pentes reserva, e uma regata branca que deixava o "trabalho de artesão" dos meus músculos à mostra. Calcei os meus pisantes, prendi o coldre velado na minha cintura com a minha Glock G18 adaptada e joguei o cordão de ouro com o pingente do Rosário de Crânios por cima do peito. No espelho, o que eu vi foi o dono do império: rosto fechado, olhar de quem já viu o inferno e achou o lugar pequeno demais.
Saí do meu barraco e o Morro dos Prazeres já fervia, o cheiro de café forte se misturava ao de maconha vindo das Vielas, o movimento ali não para.
— Bom dia, paizão! — um vapor gritou, segurando um fuzil 7.62 como se fosse um brinquedo, enquanto vigiava a entrada da principal viela.
Apenas acenei com a cabeça, o respeito ali é destilado no medo e na lealdade, os vapores se agitavam na minha passagem, organizando as cargas, contando os malotes da noite anterior.
Passei pela contenção, vendo os moleques de rádio no pescoço e olhos de águia. No Prazeres, se um passarinho voar baixo demais, a gente sabe a cor da asa.
Cheguei na "boca", o coração financeiro do morro e sentei na minha cadeira de couro, a foto de Valentina já estava sobre a minha mesa, me esperando. Peguei o papel, sentindo a textura. Aqueles olhos... eles eram lindos demais para serem apagados. Francisco queria o fim dela, mas eu estava começando a achar que o fim de Valentina seria apenas o começo da minha obsessão.
— "Vou estudar cada passo seu, cada respiração, cada fraqueza. Vou te cercar como a neblina cerca o morro." – pensei
— Ceifador, posso entrar? — A voz do Letinho cortou meus pensamentos. Ele bateu na porta, mas já foi entrando.
— Solta a fita — falei, sem tirar os olhos da foto – a minha voz saiu como um rosnado baixo.
— A Rita tá achando que é a dona da p***a toda. Foi você que deu condição pra ela, deu moral, e agora a maluca tá lá na entrada da favela dando ordem nos vapores pra cortar o cabelo da Cleide — explicou, passando a mão na nuca, visivelmente estressado.
— Sério? — Desviei o meu olhar da foto por um segundo, sentindo uma pontada de tédio. — Eu não me importo com isso, Letinho. Rita não é a patroa, ela é apenas a v***a que senta quando eu preciso descarregar. você resolve como quiser esse c*****o. Manda ela baixar a bola ou eu mesmo faço ela descer o morro de ralo.
Letinho deu de ombros, mas não saiu.
— Tudo bem, decidi te contar pra não ter B.O. quando eu usar a força e...
— Eu tenho nada a ver com briga de mulher emocionada, p***a! — grunhi, impaciente, a imagem da Valentina voltando a queimar minha retina. — Quer usar a força? Faça isso. Só me deixe em paz! Vê se eu vou perder meu tempo com drama de quem não tem o que fazer.
Apertei a foto entre os meus dedos, a minha vontade de ter Valentina ali, naquela mesa, transformando aquele olhar petulante em um olhar de prazer, me fez ter um estalo.
— Escuta, Letinho... arranja uma p**a e coloca no barraco da rua doze pra me comer. Preciso relaxar e não tô com a mínima vontade de olhar pra cara daquela filha da p**a da Rita.
Letinho soltou um riso curto, relaxando os ombros.
— Você que sabe, irmão! Tem uma gostosinha novinha, se quiser eu ligo e tu come ela com força. A desgraçada é mais gulosa que a Rita.
— Faça isso! Resolve esse B.O. com as putas, dá o corretivo que tiver que dar e depois traz a mina pra me fazer uma festinha — disse com um sorriso de lado, frio e sem alma, surgindo no meu rosto.
Letinho se afastou para cumprir a minha ordem, no meu mundo, as mulheres são como munição: você usa e descarta quando o pente esvazia. Eu nunca fui homem de me apegar a uma só. No Morro dos Prazeres, o prazer é coletivo. Às vezes eu até dividia as mulheres com o Letinho; era gratificante ver as putinhas perdendo o fôlego e a voz enquanto recebiam p**a de todo jeito. Eu gostava do caos, da falta de regra, da luxúria pura e sem freio. Talvez fosse por isso que a Rita ainda estava por perto; ela aceitava o esquema minhas putarias.
Valentina era diferente, ela seria a minha p**a de Luxo, o meu segredo mais bem guardado. Ninguém tocaria nela. Ninguém sequer olharia para ela sem que eu desse a ordem.
Voltei a me inclinar sobre a mesa, e o meu canivete de mola saltando com um clique seco e satisfatório. Comecei a perfurar a borda da madeira pesada, sentindo a fibra ceder sob o aço, eu não estava apenas entalhando madeira; eu estava desenhando o plano da minha vida. Cada furo era um passo para cercar a presa.
Planejei a invasão na minha mente como um mestre de xadrez.
O horário em que ela saía do escritório, a rota do carro dela, a falha na segurança do condomínio de luxo. Eu ia sujar os pés de grife dela com a lama do Morro dos Prazeres.
— Vou te tirar desse mundo de mentiras, Valentina. Vou te mostrar o que é o poder de verdade — sussurrei, cravando o canivete no centro da mesa.
Eu sou o Ceifador. O dono do fuzil e da alma deste lugar. E o que eu coloco no meu radar, ninguém tira. Nem a lei, nem o Francisco com seu dinheiro de sangue, nem a própria morte. Se eu decidi que ela é minha, o destino já aceito.
— "Prepare o seu coração, Valentina. O seu executor acabou de se tornar o seu dono. O Morro dos Prazeres vai ser o seu novo paraíso... ou o seu mais belo inferno. Mas uma coisa eu te garanto: de mim, você não escapa."