Ceifador narrando
O asfalto do Leblon cheira a privilégio e a mentiras bem contadas, para quem olha de cima, do Morro dos Prazeres, as luzes lá embaixo parecem estrelas caídas, mas eu sei a verdade: cada poste iluminado esconde um rato de terno tentando passar a perna em outro, eu estava parado na sombra de uma palmeira imperial, as costas encostadas no muro de pedra fria, sentindo o ronco da minha moto esfriar entre as minhas pernas.
Eu não deveria estar aqui, um homem com o meu vulgo não circula pelo bairro nobre sem um propósito de sangue, mas o propósito de hoje era diferente, desde que abri aquele envelope e vi os olhos castanhos de Valentina, algo dentro de mim, despertou.
Puxei o Rosário de Crânios debaixo da camisa preta, meus dedos calejados, acostumados ao metal frio do fuzil, dedilhavam as pequenas contas de osso com uma urgência maníaca o som dos crânios batendo uns nos outros era o som da minha paciência, que estava se esgotando.
— Onde é que você está, doutora? — sussurrei para a escuridão, a minha voz saindo como um rosnado baixo.
O plano de Francisco era simples: uma execução limpa na saída do escritório. Um tiro, um anel roubado, uma vida apagada. Mas Valentina não era simples, ela era uma afronta à minha natureza. Eu precisava ver se a mulher da foto era real ou apenas uma miragem de papel pardo.
Foi quando a porta de vidro blindado do edifício comercial se abriu.
O mundo perdeu o foco, ela não andava, ela flutuava uma dignidade que me fez apertar o rosário com tanta força que os ossos cravaram na palma da minha mão, ela vestia um conjunto social que abraçava suas curvas que eu já tinha decorado na foto, mas que, ao vivo, eram um convite pro inferno, o cabelo ondulado balançava conforme ela apressava o passo, mesmo de longe, eu vi o vinco de preocupação na testa dela.
Ela tava com medo.
Mas ela não estava sozinha, um sujeito de terno impecável e cabelo cheio de gel saiu logo atrás, segurando o braço dela com uma agressividade que fez meu sangue ferver, o tal sócio, o "engomadinho", o p*u no cu que, segundo o dossiê, devia ser o braço direito dela, mas tava tratando a mulher como se fosse bicho acuado.
— Valentina, para com essa p***a agora! — o grito do cuzão atravessou a rua.
Eu me encolhi na sombra mais escura, a mão descendo por instinto pra coronha da pistola na cintura, meus olhos viraram frestas, aquele merda tava gritando com a minha obsessão.
— Me solta! eu já disse que não vou assinar nada, Rafael! — a voz dela era firme, mas o tremor tava lá. Eu ouvi.
O tal Rafael apertou o braço dela com mais força, fazendo o meu sangue subir pra minha cabeça, nublando a minha visão de ódio.
— Você vai assinar nem que eu tenha que te arrasta de volta praquela sala, sua mimada! — o engomadinho rosnou, a cara colada na dela. — Você não tem noção de com quem tá mexendo, o Francisco não aceita "não", e eu muito menos! Tá entendendo ou quer que eu desenhe na tua cara?
Eu vi o momento que ela tentou se soltar, vi a dor no rosto dela. Vi a arrogância daquele verme de terno.
— Vou tirar ela desse merda... — declarei pro nada, uma promessa que nem o capeta ousaria contestar.
Eu não sou salvador, não sou herói de ninguém, sou o Ceifador, a mão direita da morte e se eu ia tirar ela desse cuzão, não era pra devolver ela pra liberdade. Era pra trazer ela pro meu domínio e o preço da minha proteção é a alma dela.
Valentina deu um empurrão no peito do engomadinho e correu pro carro, o frouxo ficou lá na calçada, gesticulando, gritando ofensa, achando que tinha poder, m*l sabia ele que o verdadeiro monstro tava a dez metros de distância, decidindo se cortava a garganta dele ali mesmo ou se guardava esse prazer pra depois, decidi pelo "depois". Vingança é um prato que se come frio, e eu gosto da minha gelada.
Subi na moto, dei partida sem acelerar muito, mantendo o farol apagado enquanto seguia ela de longe. Valentina dirigia como se tivesse fugindo de um fantasma, m*l sabia ela que o fantasma já tava sentado no ombro dela.
Acompanhei cada movimento, vi quando ela chegou em Ipanema, o jeito paranoico que ela olhava pro lado antes de entrar no prédio, ela sentia a minha presença, sensível... inteligente...
Estacionei na calçada oposta, sob a sombra das palmeiras, o vento trazia o cheiro da maresia, mas eu só sentia o perfume dela que eu tinha imaginado o dia todo. Enrolei o rosário no punho, as contas de crânio virando um soco-inglês de osso, olhei pra janela iluminada lá no alto.
— Aproveita a tua última noite no asfalto, Valentina — sussurrei, acendendo um baseado e deixando a fumaça azulada subir. — O engomadinho te queria submissa. O Francisco te quer morta. Eu? Eu te quero pra mim.
A possessividade veio como um soco, eu nunca tive nada que não fosse conquistado na bala. Valentina não ia ser diferente, eu ia arrancar ela dessa vida de escritório e levar ela pro topo do meu morro, onde a lei é o meu fuzil e o juiz sou eu.
Peguei o meu telefone e liguei para o Letinho não demorou ele atendeu.
— Letinho? — falei, a minha voz mais fria que o mármore do necrotério.
— Na escuta, irmão, qual é a ordem?
— Aborta o serviço do Leblon, cancela a contenção eu vou fazer essa sozinho.
Houve um silêncio, Letinho não é burro ele sabe que eu não mudo plano em cima da hora por nada.
— Vai deitar a doutora agora, Ceifador? O velho quer o anel na mão amanhã cedo.
— Não vai ter corpo, Letinho, manda alguém prepara um quarto da minha casa, limpa tudo, tira o cheiro de mofo, não quero um rastro de poeira naquela p***a.
— Tu vai trazer ela pro morro? Viva? — A voz do moleque falhou. — O Francisco vai espumar, irmão.
— O Francisco que se f**a, se ele reclamar, eu arranco a cabeça dele, eu vou levar ela pra casa ela só não sabe que o endereço dela mudou.
Desliguei, olhei pra janela dela uma última vez, a luz apagou ela tava tentando dormir, sem saber que o lobo tava na porta e o lobo tava com uma fome do c*****o.
Eu ia tirar ela da mão daquele cuzão, e se pra isso eu tivesse que queimar o Rio de Janeiro inteiro, eu ia riscar o primeiro fósforo com um sorriso na cara.
O rosário no meu pulso pareceu pulsar, Valentina não ia ser só mais uma conta no meu contador de almas.
Meti a marcha da Hornet e rasguei o asfalto, subi o morro dos prazeres, cortando as vielas onde os vapor já sabia: quando o motor da minha moto ruge desse jeito, é melhor sair da frente, estacionei na frente da boca.
Letinho já me esperava no pé da escada, com a cara de quem tinha passado a última hora mastigando vidro, ele me seguiu até a sala onde o dinheiro do turno estava sendo contado.
— Ceifador, para e escuta, irmão — Letinho mandou, a sua voz baixa pra não vazar pros moleques. — Trazer essa doutora pra cá é assinar uma nota promissória com o d***o, o Francisco tem contato na Civil, tem senador no bolso, se tu não entregar o corpo dela, ele vai querer o teu e tu sabe que guerra por causa de r**o de saia nunca acaba.
Parei de costas pra ele, encarando o mapa da favela na parede. Minha mão fechou em volta do rosário, as contas de crânio estalando.
— O Francisco é dono de papel e caneta, Letinho, aqui em cima, quem manda sou eu.
— Ele vai vir com tudo, irmão! Isso vai trazer um problema que a gente não precisa agora, a Civil vai subir esse morro todo dia c*****o!
Virei devagar, meus olhos deviam estar o próprio abismo, porque vi o Letinho dar um passo atrás, ele sabia que ninguém mudava minha ideia quando eu já tinha decidido o caminho.
— Pois que venham eu já decidi.
Bati com o meu punho fechado na mesa, o som ecoando pelo salão.
— A Valentina não é mais um contrato, ela não pertence ao asfalto, nem ao escritório, e muito menos aqueles merdas, apartir de hoje, ela pertence a mim e o que é do Ceifador, nem a morte tem coragem de tocar.
Letinho suspirou, sabendo que o Rio ia sangrar por causa da minha obsessão e eu não estava nem aí. Saí pra varanda e olhei as luzes da cidade lá embaixo, sentindo o gosto da vitória antes mesmo do sequestro.
O asfalto que se prepare, porque eu não vou buscar uma vida; eu vou roubar um destino.