Capítulo 10

1188 Palavras
Valentina narrando A noite foi uma tortura silenciosa, o cheiro de sangue que o Ceifador deixou no quarto parecia ter se entranhado nas cortinas, no lençol, e na minha própria pele, eu não preguei o olho, cada vez que eu descansava a minha cabeça, eu ouvia a proposta dele ecoando como uma sentença: — "Ou tu é amante, ou tu não é nada". Eu sou uma mulher de leis, eu acredito em provas, em ordens judiciais, em civilização, mas ali, sob o teto da casa dele, a única constituição era o desejo daquele homem, Francisco me queria morta, e o Ceifador me queria como troféu. Se eu quisesse sobreviver para ver o sol nascer outra vez, eu precisaria jogar o jogo dele, eu ia fingir que aceitei, ia aceitar esse pacto maldito até encontrar a primeira brecha, o primeiro deslize daqueles traficantes para desaparecer dessa favela. Pela manhã, desci as escadas, meus saltos agulha estalavam no chão de cerâmica, um som deslocado naquele ambiente bruto, ele estava na sala, sentado em um sofá de couro, limpando o fuzil com uma calma que me dava náuseas. — Decidiu o teu valor, Doutora? — ele perguntou, sem tirar os olhos da arma. — Eu aceito, mas tenho condições — disparei, cruzando os meus braços para esconder o tremor nas minhas mãos. Ele parou o que estava fazendo e deu uma risada curta, carregada de deboche. — Condições? Tu esqueceu que tá na minha casa e não num tribunal de pequenas causas? — Eu não sou uma mercadoria, Ceifador, se você quer que eu seja a sua amante isso será feito nos meus termos, eu vou redigir um documento, e ele terá um prazo de validade, seis meses, depois disso, você me liberta e garante que ninguém do crime toque em mim. — Seis meses? — Ele se levantou, caminhando na minha direção com aquela postura predatória. — tu é abusada, morena, mas eu aceito, até porque eu não sou homem de ficar muito tempo com a mesma amante, eu tenho muito fogo e uma só não dar conta. — Outra coisa — continuei engolindo em seco. — Eu quero liberdade, não vou ficar trancada naquele quarto como uma prisioneira. Quero andar pela favela. — Liberdade? — Ele parou a centímetros de mim, o rosto endurecido. — tu tem a liberdade de andar por onde eu deixar. Mas fica o papo reto: se tu tentar fugir, meus vapores não vão te trazer de volta pela mão, eles vão te caçar e te apagar antes de tu chegar na entrada do morro, entendido? — Entendido, onde posso usar um computador? — perguntei, tentando manter a minha voz firme. Ele saiu da sala em silêncio, alguns minutos depois, voltou e jogou um notebook de última geração sobre a mesa de centro. — Faz a tua mágica, Doutora, mas não demora, que o meu tempo é ouro e a minha paciência é curta. Sentei-me e meus dedos voaram pelas teclas, eu estava redigindo o contrato mais absurdo da história do Direito, cláusulas de proteção, prazos, obrigações mútuas... era a minha forma de manter a minha sanidade, de acreditar que eu ainda tinha algum controle, quando terminei, imprimi o papel em uma impressora sem fio que ele trouxe do escritório. Quando terminei estendi o papel para ele, junto com uma caneta. — Assina aqui. O Ceifador olhou para a caneta e depois para mim, soltando uma gargalhada genuína. — Tu acha mesmo que papel e tinta valem alguma coisa aqui em cima? — Ele tirou um canivete tático do bolso, a lâmina brilhando com um estalo metálico. — Meus contratos são assinados com o que a gente tem de mais real. Sangue. Antes que eu pudesse protestar, ele pressionou a lâmina no próprio polegar, um corte preciso, o sangue rubro e denso brotou na hora, ele apertou o dedo contra o papel, deixando uma mancha escarlate sobre o lugar da assinatura. Meu estômago deu um nó, a frieza dele era absoluta. — Tá com medo, Valentina? — ele provocou, estendendo o canivete para mim. — Ou o teu Direito não prevê que a gente tem que sangrar pelo que quer? Olhei nos olhos dele, eu não podia recuar, se eu demonstrasse fraqueza agora, eu estava morta, peguei o canivete, o metal estava frio, eu espirei fundo e fiz um pequeno corte na ponta do meu dedo, a dor foi aguda, mas eu não desviei o meu olhar e pressionei meu sangue sobre o dele, misturando as cores no papel. — Pronto, o pacto está selado — sussurrei. — Agora tu é minha — ele rosnou, o seu olhar fixo no meu ferimento. — E o que é do Ceifador, ninguém mais toca. Nesse exato momento, a porta da frente se abriu e uma moça jovem, vestida com roupas simples entrou na sala mas ela parou ao nos ver tão próximos na sala. O Ceifador não se abalou, com o seu jeito frio de sempre, ele apenas apontou na minha direção e disse. — Mariana, essa é a Valentina — ele disse, a voz desprovida de qualquer emoção. — Ela mora aqui agora. Eu olhei para a tal Mariana e vi no olhar dela o medo e a confusão, a verdade era um soco no meu estômago: eu tinha acabado de assinar um contrato com o d***o, e o d***o estava ali, limpando o sangue do polegar na calça jeans como se tivesse acabado de assinar um cheque de padaria. O Ceifador guardou o canivete com um estalo seco, aquele som de metal que já estava virando a trilha sonora do meu cativeiro. Ele olhou para a moça, que parecia uma estátua de sal na entrada da sala, e depois voltou aqueles olhos de abismo para mim. — Mariana trabalha aqui na casa, limpa, cozinha, o que for — ele disse, a sua voz rouca voltando ao tom de comando. Eu engoli em seco, tentando recuperar a minha postura de advogada que parecia estar escorrendo pelos meus dedos junto com o sangue, olhei para a moça, que não deveria ter mais que vinte anos. — Prazer, Mariana — falei, forçando uma civilidade que não existia naquele lugar. Mariana apenas assentiu com a cabeça, os olhos saltando da mancha de sangue no papel para o rosto do patrão. — Já que a Mariana chegou, eu vou ralar para a boca — Ele falou, pegando o fuzil que estava encostado no sofá. — Tenho que resolver os estilhaços que o BOPE deixou ontem e organizar a cobrança. Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair, virando o pescoço apenas o suficiente para que eu visse o brilho do seu rosário. — Aproveita a casa, Doutora, mas lembra bem do que a gente assinou ai na mesa, pois a minha memória não falha. Ele saiu, e eu fiquei ali, em pé na sala, sentindo o latejar no meu dedo ferido, enquanto Mariana me encarava com uma mistura de pena e curiosidade, eu não era mais a advogada Valentina Albuquerque; eu era a aposta de um monstro, e o preço da minha sobrevivência estava escrito em vermelho sangue.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR