Capítulo 4

1115 Palavras
Valentina narrando A noite passada não foi apenas m*l dormida foi uma descida lenta pelos degraus do meu próprio inferno particular, cada vez que eu fechava os meus olhos, a imagem daquele homem na esquina do escritório a silhueta sombria montada na moto preta projetava-se nas minhas pálpebras como um filme de terror em looping, o meu suor frio encharcava os meus lençóis de seda de 600 fios, e o silêncio do meu apartamento em Ipanema, que antes era o meu refúgio de paz, agora parecia amplificar cada estalo da estrutura do prédio. Eu me sentia vigiada com a sensação de que havia um par de olhos pesados sobre me, carregados de uma intenção que eu não conseguia decifrar, atravessando as minhas cortinas de linho, era quase física. Minha mente traía-me, voltava obsessivamente para o fim do expediente o rosto de Rafael, transformado pela ganância, a mão dele apertando meu braço na calçada do prédio comercial enquanto dezenas de pedestres passavam, fingindo não ver a agressividade. — "Valentina, para com essa p***a agora!", ele gritava. — "Me solta, Rafael! Eu já disse que não vou assinar!" – respondi, com a minha voz embargada pelo ódio e foi ali, por cima do ombro dele, nas sombras projetadas pelas palmeiras imperiais, que eu vi um vulto observando tudo. Levantei-me antes do despertador, o Rio de Janeiro havia acordado sob um calor opressor, um bafo úmido que subia do asfalto e grudava na pele, mas o céu estava de um cinza-chumbo, prometendo uma tempestade. — É apenas cansaço, Valentina. Rafael e Francisco não seriam tão óbvios — sussurrei para o meu reflexo pálido no espelho do banheiro. Vesti meu melhor terno de alfaiataria, prendi o meu cabelo em um coque firme e calcei meus saltos agulha como se estivesse vestindo uma armadura, eu precisava chegar ao escritório eu tinha que protocolar as provas da grilagem antes que Francisco Gomes conseguisse me calar definitivamente. Quando saí da garagem, a primeira gota de chuva atingiu o meu para-brisa, em poucos minutos, o céu desabou uma chuva torrencial, tipicamente carioca, que transformou a visibilidade em um borrão de luzes, freio e sombras cinzentas o trânsito na região da Lagoa estava um caos; o som de buzinas impacientes misturava-se ao ruído dos trovões. Eu estava a apenas quatro quadras do meu destino quando o mundo parou. De forma brusca e calculada, um SUV preto, de vidros totalmente opacos, fechou o cruzamento, atravessando-se na frente do meu carro, pisei no freio com violência ouvindo o som dos pneus cantando no asfalto molhado, antes que eu pudesse engatar a ré, uma moto preta surgiu do nada, parando rente à minha porta. Meu sangue virou gelo. O homem desceu ele não tinha pressa, movia-se com a confiança de um predador que sabe que a presa está encurralada entre o metal e o medo, ele usava uma jaqueta de couro escura e, pendurado no pescoço, por cima da camisa, brilhava algo que fez meu estômago dar um nó de puro pavor. Eram crânios, pequenas caveiras de marfim entrelaçadas em um cordão de aço um rosário de crânios, a lenda urbana dos tribunais e das páginas policiais era real o Ceifador estava na minha frente. Ao redor, o desespero tomou conta. Pedestres corriam para debaixo das marquises, alguns gritavam, outros tentavam filmar, mas recuavam ao ver a arma, motoristas abandonavam seus carros ou abaixavam a cabeça no volante, rezando para não serem as próximas vítimas, o Rio de Janeiro, em plena luz do dia, assistia ao meu fim. Ele bateu no meu vidro com o cano de uma pistola curta, fosca. O som metálico foi a minha sentença, tentei gritar, mas a minha voz morreu na minha garganta, minhas mãos tremiam tanto que eu não conseguia sequer achar a trava da porta. — Abre a porta, Doutora — a voz dele atravessou o vidro rouca e grave, vibrando no fundo dos meus ossos. — Ou eu quebro o vidro e te tiro pelos cacos você escolhe o quanto quer sangrar hoje. Olhei para ele através da viseira do capacete que ele levantara parcialmente, seus olhos escuros impenetráveis, mas que brilhavam com uma satisfação territorialista, com os dedos trêmulos, destravei ele abriu a porta de um só golpe, e o cheiro dele invadiu o carro: tabaco, chuva, e o odor metálico de pólvora. O cheiro do perigo em sua forma mais pura. — Por favor... o Rafael te mandou? O Francisco? Eu te dou o dobro! — implorei, as minhas lágrimas misturando-se com a chuva que inundava o interior do carro. Ele soltou uma risada curta, sem humor, e inclinou-se para dentro, invadindo meu espaço ele dedilhou o rosário no pescoço; o som das contas de osso batendo umas nas outras parecia o riso da própria morte. — O Francisco te quer morta, Valentina, ele quer um anel e um cadáver. O Rafael? O Rafael é um verme — ele disse, a mão subindo e segurando meu queixo com uma firmeza que beirava a dor. — Mas eu mudei as regras do jogo. Você não vai pro necrotério. Você vai pro meu morro. — Não... por favor... — Shhh — ele sussurrou o polegar dele traçou o contorno do meu lábio inferior, um gesto tão íntimo e possessivo que me fez estremecer de pavor. — Agora você é minha, do asfalto, você só vai levar a lembrança. — Seu desgraçado! — eu gritei, a minha voz rasgando a minha garganta enquanto a adrenalina vencia o choque. — Você acha que pode me levar assim? Você é um animal, um lixo! Me solta, seu filho da p**a! Tentei lutar, arranhei seus braços, tentei empurrá-lo, mas ele era uma muralha de concreto. — Olha só... a doutora tem garras — ele rosnou, o olhar brilhando com uma satisfação doentia. Vi o brilho de uma agulha e com um movimento rápido em seguida uma picada aguda no meu pescoço, seguida por uma onda de calor que começou a desligar meus sentidos, o barulho da chuva e os gritos na rua começaram a soar distantes, como se eu estivesse sendo submersa em águas profundas. A última coisa que vi foi o rosário de crânios balançando diante dos meus olhos, cada pequena caveira parecendo zombar da minha queda. Senti os braços dele me segurando, tirando-me do carro com uma facilidade assustadora eu era leve como uma pena nas mãos do monstro. — Dorme, morena — a voz dele foi a última coisa que ouvi, um murmúrio possessivo no meu ouvido. — Quando você acordar, o mundo vai ser outro. E eu serei o seu único deus. O frio do esquecimento me abraçou enquanto eu era carregada, deixando para trás minha vida, minha carreira.
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