1 - Amanda

1170 Palavras
Uma semana se passou após a notícia da minha morte iminente, mamãe, claro que não aceitou o diagnóstico final que a Dra. Mariana nos deu. Não sei da onde ela tirou dinheiro mas visitamos três outros hematologistas essa semana e o diagnóstico? O mesmo. Meu irmão a apoia, eles estão me levando de um lado para o outro na tentativa de consegui uma resposta positiva. Estão se agarrando a uma falsa esperança de que posso vencer o câncer, eu também faria isso se não estivesse chegado ao estágio terminal. — Tudo que podemos fazer é novos tratamentos para prolongar a expectativa de vida. — Todos os médicos disseram.. — Eles estão errados — Soraya disse após cada consulta. Que Soraya esteja surtando com o fato de que sua menininha vai morrer até entendo, mas Henrique sempre foi um homem sensato e ele a está apoiando. Sei que é sempre bom ouvir a opinião de outros médicos mas quando quatro dão o mesmo parecer, bom, temos que aceitar que é inevitável. Tudo que eu queria era que minha família me abraçasse com força e tornasse tudo mais fácil pra mim. Agora estou diante do meu notebook pesquisando sobre a morte, se vai doer quando eu partir, pensando em tudo que fiz na vida e se, eu vou para o céu ou para o inferno e quando canso, entro no meu i********: e vejo minhas fotos antigas com meu cabelo liso castanho, minhas sobrancelhas bem feitas e os lábios macios e sem rachaduras, os olhos sem olheiras das noites m*l dormidas, estou tão magra e sem vida. Desisto de me torturar e desligo o PC. Estou tão cansada e frustrada, lutei tanto para no fim, essa maldita doença vencer. Se eu pudesse evitar que minha família também não fosse atingida pelo câncer, eu o faria. Respiro fundo e torno a ligar o PC. Começo a pesquisar tratamentos que possam prolongar meu um ano de vida para dois, três anos. Eu aceito até mais alguns meses apenas para atrasar o sofrimento dos meus, mesmo que esteja extremamente cansada de lutar pelo que se tornou inevitável. Meu celular começa a tocar, o nome na chamada é do meu pai, recuso a ligação, como sempre faço. Ele então vibra anunciado a chegada de uma mensagem de texto, a mensagem também é do Thiago, está me convidando para ir almoçar com ele, disse que Henrique vai e que seria muito bem vinda se eu também me juntasse a eles. Parei, aquela informação não condiz com a que tenho, Henri disse que iria trabalhar, mesmo sendo sua folga. Ele sempre folga aos sábados. Não acredito que se vendeu por dinheiro Envio a mensagem que digitei rapidamente para o meu irmão. Do que está falando? Ele responde rapidamente. Sei que vai almoçar com o Thiago e isso significa que recorreram a ele para conseguir dinheiro pra a Consulta com os outros especialistas. Enviei a mensagem. Sinto muito, foi preciso. Meu irmão respondeu. A confiança que Henri deu aquele homem o fez acreditar que teria uma chance comigo. Lembro que ele tentou falar comigo sábado passado e... Paro de pensar um pouco em mim, não é justo ficar com raiva do meu irmão por recorrer a única pessoa que poderia nos ajudar no momento. Todo o dinheiro dele e da mamãe vão para meu tratamento. Eles tem que se desdobrar para que eu não fique sozinha e ainda fazem horas extras para conseguir mais dinheiro. Me sinto sufocar a medida que lembro de quanto sofrimento causei e de como eles nunca reclamam e sempre buscam o melhor para mim. Decido fazer algo que sempre faço quando estou sozinha sem supervisão, quando provavelmente ficarei na cama por horas como resposta aos tratamentos paliativos. Pego minha peruca azul, estilo Joãozinho. A ajeito de modo a não ficar torta, desenho as sobrancelhas com lápis escuro. Tiro do armário uma calça Skinner, a blusa que estou é nova e de mangas compridas, branca com a estampa do anime banana fishi, um dos meus Yaoi favorito. Ah, esqueci de mencionar que sou fujoshi? Agora falei. Desço as escadas lentamente após pedi um Uber, assim que escuto a buzina do carro na porta de casa, coloco a máscara e saio apressada, trancando. Eu sei que não deveria fazer isso mas eu preciso. O planetário é o lugar que mais amo e preciso de um tempo, para pensar, sentir que sou uma pessoa normal, sem câncer e que terá uma longa vida pela frente, que vai se formar em engenharia civil, montar sua empresa e que vai se casar e ter um casal de filhos, que vai viver uma vida plena cheia de altos e baixos mas que no fim, ao olhar para trás vai chegar a conclusão do quanto foi feliz e continuará seguindo até morrer de velhice. Uma vida que outra pessoa vai viver enquanto meu corpo apodrece a sete palmos da terra, sequer sei se existe de fato vida após a morte. O motorista para na entrada, o lugar está fechado e sinto v*****e de chorar. Decido voltar para casa, minha fuga não deu em nada. *** Finalizei o meu dia em casa, no sofá, vendo Given pela, sei lá, centésima vez. Já estou a horas repetindo o episódio 09, sempre dou replay na música Fuyu no hanashi. Eu queria ver as estrelas, o esplendor do universo mas, mas eu não pude. Nesse momento, quando Mafuyu grita sinto algo dentro do meu peito explodir e entendo, entendo que a maior dor não vai ser morrer, por alguma razão meus pensamentos se voltam para Thiago. Das diversas tentativas frustradas de se reaproximar de seus filhos, de todas as ligações que rejeitei e das mensagens que ignorei, percebo o quanto o rancor te corrói, destrói algo que um dia foi lindo, como posso ter guardado tanto rancor? Como isso aconteceu? Eu sempre amei meu pai mas não aceitei o fato da nossa família não ter sido o suficiente. Eu nunca dei a ele a chance de se justificar. Olho para a TV, Mafuyu está colocando para fora toda a dor que tem guardado desde a morte do Yuki, todo o sentimento de culpa e toda a saudade, não foi justo com Mafuyu, não foi justo com Yuki, não foi justo com ninguém. Meu Deus, Given sempre me fazendo pensar na vida de novo, só que dessa vez na consequência de se partir sem ter perdoado alguém que já foi muito importante para você. A questão é, será que consigo perdoar Thiago por ter preferido a amante a seus filhos? O sentimento de traição é mais forte que qualquer outro, ele toma conta de minhas emoções de uma forma que me sinto sufocar, por isso, prefiro fingir que meu pai não existe. Mas a questão é, até quando? Eu tenho consciência que não posso mais esconder minha doença dele, que a qualquer momento terei que romper esse silêncio que impus a ele nos últimos anos e assim, deixá-lo lidar com essa situação do seu jeito...
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