NARRAÇÃO DE MAXINE...
Foi emocionante chegar ao estábulo às pressas. Como se eu quisesse olhar o meu presente bem mais de perto. Pois me apaixonei pelo Trovão, mas sabia que, no fundo, ele não me pertencia. Até mesmo ouvi os capangas comentarem que estavam pensando em levá-lo da fazenda, afinal ele não se dá com ninguém.
Mas lá estava ele, preso no celeiro. Sacudia sua crina. Sorri encantada.
— Trovão! — chamei.
Ele colocou a cabeça para fora do celeiro desejando meu toque. Sorri com os olhos inundados. Toquei em seu focinho e percorri todo o comprimento até alcançar um ponto branco em sua testa.
Peguei um pouco de feno, estendi minha mão e ele comeu calmamente. Soltou um sopro pelas narinas quando o feno acabou, como se procurasse mais.
— O que você acha de passear no pasto até alcançar a macieira? Eu vi que tem muitas maçãs maduras.
Sorri quando ele sacudiu a crina, pronto para sair. Ele sempre faz isso quando sabe que vou abrir o celeiro. Ele me entende e isso é encantador.
Montei nele e saímos do estábulo. Percebi Árya do outro lado mostrando os filhotes de cavalo para seu bebê.
Inspirei animada. O sol está lindo, a manhã leve. Preciso seguir as instruções do treinador Thiago. Nada de ficar me colocando no lugar de alguém excluída. Eu que estou me excluindo.
— Árya!! — gritei conforme Trovão se afastava.
Ela olhou em minha direção e sorriu, mostrando para Lucca como Trovão era bem domado por mim.
— Quer andar de cavalo? — perguntei, fazendo-o parar de galopar ao puxar pela sela.
— Quero! Vou deixar Lucca em casa.
Sorri, confirmando.
Aproveitei o tempo e levei Trovão até o final do pasto, onde havia algumas macieiras tomadas por maçãs vermelhas.
Ele ama essas maçãs. Eu também gosto. São doces e azedas ao mesmo tempo.
Desci e peguei uma do galho. Ofereci para Trovão, que comeu tudo em uma bocanhada só.
Peguei outra e sentei no pasto. Esfreguei a maçã em minha blusa e abocanhei, esperando Árya.
Não demorou até sua chegada ao pasto em cima de Aquiles, o cavalo mais manso.
Sorri, animada. Peguei mais algumas maçãs para eles e montei no Trovão novamente.
Me aproximei com ele galopando moderadamente.
— Adivinha? Ele é meu! — falei, acariciando sua crina preta.
Árya sorriu animada.
— Parabéns! Mas eu não me arrisco a chegar perto da boca dele. Eu vi o capanga que foi mordido. O ombro foi deslocado.
Ri, sacudindo sua crina.
— Eles não entendem que Trovão não gosta de homens.
Árya riu alto.
Passeamos um pouco pelo pasto e depois os alimentamos com as maçãs.
Sabe? Foi uma manhã leve.
Mas fomos interrompidas quando a mãe dela, dona Jade, se aproximou montada em um cavalo marrom.
— Meninas, vamos sair? Ir ao shopping, comprar roupas, tomar um sorvete, quem sabe ir ao cinema?
Árya olhou para mim segurando a emoção no olhar.
Eu nunca saí com mulheres por lazer. No máximo era obrigada a ir ao shopping para vestir as roupas que a conselheira escolhia, roupas que sempre odiei.
— Eu gosto da ideia. — falei, desejando romper esse bloqueio que insiste em fazer morada.
— Legal... Vamos.
Respirei fundo, desejando deixar qualquer resquício do passado, qualquer sentimento de medo da aproximação, desejando ser uma nova pessoa em uma nova família, mesmo que não fosse minha família. O que importa é que elas estão me recebendo.
Pensei que seriam apenas Jade e Árya, mas me surpreendi com a chegada de dona Liz e dona Amanda.
Todas abaixaram a guarda e estavam ali, prontas para minha aproximação.
Foi lindo.
Me senti acolhida e toda a tensão sumiu, bastou pisarmos no enorme shopping.
Os seguranças andavam logo atrás. Poderia chamar a atenção de algumas pessoas, mas estávamos animadas demais para nos constranger.
Escolhemos algumas roupas. Árya me mostrou uma blusa com decote, mas neguei. Preferi dizer que não gostei.
Nunca mais tive coragem de usar um simples biquíni, pois parece que meu decote me acusa do que aconteceu.
Após algumas compras, tomamos sorvete e rimos ao escutar dona Liz dizer que Sr. Gabriel queria pedir o divórcio apenas para se casar com ela novamente.
Gargalhamos com tantas histórias!
Pela primeira vez, me sentia recebida e abraçada pelas mulheres.
Por fim, decidimos assistir a um filme de comédia romântica, com direito a pipoca e guloseimas.
Acho que é assim que uma adolescente deve se sentir.
Pude sentir vida.
Voltamos para casa aos risos. Dentro do carro conversávamos sobre os episódios engraçados do filme.
Falávamos tão alto entre as risadas.
Quando Amanda assumiu achar o ator principal um gato, passamos m*l de tanto rir. Era porque ele era cabeludo como o marido dela.
Até mesmo o capanga que dirigia riu disfarçadamente.
Mas, quando chegamos em frente à porteira, Thiago estava parado com roupa de exercícios.
Parei de sorrir e olhei a hora no meu relógio novo, que havia ganhado de presente da dona Jade no shopping.
17h20.
Fechei os olhos me repreendendo.
Eu havia me esquecido totalmente sobre o treino na praia.