Pré-visualização gratuita A FUGA
BEATRIZ NARRANDO
Dizem que o pior grito é o que não chega a sair. O que morre engasgado no peito.
O meu ficou preso na garganta quando eu vi minha mãe cair no chão, os olhos arregalados, a boca entreaberta, e o sangue se espalhando pelo paralelepípedo da favela , como se estivesse pintando um quadro de horror.
Tudo começou três dias antes, mas ninguém imaginava que ia terminar assim. Eu morava com minha mãe, meu irmão mais velho, o Gabriel, e a caçula, a Aninha, de apenas três anos. Nosso barraco ficava no alto do Jardim Peri, morro esquecido na zona norte de São Paulo, onde o céu quase sempre era coberto por fumaça e grito, e onde a lei nunca subia. Meu irmão devia. E não era pouco. E quando se deve no morro, não importa se você é pai, mãe ou irmã. A bala vem sem endereço certo, mas sempre acerta quem mais sangra.
Naquele dia, a mãe já tava aflita. Tava com aquela cara de quem sabe que tá rezando à toa, mas reza mesmo assim. Tinha ligado pra ele umas quinze vezes. Eu vi. Ela andava de um lado pro outro dentro de casa, falando sozinha, pedindo a Deus pra trazer o Gabriel de volta. Eu já tinha ouvido uns boatos de que ele tava mexendo com o que não devia, mas a gente nunca quer acreditar até ver com os próprios olhos.
A Aninha dormia no meu colo quando os gritos começaram do lado de fora. Era final de tarde, o céu alaranjado, mas o clima tava pesado, carregado. A gente ouvia os fogos, os gritos, as motos descendo. E então vieram os tiros.
Foram dois. Curto. Seco.
Depois o silêncio.
Minha mãe me olhou. Os olhos dela estavam cheios d’água, mas o corpo tremia de raiva. Eu pedi pra ela ficar, mas ela saiu correndo. Gritando o nome dele.
— Gabriel! GABRIEL!
Eu tentei ir atrás, mas a Aninha acordou chorando, assustada, e eu não podia largar ela. Então eu segurei ela no colo e fui até a porta. Fiquei parada ali, no batente, vendo minha mãe correndo no meio da viela, desesperada.
Foi aí que eu vi.
O Gabriel tava ajoelhado no chão, com o rosto todo ensanguentado, cercado por três caras armados. Um deles ainda chutou o peito dele, fazendo o corpo dele cair de lado.
E minha mãe… minha mãe se jogou em cima dele. Abraçou o corpo do filho como se fosse escudo, como se pudesse proteger. Como se amor fosse colete à prova de bala.
E foi então que o tiro veio.
E dessa vez foi nela.
Eu vi.
Eu ouvi.
Eu morri um pouco junto.
Ela caiu por cima do Gabriel. Os dois ali. Parados. Um monte de sangue misturado.
E os homens só olharam em volta, sem pressa, como se fosse mais um dia comum.
Um deles me viu.
Apontei a cabeça de novo pra dentro de casa com o coração quase estourando. Apertei a Aninha contra meu peito, tampei os ouvidos dela. Ela chorava. E eu chorava também. Mas em silêncio. Tremendo por dentro.
Foi aí que caiu a ficha: eles iam vir atrás de mim também.
Porque se o Gabriel não pagou a dívida, alguém ia ter que pagar.
E eu não tinha nada.
Nem dinheiro.
Nem força.
Nem tempo.
Só tinha minha irmã. E por ela… por ela eu ia correr até o fim do mundo.
Fui no quarto, peguei a única mochila que a gente tinha. Joguei dentro os documentos, uma troca de roupa minha, uma fralda da Aninha, uma mamadeira, e mais nada. Não dava pra levar mais. Não dava tempo.
Peguei o celular, desliguei. Peguei R$ 27 que minha mãe guardava escondido na tampa de uma marmita velha, e saí. Pela porta dos fundos, pisando leve, de cabeça baixa. O coração batia tão alto que parecia que os próprios muros do morro iam me dedurar.
A gente desceu o Jardim Peri pelos becos menos óbvios. A Aninha dormia no meu ombro, como se o corpo dela já soubesse que não tinha pra onde correr. A cada passo, eu pensava que alguém podia aparecer atrás de mim. Podia puxar meu cabelo, me jogar no chão, me arrastar de volta. Podia me matar.
E aí quem ia cuidar da minha irmã?
Não sei como, mas a gente chegou até o terminal de ônibus. A sorte, ou castigo é que o primeiro ônibus que vi era um interestadual, fazia São Paulo – Rio de Janeiro. Um ônibus velho, de empresa barata, com mais de trinta paradas até chegar. Passagem era quase 50 conto, eu só tinha 27. Mas Deus ainda teve misericórdia: o motorista olhou pra mim, pra criança no colo, pras minhas olheiras, e deixou entrar pela porta de trás sem nem olhar de novo.
Nem perguntei pra onde exatamente ia. Eu só queria sair. Sair de perto do lugar onde mataram minha mãe.
Do lugar onde destruíram minha vida.
Sentei no fundo, tremendo. Abracei a Aninha como se ela fosse tudo que eu tinha. Porque ela era.
E enquanto o ônibus andava, eu via a cidade passando pela janela como se fosse outro planeta.
Gente indo e vindo. Casais de mãos dadas. Crianças brincando em calçadas.
E eu ali, suja, fodida, órfã.
A única coisa que eu conseguia pensar era: por quê?
Por que ele fez aquilo com a gente?
Por que não pensou na mãe?
Na irmã pequena?
Em mim?
Mas eu sabia.
Sabia que a vida no morro cobra caro. E às vezes, cobra em sangue.
Fechei os olhos, tentando não chorar. Mas vinha em ondas. Lembrava do cheiro do café da manhã que minha mãe fazia, do jeito que ela arrumava o cabelo da Aninha com florzinhas baratas compradas no camelô.
Agora ela tava morta.
Tinha virado estatística.
E eu nem pude enterrar.
Nem pude dizer adeus.
No meio da madrugada, o ônibus parou num posto de gasolina. A maioria dos passageiros desceu pra comer alguma coisa. Eu fiquei. O estômago roncava, mas meu bolso gritava mais alto. Não tinha como comprar nada. Eu só tinha medo e a pele suada.
Aninha acordou, olhou pra mim com aqueles olhinhos inocentes e perguntou:
— Cadê a mamãe, Bia?
Não respondi.
Só abracei ela mais forte e chorei.
Ela também começou a chorar.
E ali, no banco gelado daquele ônibus fedendo a diesel e tristeza, eu entendi que minha vida nunca mais ia ser a mesma.
O Rio de Janeiro era uma incógnita.
Mas São Paulo tinha virado meu pesadelo.
E atrás de mim, deixei minha casa, minha história, minha mãe, meu irmão…
e um rastro de sangue que jamais vai sair da minha memória.
Naquela noite, eu deixei de ser filha.
E virei mãe da minha irmã.
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