Capítulo 4

1970 Palavras
Meu celular vibrou quando me enfiei embaixo do meu edredom macio. Peguei, constatando que era minha amiga. "Me conta tudo, o Noah chegou aqui e não me falou nada. Não me diga que vocês se beijaram?" "Ta doida, ninguém se beijou não, ele só me deixou em casa e foi embora." — respondi, roendo a unha do dedão. "Miga, não quis ser chata falando aquilo, você sabe que eu iria adorar que você virasse minha cunha, né? Mas eu ainda não sei qual a visão do Noah sobre namoros, tenho medo de ele te machucar de alguma forma. Enfim, não sei se meu receio é infundado, mas eu percebi que ele se encantou por você, pelo modo que ficava te olhando a todo momento." — não consegui evitar o riso. "Por isso achei melhor falar logo, pra ele saber que você não é qualquer garota, é a minha melhor amiga e se meu irmão te magoar eu arrebento ele na porrada!" "Pam, não pira. Eu só achei o Noah bonito e o contrário deve ter acontecido, apenas. Não vamos ficar juntos, casar e ter filhos, relaxa!" — devolvi, rindo de nervoso. "Você também viu que ele mudou, não está mais igual nas fotos que você tem espalhadas pela casa. Não seria difícil achá-lo atraente. Enfim, só isso, não precisa criar um milhão de teorias nessa sua cabecinha pirada, viu." "Pago pra ver hahaha, o Noah tá no quarto e eu vou ir lá perturbar ele. Amanhã te ligo pra gente marcar nosso rolê, tá bom? "Tudo bem, miga, vai lá dar atenção para o seu irmão. Te amo, beijo. " "Também te amo. Amanhã a gente se vê." — coração grande pulsando. Se eu soubesse que o amanhã não chegaria, eu teria aproveitado mais o dia de hoje. Infelizmente, não dava para voltar no tempo e foi nessa noite que o mundo ao meu redor começou a desabar. (...) Acordei disposta a editar um vídeo para o meu canal e possivelmente gravar outro até o final do dia. Quando vi que Noah havia me adicionado — ou seguido — em todas as redes sociais. Sorri para o nada em específico, segui de volta e desci as escadas, encontrando meus pais tomando café da manhã. Dei um beijo em ambos e fui contemplada com dois sorrisos grandiosos que iluminavam minha vida. Eu tinha uma irmã também, mas ela morava com meus avós há dois anos. Pois meus pais ficaram desempregados e a situação tornou-se bem difícil. Então ela se mudou e agora prefere concluir o ensino médio onde está. Já eu me virava com o que tinha e fazia uns b***s de babá. De modo que ajudava como podia em casa. — O que vai fazer hoje, filhota? — papai perguntou, enquanto folheava o jornal. — Vou gravar um vídeo e mais tarde sair com a Pam. — expliquei, ciente de que eles preferiam que eu entregasse currículo. Contudo, eu havia feito isso durante toda a semana, estava cansada de perambular a esmo e não ser chamada sequer para uma entrevista. Portanto, não me importei com o olhar da minha mãe sobre mim. Apesar desse detalhe, eles me apoiavam, o que era tranquilizador. — E deu tudo certo ontem, você ter ido buscar o irmão dela no aeroporto? — mamãe quis saber, colocando café e chantilly para mim na caneca. — Deu sim, fiquei lá até tarde e acabei dormindo antes de vocês chegarem. — meus pais trabalhavam juntos em uma clínica pequena na cidade. Ela como secretária e ele como motorista. — Noah veio aqui me trazer, mas vocês não tinham chegado ainda. — Chame-os para almoçar com a gente no final de semana, querida. — ela deu a ideia. — Eu quero muito conhecer esse menino. — Eu acho que ele não é mais um menino, pelo que sei já está com dezenove anos. É um homem feito. — papai retrucou e fingi ignorar seu olhar sugestivo em minha direção. Engasguei um pouco com o café e fiquei de avisar sobre o almoço, assim que consegui respirar confortavelmente de novo. — Vou indo, vejo vocês mais tarde. — me despedi, saindo da cozinha. Os olhos do papai me seguiram, ele parecia imaginar coisas. Só vim saber mais tarde que a vizinha fofocou sobre um garoto bonito entrando em casa tarde da noite. Tarde da noite? WTF? Era oito horas! Bom, voltando, eu exportava o vídeo que editei quando a campainha tocou. Meus pais já haviam saído para trabalhar e eu estava sozinha em casa. Desci da forma que estava, com um short minúsculo do pijama e uma regatinha de unicórnio. Meus cabelos estavam ajeitados em um coque bagunçado e foi assim que abri a porta. Deparando-me com um Noah todo lindo à minha frente. — O-oi. — gaguejei envergonhada pelo meu estado, se imaginasse que era ele viria eu teria dado um jeito na minha aparência. — Oi, Luana — respondeu, abrindo um sorriso comportado. — Tudo bem eu ter vindo te ver? — Tudo! — exclamei alto demais, rápido demais. Eu era uma loser. — Entra. Dei espaço para Noah entrar com todo aquele tamanho na minha sala e assim ele o fez. Vestia uma bermuda jeans e uma camiseta azul, os cabelos claros estavam levemente arrepiados na frente e eu senti meu coração palpitar quando seus olhos focaram nos meus. — Se eu tiver atrapalhando algo, posso voltar outra hora. — afirmou, reticente e suas mãos foram para os bolsos do jeans. — Não, que isso — fiz um sinal com os dedos, para demonstrar que estava tudo bem de verdade. — Deve ser solitário com a Pam no trabalho. — É um pouco. — concordou e eu assenti. — Vou trocar de roupa e já volto. — apontei para as escadas. — Eu estava editando um vídeo antigo e não tinha pretensão de sair de casa agora. Não estranhe meu estado — eu ri, embaraçada. — Ao meu ver você tá linda. — Noah deu uma olhadela não tão disfarçadamente para mim dos pés à cabeça e eu corei feito o inferno. Minhas bochechas queimavam, parecia um incêndio. — O-obrigada. — agradeci gaguejando. Odiava minha gagueira momentânea. — Não por isso. — respondeu sorrindo. — Então... eu queria saber se você pode me ajudar a escolher um celular novo. Pam quem sugeriu, pois ficará atarefada no trabalho e disse que seria bom se eu falasse com você para não ficar entediado sozinho em casa. Palavras dela. — se defendeu. — Ah tá, faz sentido. — brinquei. — Já volto e podemos ir, tá bom? Ele assentiu lentamente, me olhando nos olhos. Subi as escadas tomando cuidado para não mostrar nada que não devia e fiquei travada em frente ao guarda-roupa. Sem saber o que vestir. Por fim, escolhi um moletom do Aladdin, uma skinner e meu All Star vermelho cano médio. Lavei o rosto, escovei os dentes novamente, passei uma maquiagem de nada e estava pronta. Razoável, constatei me olhando no espelho. Desci, encontrando Noah parado observando os quadros de fotos na minha estante. — Nossa, me desculpe. Nem ofereci nada pra você beber e nem pedi para se sentar. Que falta de educação! — exclamei sem graça. Em minha defesa, Noah me deixava aérea e distraída. Péssimo sinal para quem acabou de conhecê-lo. — Relaxa, você foi bem rápida. — ele sorriu me encarando. — Você tem uma irmã? Fiz que sim com a cabeça. — Ela se chama Larissa e mora com meus avós. — expliquei, sentindo subitamente saudades dela. Ligaria para aquela pentelha quando voltasse. — Os olhos da sua família são incríveis. — elogiou, olhando para um retrato na estante e em seguida, se voltando para mim, acrescentou: — Só que de todos os seus são os mais lindos. Minha família toda tinha olhos claros, não era azul, nem verde, claros de um jeito diferente. — Os meus foram os únicos que você viu pessoalmente. — objetei, mais uma vez tímida pelo elogio. — Pode ser, mas tenho certeza que manterei minha opinião quando conhecê-los. — esclareceu e eu sorri. Por que ele tinha que ser tão fofo? — Por falar nisso, meus pais convidaram você e a Pam para almoçarem com a gente no final de semana. — avisei, pretendia fazer um convite formal depois quando encontrasse minha amiga. — Adoraria. — respondeu animado e de repente ficou sério e silencioso. — Sabe, Luana, desde que te conheci, o que aconteceu ontem — frisou rindo —, eu não estou fazendo muito sentido. Por isso, já peço de antemão que não leve para o pessoal qualquer atitude meio estranha que possa vir de mim, tá? — Que tipo de atitude estranha? — tentei fingir descaso diante da frase: não estou fazendo muito sentido desde que te conheci. Que era bem passível de interpretações. — Não sei, talvez vir na sua casa de manhã. Com a desculpa de que preciso comprar um celular? — jogou e mordeu o lábio, aguardando minha reação. Que foi rir meio escandalosamente. Meu coração ficou morno com o que ele disse. — Prometo não levar para o pessoal e nem estranhar, satisfeito agora? — devolvi, beijando os indicadores em sinal de promessa e indo em direção à porta. — Muito satisfeito. — respondeu e, por um segundo, senti que Naruto se referia a outra coisa que eu não soube identificar por hora. Nem precisava, ou precisava? Íamos para o centro pesquisar qual era o melhor celular para Noah. Quando Pam mandou mensagem, dizendo que conseguira algumas folgas por causa do banco de horas. Combinamos de almoçar no shopping todos juntos. Quando percebi estávamos falando sobre ele. — Noah, que bom que voltou. — mencionei — Pam pode parecer durona, mas ela sentia muito sua falta. E, pode acreditar, quem aguentava essas crises era eu. — brinquei para descontrair. Ele riu e coçou a nuca. — Sabe, eu passei por uma fase complicada. — iniciou e eu prestei atenção, querendo conhecê-lo um pouco mais. — Quando perdi meus pais, eu meio que perdi minha identidade junto. Era muito novo e comecei a ficar confuso sobre tudo, sobre mim mesmo. Fiz muita besteira, e, acredite, ter ido morar com meu padrinho foi a melhor decisão que tomei. — deu de ombros, crispei os lábios. — Entendo. — foi o que falei. — Deve ter sido complicado pra vocês. — tentei ser sucinta, não sabia muito bem como participar de um assunto tão particular. Noah era diferente da Pamela, que eu conhecia há muito mais tempo. — Já passou, eu estou bem melhor agora. — ele forçou um sorriso acolhedor, como que para garantir o que disse. — Quero retomar minha vida, dessa vez perto da minha irmã. — Ela está muito feliz de te ter de volta. — contei, para amenizar o clima da conversa. — Eu sei, a Pam é a pessoa mais importante da minha vida. — Noah sorriu com os olhos azuis brilhando. — Não sei o que faria sem a minha irmã, eu com certeza ficaria meio perdido no mundo. Achei bonito a forma como ele falava da irmã, fiquei emocionada. — Ela consegue ser um amor quando quer. — Noah entendeu a referência. — Ela também consegue ser extremamente assustadora. — coçou a nuca, ainda rindo. Quando eu iria responder, entretanto, meu celular tocou e notei ser um número desconhecido. Franzindo o cenho, atendi e aguardei a informação do outro lado. Meu coração começou a acelerar ao passo que assimilei o que ouvia. Meu número estava no contato de emergência da Pam, ao que parecia, ela sofrera um acidente ao sair mais cedo do trabalho. Minha melhor amiga estava no hospital e precisávamos ir para lá agora mesmo. Desliguei o telefone com lágrimas nos olhos, ainda sem saber como dar a notícia ao Noah.
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