Já era muito tarde quando eles se retiraram e subiram para o quarto. A essa altura eu havia respondido Gabriel e mandado mensagem para o grupo que tinha Safira, Larissa e eu. Noah torceu o nariz quando me viu respondendo o irmão da Safira, mas nada disse. Eu não deixaria Gabriel no vácuo, ele era meu amigo. Enfim, bocejei, após dar boa noite ao casal e deitei novamente no peito do Noah.
Ele acarinhou minhas costas.
— Está tarde, quer dormir?
Fiz que sim e, cambaleantes, nos movemos para o quarto. Ao chegarmos, Noah passou a ajeitar a cama, pegar cobertores, travesseiro e a organizar o sofá do quarto. Mordi o lábio, entendendo o que ele iria fazer.
Eu queria pedir que dormisse comigo, sem conotação s****l, apenas dormir. Estava esgotada. Só que fiquei com vergonha demais de proferir aquele pedido. Então apenas me remoí por dentro. Tive uma ideia assim que ele entrou no banheiro e deitei no sofá, eu era menor. Ficaria mais confortável do que Noah ali.
Infelizmente, óbvio, quando ele viu o arranjo imediatamente protestou.
— Você não vai dormir no sofá. — resmungou, cruzando os braços em frente ao peito largo.
— Não vou deixá-lo dormir aqui, é pequeno pra você. Ao contrário, eu sou menor e não vejo problemas. — especifiquei teimosamente.
— De jeito nenhum. — se moveu até mim. — Você dorme na cama.
— Só durmo se você dormir comigo. — despejei em um acesso de coragem.
Mordi o lábio, envergonhada, ao notar o olhar confuso do Noah em meu rosto.
— Dormir com você? — indagou, confirmei corajosamente.
— A cama é grande, cabe nós dois. Assim ninguém acorda dolorido. — argumentei, tentando soar firme e decidida.
— Desculpe, eu estava tão avoado com as questões do evento beneficente que não me atentei a isso. Devia ter comprado um colchão reserva pra mim, mas não tive tempo. — explicou, com um quê de pesar na voz. — Talita me lembrou no sábado, eu fiquei de ver e esqueci.
— Não precisa se desculpar, está tudo bem. Você que está sendo teimoso. — insisti, analisando sua expressão.
— Não quero que se sinta desconfortável. — fiz esforço para não revirar os olhos.
Desconfortável na mesma cama que ele? Eu?
— Não me sentirei, prometo. — garanti sorrindo. — A menos que você se incomode com alguém se mexendo sem parar enquanto dorme. Eu costumo falar também. — dei de ombros.
Ele riu.
— Não tem problema.
E foi assim, que nós dois, após Noah vestir um moletom que o deixava despojado e lindo ao mesmo tempo. Nos ajeitamos na cama de casal, juntos. Escolhi meu pijama modesto e confortável, visando não revelar nada que não pudesse. Noah apagou a luz do abajur e virou para mim. Seu rosto tão próximo ao meu, iluminado apenas pela luz do luar, causou uma agitação em meu interior.
— Tudo bem mesmo eu dormir aqui com você? — perguntou, sua voz baixa soando a centímetros da minha boca.
— Sim. — consegui pronunciar, ainda que temesse estar com o coração acelerado demais, ao ponto de ele ouvi-lo.
Era ridículo, eu sei. Ainda assim coloquei a mão sobre o peito, a fim de acalmar os batimentos no meu coração. Noah ignorou esse gesto e tocou meu rosto com a ponta dos dedos, arrepiando todo meu corpo.
— Essa está sendo a melhor noite da minha vida desde que minha irmã faleceu. — aquela declaração me pegou de baixa guarda. Não soube o que responder de imediato. — Desculpe se estou sendo rápido demais, é que você me faz bem.
— Não é isso, é só que… — mordi a parte inferior da boca, com medo de assustá-lo com meus sentimentos. — Eu gosto de você e sei que passamos poucos momentos juntos efetivamente. Tenho medo de começar a gostar ainda mais de você, de te sufocar. — confessei temerosa.
— Engraçado, penso a mesma coisa às vezes. — ele riu, descontraído. — Eu disse para irmos com calma, porque nós dois estamos fragilizados. Mas no fundo, eu não quero mais ir com calma. A vida é muito curta para se ir com calma, sei que não sou perfeito e posso errar novamente. A questão é, se eu for esperar me sentir completamente seguro de ser suficiente pra você. De estar completamente bem, outro cara vai surgir e…
— Outro cara chamado Gabriel? — interrompi.
— É.
— Você cismou com ele.
— Tenho medo de te perder.
— Você não vai. — afirmei de pronto. — Se é somente isso que te impulsiona a ficar comigo, não precisa. Eu posso esperar o tempo que for, não quero que esteja comigo somente por ter medo de me perder. — minha voz falhou ao finalizar meu pensamento.
Noah deslizou os dedos pelo meu rosto, descendo para o meu braço e pousando na minha cintura. Suspirei, pensando se aquele momento era mesmo real ou fantasia da minha cabeça.
— Eu gosto de você. — declarou à queima roupa, outra vez, sorri agitada.
— Você já disse isso. — brinquei para amenizar meu surto interno.
— É por isso que quero ficar com você, não por ter medo de te perder. Óbvio que o medo se faz presente, sei que existem outros caras melhores que eu. — puxou o ar, me agitei ante aquele risco que nem existia, não na minha cabeça. — Mas, não quero que entenda errado, não é esse o motivo que me empurra para você. Nem mesmo o fato de ter me ajudado quando mais precisei. Não é isso, sou grato pelo que fez por mim. Só que, se fosse outra garota, eu apenas agradeceria a ajuda. Com você é diferente, eu te quis assim que te vi no aeroporto. Fiquei eufórico e confuso por desejar uma garota que acabei de conhecer. Foi tudo tão repentino, depois as coisas foram desabando e não soube o que fazer. O fato é que eu sempre te quis, não somente por ter me ajudado, não quero que veja meus sentimentos como um tipo de dependência sentimental ou algo assim. Eu quero você, por ser você, Luana. Quero ainda mais após descobrir o quanto é altruísta e carinhosa. Acima de tudo, quero você por ser a garota que bagunçou totalmente meu mundo, sem me dar sequer uma chance de defesa. — fiquei em choque, sem palavras. Ele continuou: — Queria que soubesse, porque mesmo se eu for meio lerdo com toda essa coisa de romance. Pelo menos você já ouviu de mim o que eu sinto, não tenho muita experiência com isso. Nunca namorei sério mesmo e… — fez uma pausa, apertando minha cintura. — Nunca gostei de nenhuma outra garota como eu gosto de você.
— Isso é o suficiente pra mim, serei paciente, Noah. — respondi, tocando seu rosto. — Não precisa ficar ansioso ou agitado e enfiar os pés pelas mãos. Eu também gosto de você e vou ter calma. Não precisamos assumir nada agora, só me deixe ficar perto de você. Já está de bom tamanho pra mim. — argumentei, porque era verdade. — Você também bagunçou meu mundo, acho que agora não tem mais volta.
Não queria pressioná-lo, por mais que ele estivesse melhor emocionalmente. Aquilo era um processo, eu seria compreensiva com ele. Independentemente de qualquer coisa, não o pressionaria. Foi pensando nisso que não tomei a atitude de beijá-lo. Porque desejava que ele se sentisse à vontade quando o fizesse. Então, subitamente, percebi seus lábios nos meus, delicadamente, apenas um selinho mais demorado. Com uma sugadinha no meu lábio inferior no final. Fechei os olhos para absorver o contato, mas foi bem rápido. No instante seguinte ele beijou demoradamente minha testa, sussurrando ali:
— Acho mais sensato dormirmos, porque, bem, é complicado ficar tão perto de você. — deu uma risadinha e eu corei no escuro.
Olhei em seus olhos mais uma vez, eles bruxuleavam devido à claridade advinda da janela.
— Boa noite, Noah — desejei, aceitando que havia o amanhã ainda e que eu dormiria na mesma cama que ele.
Era demais para que eu pudesse manter o controle.
— Boa noite, meu anjo. — retribuiu.
Aquele meu anjo sussurrado acelerou meu coração, que já estava extremamente alvoroçado. Não demorou muito e minha respiração tornou-se cadenciada, lenta. Noah ainda dormiu antes de mim, com o braço envolta da minha cintura de forma possessiva. Não foi nada difícil adormecer sentindo o calor do seu corpo junto ao meu.