Guilhermo D'Angelis
Depois da conversa com Vincenzo, saí do escritório dele com um nó na cabeça. Meu primo tinha razão. Quando um D'Angelis se fixava em algo, não largava até conseguir. Mas dessa vez era diferente. Eu não estava atrás de Aurora apenas por desejo ou obsessão. Tinha algo nela que me fazia querer protegê-la.
E a ideia de deixá-la nas mãos daquele velho nojento do Rizzi me enojava.
Subo para minha suíte e sirvo um copo de uísque. O líquido desce queimando enquanto eu olho para a cidade pela janela. O que eu sabia sobre Aurora Bianchi?
Pouco. Quase nada.
Filha do Máximo, um dos conselheiros mais antigos da máfia. Criada para ser uma esposa submissa. Noiva de um homem com fama de se livrar das mulheres depois de usá-las.
O cheiro da lasanha e do carbonara pairava pelo ar, um convite irresistível ao meu estômago faminto. A cozinha do anexo sempre tinha aquele calor familiar, o burburinho das conversas misturado ao som dos talheres batendo nos pratos. Me servi generosamente, aproveitando a comida de Germana, a mãe de Antonella. Ela tinha mãos de fada quando o assunto era culinária italiana.
— Família, estive pensando e tomei uma decisão. Quero saber se todos estão de acordo. — Meu tio Alessandro limpou a boca com o guardanapo antes de continuar. — Nossa família está crescendo. Pensei em vender a mansão e comprarmos casas separadas em um condomínio de segurança máxima.
Houve um burburinho imediato. Meu pai foi o primeiro a se manifestar.
— Por que isso agora, fratello?
Alessandro bufou, como se a resposta fosse óbvia.
— Conforto. Me aposentei e quero curtir minha esposa. Não temos privacidade com esse entra e sai de gente.
Tia Camille revirou os olhos e deu um tapinha no braço dele, mas Vincenzo assentiu.
— Acho uma excelente ideia. Eu e Antonella estamos no auge do nosso casamento e prestes a ter nosso segundo filho. Privacidade e mais espaço vão ser ótimos.
O assunto se desenrolou, cada um expressando sua opinião, mas no fim, todos concordaram que era uma boa ideia. Alessandro venderia a mansão e dividiria o valor entre as alas da família.
Mas a tranquilidade do jantar durou pouco.
— Por falar em família crescendo... Elena veio falar comigo. Quer ser uma das candidatas a esposa de Guilhermo. — Minha mãe lançou a bomba casualmente enquanto bebia um gole de vinho.
Engoli um pedaço da lasanha antes de responder, mas não fui rápido o suficiente.
— Cheio de candidatas e Guilhermo me cisma com uma garota que tá noiva, é mole? — Vincenzo comentou, e de repente todos os olhos estavam em mim.
Ótimo.
Suspirei, colocando o garfo no prato.
— Isso é conversa de Vincenzo. — Menti descaradamente. — E eu imaginei que Elena viria até mim na festa.
— E você não deu um passa fora nela por quê, primo? — Giulia arqueou a sobrancelha, desconfiada.
Dei de ombros.
— Deixei a bomba para mamma. Achei que ela cortaria ela.
A conversa continuou girando em torno da minha vida amorosa — ou da falta de uma, segundo eles. Mas minha mente já estava longe dali.
Já estava nela.
Aurora.
A imagem dela surgiu de forma tão nítida que precisei de um momento para me recompor.
Cabelos bagunçados sobre o meu travesseiro.
Uma camisola rosa clara, fina o suficiente para que eu enxergasse cada curva.
Respiração pesada, lábios entreabertos, bochechas coradas pelo desejo.
Maldição.
Fechei os olhos por um segundo, tomando um longo gole de vinho para afastar aquela visão tentadora. Mas não adiantou.
Eu precisava vê-la de novo.
E nada, nem um maldito noivado, nem um pai perigoso e muito menos um velho asqueroso como Domenico Rizzi iam me impedir disso.
Assim que chego ao meu quarto após o jantar, pego o celular e faço algumas ligações. Quero informações rápidas e precisas. Onde Aurora costuma ir? Se tem amigas, se sai sozinha ou escoltada, se há algum padrão em sua rotina. Minhas fontes são eficientes. Em menos de uma hora, já tenho respostas.
Ela frequenta um café discreto no centro da cidade, sempre no mesmo horário, entre o fim da tarde e o começo da noite. Às vezes está acompanhada por uma amiga, mas muitas vezes sozinha. Gosta de se sentar perto da janela e sempre parece... distraída. Como se estivesse em outro mundo.
Ótimo. Isso facilita as coisas.
Visto uma roupa mais casual, nada que chame atenção, e saio sem alarde. Assim que chego ao café, estaciono o carro a uma distância segura e me aproximo a pé.
E então a vejo.
Aurora Bianchi está sentada perto da janela, o rosto iluminado pela luz amarelada do poste do lado de fora. Os cabelos loiros caem em ondas suaves sobre os ombros, e ela mexe o café distraidamente, como se estivesse longe dali.
Mas não é só isso.
Ela não parece apenas distraída. Ela parece... triste.
Algo dentro de mim se contrai. Aperto a mandíbula. O que diabos está acontecendo com essa garota?
Antes que eu possa reconsiderar, já estou entrando no café e indo direto para sua mesa.
— Está sozinha, passarinha?
Aurora ergue os olhos rápido, surpresa com a minha presença. Por um momento, só consigo observar como seus olhos são ainda mais bonitos de perto, um azul muito claro porém profundo, daqueles que você se perde fácil se olhar por muito tempo. Um leve rubor colore suas bochechas, mas sua expressão logo se fecha.
— Subchefe? O que você está fazendo aqui?
Sorrio e puxo a cadeira, sentando-me sem cerimônia.
— Vi uma bela garota sozinha e resolvi fazer companhia. — Dou de ombros. — Aliás, me chama de Guilhermo.
Ela abaixa os olhos para a xícara, mexendo o café mais uma vez, mas não bebe. Seus dedos se apertam ao redor da colher.
— Não deveria estar aqui. — Sua voz sai baixa, quase um sussurro. — Eu sou noiva. Não quero causar uma guerra.
Cruzo os braços, estudando-a.
— Por quê? Seu noivo vai aparecer para me matar? Aí sim teríamos uma guerra.
Ela solta um suspiro curto, claramente frustrada.
— Você não entende. As coisas não são simples. Não para mim. E você atrás de mim não facilita nada.
— Então me faça entender.
Aurora aperta os lábios, como se estivesse prendendo as palavras. Ela olha ao redor, inquieta. Por um momento, penso que vai se levantar e ir embora. Mas então, seus olhos encontram os meus e, por um segundo, vejo algo... desespero.
— Eu não confio em você. — Sua voz é firme, mas há uma rachadura em sua armadura. — Não confio em homens da máfia. Além do mais, você não pode me ajudar. Ninguém pode.
Isso só acende ainda mais minha determinação.
Me inclino para frente, apoiando os braços sobre a mesa.
— Quer apostar?
Ela desvia o olhar, o maxilar travado. Não diz mais nada, apenas segura a xícara com tanta força que seus nós dos dedos ficam brancos.
E é nesse instante que percebo.
Aurora Bianchi não precisa apenas ser salva de um casamento arranjado. Ela precisa ser salva de algo muito pior.
E eu juro que vou descobrir o que é.