CAPÍTULO 2:
"Erick Teixeira"
Os dias viraram meses. Os meses, anos.
E, enquanto o tempo avançava, eu era moldado — treinado, lapidado à força, tudo isso para representar nome e status de uma grande família — Tudo isso para um único destino: encarar o Império dos Teixeira. A grande empresa da moda, a marca registrada, o nome que não admitia falhas nem sentimentos fora do script.
Cada dia era uma lição disfarçada de privilégio.
Aprendi a falar pouco, observar muito, decidir com frieza. Aprendi que naquela empresa não havia espaço para impulsos, nem para vínculos que não servissem a um propósito maior. Eu estava sendo preparado para herdar algo gigantesco… mesmo que isso custasse tudo o que me tornava humano.
Mas, nesse intervalo de tempo, muita coisa mudou.
E nem tudo podia ser controlado.
A mãe da Laís foi a primeira grande perda silenciosa.
Ela pediu demissão da empresa de forma repentina, sem alarde, sem explicações públicas. Para o mercado, foi apenas uma decisão profissional. Para mim, foi um corte profundo. E eu já sabia do verdadeiro motivo dias .
Ela tinha visto uma conversa do meu pai Afonso, com meu tio Fernando Teixeira
Não era uma discussão aberta. Era pior. Uma conversa fria, estratégica, onde meu nome e o da Lais eram tratados como variáveis incômodas. Como algo a ser corrigido. Um risco à reputação. Um erro em potencial dentro de um plano maior.
Minha relação com a Laís não era chamada de amor. Era chamada de problema.
A mãe dela entendeu tudo naquele momento.
Entendeu que, por mais talento que tivesse, por mais respeito que conquistara dentro da empresa, sempre haveria um limite invisível imposto pelo sobrenome que eu carregava. Um limite que nem o trabalho, nem a excelência, nem os anos de dedicação seriam capazes de ultrapassar – Meu tio ficou inconformado com essa decisão, mas não pode fazer nada a respeito, pois ela mesmo tomou essa decisão.
Pedir demissão foi o único gesto de dignidade que lhe restou.
Quando soube, senti uma mistura de culpa e impotência. Porque, de alguma forma, aquilo também era consequência do meu silêncio. Do meu medo. Da escolha que fiz anos atrás, de fingir, de recuar, de não enfrentar meu pai quando ainda havia espaço para diálogo.
E o pior de tudo: nada foi dito oficialmente.
Nenhum pedido de desculpas. Nenhuma explicação.
A vida simplesmente seguiu… como se aquela saída não tivesse arrancado algo de todos nós.
O Império Teixeira continuou crescendo.
E eu continuei sendo preparado para comandar
Mas, a partir daquele dia, eu soube:
algumas decisões não derrubam empresas —
apenas pessoas.
......
Um ano depois
Eu já estava com vinte e dois anos, e Laís, dezenove.
Ela se preparava para viajar para Londres — decisão tomada pela mãe logo depois de sua saída da empresa. Saber que eu ficaria quatro anos longe dela estava me matando aos poucos, mesmo que eu fingisse que estava tudo sob controle.
Por isso, marquei de sair com o Ugo, meu grande amigo da faculdade e também parceiro de trabalho na empresa, responsável pelo marketing. Eu precisava espairecer a mente, respirar fora daquele turbilhão de pensamentos — e o Ugo sempre foi uma boa companhia nesses momentos.
Chegamos à boate no começo da noite. O lugar era sofisticado, luz baixa, música bem escolhida, um ambiente que misturava elegância e i********e.
Havia várias salas VIP, cada uma isolada do barulho principal, criando pequenos mundos particulares dentro do mesmo espaço.
Seguimos direto para o nosso reservado.
Conversa solta, bebida na mão, risos forçados da minha parte. Eu tentava acompanhar Hugo que estava conversando com uma modelo. mas meus pensamentos estavam longe. Sempre longe.
Foi então que, ao olhar casualmente para a parte inferior do lugar , meu corpo reagiu antes mesmo da mente.
Laís.
Ela estava ali, ao lado da amiga, Camila.
O tempo pareceu desacelerar.
Laís estava… linda demais. Como sempre. Mas havia algo diferente naquela noite — talvez a consciência de que em breve ela partiria. Vestia-se com naturalidade e confiança, como quem não precisava provar nada a ninguém. O jeito como se movia, como sorria, como ocupava o espaço…
era impossível ignorar.
Ela era uma deusa, a sua imponência e elegância, me deixava sem chão.
Meu peito apertou. O desejo veio forte, quase doloroso, misturado com saudade antecipada e frustração. Eu queria descer aquelas escadas, pegá-la para perto, dizer tudo o que passei anos calando. Mas fiquei parado. Preso. Observando.
Tinha que suportar tudo em silêncio.
Suportar o olhar que não podia se prolongar demais.
O impulso que precisava ser contido.
A vontade que eu aprendi a engolir para não contrariar meu pai — e tudo o que ele representava.
Hugo percebeu minha mudança de expressão.
— Cara… — ele começou, seguindo meu olhar.
Eu apenas balancei a cabeça, pedindo silêncio.
Ali, naquele instante, entre a música baixa, as luzes suaves e a distância c***l entre nós, eu entendi que não era apenas a viagem que me doía.
Era o peso de tudo o que eu nunca tive coragem de viver com ela.
E o pior: saber que o tempo estava prestes a levar Laís para ainda mais longe de mim.
Eu decidi ir até ela.
Levantei quase no impulso, como se, se pensasse mais um segundo, perderia a coragem. Quando comecei a descer, o coração já acelerou, vi Laís se afastando com a Camila. O relógio marcava pouco depois da meia noite e meia — tarde o suficiente para saber que elas provavelmente estavam indo embora.
Apressei o passo, ignorando qualquer tentativa de racionalizar aquilo. Não podia deixá-la sair sem ao menos falar comigo.
Cheguei bem perto, já na saída.
— Laís — chamei a voz saindo mais firme do que eu me sentia.
Ela se virou, surpresa por um instante, e então sorriu daquele jeito que sempre me desarmava.
— Oi, Erick… — disse. — Não sabia que você estava por aqui hoje.
Cheguei mais perto, tentando parecer casual — mesmo sabendo que nada ali era realmente simples.
— Pois é… vim dar uma volta com o Ugo. Precisava me distrair um pouco — falei, num tom leve demais para quem estava tudo, menos leve.
— E você, já está indo ? perguntei
Ela me encarou por um instante antes de responder, como se avaliasse.
— Sim, chegamos mais cedo, não posso ficar mais.
E você estar bem?
Sim, estou bem.
A resposta veio curta, educada, controlada demais. Aquele “bem” não carregava entusiasmo, mas também não abria espaço para perguntas. Ainda assim, havia algo no jeito dela.
— Erick, e você só decidiu nos dar o ar da graça agora? — Camila perguntou, com um olhar curioso.