APENAS MINHA AMIGA

1085 Palavras
CAPÍTULO 3 Erick Teixeira Pois é… eu só vi vocês agora, quando vocês já estavam saindo — menti, com uma naturalidade que me surpreendeu. — Não consegui chegar perto antes. A verdade era outra. Eu tinha ficado à distância, observando. Lutando comigo mesmo. Pesando cada possibilidade, cada risco, tentando decidir se teria coragem de atravessar aquele espaço entre nós. Mas algumas verdades não precisam — e talvez não devam — ser ditas. Laís me encarou com atenção demais para alguém que acreditava em respostas simples. Havia algo no olhar dela, como se soubesse que aquela frase vinha incompleta. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Camila surgiu ao nosso lado, curiosa, avaliando a cena com um meio sorriso cheio de intenções. O silêncio se estendeu mais do que deveria. — Você aceita uma carona? — perguntei, mantendo os olhos fixos em Laís. Antes que ela respondesse, Camila se adiantou: — A gente aceita, sim — disse, animada demais para ser casual. — Já estávamos indo embora mesmo. Laís lançou à amiga um olhar rápido, quase um pedido silencioso para que tivesse esperado. Depois voltou-se para mim, trazendo no rosto aquele misto perigoso de cautela e familiaridade que sempre existiu entre nós. — Tudo bem. — respondeu, por fim. E naquele simples “tudo bem” havia mais coisas do que ela jamais diria em voz alta. Enquanto caminhávamos em direção à saída, senti o peso do momento se acomodar no meu peito. Talvez fosse apenas uma carona. Talvez fosse só mais uma noite comum. Mas eu sabia: cada minuto ao lado dela agora carregava a urgência de quem sente que o tempo está se esgotando. E, dessa vez, eu não queria apenas observar de longe. Meu pai nunca aceitou o que existia entre mim e Laís. Ainda assim, eu sempre encontrava um jeito de estar por perto — calculado, discreto, quase estratégico. Deixei claro para ele, mais de uma vez, que ela era apenas minha amiga. Que não havia motivo para preocupação. Afonso nunca discutia. Nunca levantava a voz. Apenas me lançava aquele olhar frio, calculado, e deixava um aviso seco, quase protocolar: aquilo não podia passar disso. Amizade. Nada além. Como se sentimentos obedecessem a limites impostos por palavras. Eu aceitei. Pelo menos na aparência. Mas aquele aviso nunca me abandonava. Ele voltava à minha mente como um sinal constante de alerta — e agora, mais do que nunca, estava ali. Depois que Laís aceitou a carona — com a interferência nada sutil da Camila — seguimos para o estacionamento. O trajeto até a casa da Camila foi curto demais. Ela desceu animada, agradeceu, se despediu com um sorriso curioso demais para ser inocente. A porta se fechou, e o silêncio tomou conta do carro. Só nós dois. O caminho até a casa de Laís pareceu se alongar. A cidade passava do lado de fora em luzes borradas, ruas quase vazias. Dentro do carro, havia uma tensão contida, misturada com um conforto antigo, quase perigoso. Falávamos de coisas pequenas, irrelevantes — qualquer assunto servia para evitar o que realmente importava. Quando estacionei em frente ao prédio dela, desliguei o motor. Nenhum de nós se mexeu de imediato. Ficamos ali, conversando sobre nada e tudo ao mesmo tempo, usando palavras como desculpa para adiar a despedida. Até que respirei fundo. — Então… Laís — comecei, sentindo a garganta apertar. — Quando você vai para Londres? Ela demorou um segundo a responder. Olhou pela janela, como se organizasse pensamentos que não queria dividir, antes de voltar o rosto para mim. — No próximo mês — disse, com uma naturalidade ensaiada. Meu peito se contraiu. — E como você está se sentindo com isso? — Tranquila. A palavra saiu fácil demais. Rápida demais. Mas os olhos… os olhos não confirmavam totalmente o que a boca dizia. Assenti, fingindo acreditar. — Que bom — murmurei. O silêncio voltou, pesado. Observei cada detalhe dela antes de falar o que já me corroía por dentro: — Eu vou sentir sua falta. Ela sorriu, com um sorriso pequeno, quase defensivo. — Eu também vou sentir a sua, seu bobo — disse, dando um leve tapinha no meu ombro. — Mas você pode me visitar nas férias… se não for te incomodar, é claro. Meu coração acelerou. — Sério mesmo? — Claro que é sério — respondeu. — Vamos fazer um trato: todas as férias, você vai me ver. — Certo — disse, rendido. Ela sorriu de um jeito que me desarmou completamente. — Trato feito — completei. — Eu combinei com a Camila também — acrescentou. — Ela vai me visitar, eu vou visitar ela… ninguém vai ficar com saudade por muito tempo. Era uma tentativa bonita de tornar tudo mais simples. — Eu já vou entrar — disse, abrindo a porta. — Está tarde, e minha mãe pediu para eu não chegar tão tarde. Ela saiu do carro e seguiu em direção ao elevador. Eu fiquei ali, observando aquela silhueta se afastar, parado como um i****a, sabendo no fundo do peito que nada naquela situação era realmente tranquilo. Nem para ela. Nem para mim. Havia coisas demais suspensas no ar: despedidas não feitas, verdades nunca ditas, sentimentos que insistiam em existir — apesar de todos os limites impostos A porta do carro se fechou atrás dela com um som seco demais para algo tão simples. Fiquei imóvel, mãos ainda apoiadas no volante, olhando o retrovisor como se, de algum modo, Laís ainda estivesse ali. Ela caminhava em direção ao elevador com passos firmes, mas não apressados. Como se cada passo fosse uma escolha consciente. Como se estivesse se obrigando a ir, quando tudo nela queria ficar. E eu senti. Senti porque conhecia aquele corpo. Aquele jeito de andar quando tentava parecer decidida. Aquela postura ereta demais, típica de quem está segurando alguma coisa por dentro para não deixar transbordar. O elevador chegou. A porta se abriu. Por um segundo — um único segundo — ela hesitou. Virou levemente o rosto, como se pensasse em olhar para trás. Meu coração disparou numa esperança ridícula, quase dolorosa. Mas ela entrou. As portas se fecharam. E foi ali que tudo desabou em silêncio. Soltei o ar devagar, como se só então percebesse que estava prendendo a respiração havia tempo demais. Meu peito doía. Não era um drama exagerado, nem um sofrimento espalhafatoso. Era algo mais c***l: aquela dor quieta, constante, que não grita, mas não vai embora. “Amizade.” A palavra do meu pai ecoou na minha mente, fria, imutável. Como uma sentença.
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