UMA HISTÓRIA QUE VAI DURAR

1324 Palavras
CAPÍTULO 4 Erick Teixeira Por dois anos, Londres se tornou meu destino obrigatório. Não pela cidade — embora eu admita que ela sempre soube seduzir —, mas pela Laís. Desde que a mãe a enviou para estudar moda, criamos um acordo que nunca foi dito em voz alta: as férias eram dela. E eu sempre dava um jeito de cruzar o oceano, como quem cumpre um ritual. Não era sacrifício; era simplesmente natural. A decisão da mãe veio quando Laís completou dezenove anos. Agora, às vésperas de completar dois anos fora, ela já falava da cidade com a i********e de quem a havia adotado — ou sido adotada por ela. Londres lhe caiu como um tecido bem cortado: elegante, despretensioso e inesperado. Quase todos os dias nós falávamos por mensagem. Era um ritual não declarado, um acordo silencioso que ninguém assinou, mas ambos cumpríamos com uma devoção que beirava o ridículo. Aquilo me mantinha respirando à distância. O som dela — mesmo que digitado — atravessando o oceano e chegando até mim como um sussurro particular. Bastava uma notificação para meu peito reagir antes do resto do corpo. Eu suspirava, e por um segundo tudo parecia simples: eu, ela, e a ideia absurda de que, se estivéssemos na mesma cidade, o mundo teria outra lógica. — Oi. Você pode falar agora? Ela escreveu. Sorri para a tela como um i****a — não era bonito admitir, mas era real. Cada frase dela era um convite para um território que só existia entre nós dois. Um território sem nome, sem definição… e talvez por isso tão viciante. — Claro. Com você eu sempre posso. Respondi. E não era exagero. Mesmo quando não podia, eu dava um jeito. O pior — ou o melhor — era que ela sabia. Sabia do poder que tinha sobre mim e fingia que não sabia. Esse era o jogo. E eu jogava feliz. — Tô me sentindo muito sozinha hoje. Ri sozinho. Era típico dela ser sincera só no meio. — Saudades de mim? Escrevi brincando. Demorou mais do que o normal para responder. — Também. As coisas aqui são muito diferentes. Não conheço ninguém, e ainda tô apanhando do idioma. — Quer companhia, é isso? — Sim… mas ainda falta um mês pra você vir. Fiquei olhando para aquela frase. Eu conhecia saudade no rosto dela, mas por mensagem era mais raro. — Vou ver o que posso fazer pra antecipar a viagem. Se for preciso eu pego o jatinho. A verdade é que eu pegaria. Ela respondeu rápido demais. — Eu iria amar você aqui, mas não quero atrapalhar seu trabalho. — Não vai. Finalizo o que faltar da ai. E ainda peço ideias suas. Você é boa nisso. — Se não for atrapalhar… eu vou amar você aqui comigo. Sinto falta das suas piadas sem graça. — Sem graça? Ingrata. Quando dei por mim já estava ajustando agenda, passagem e a única mala que importava. Cheguei numa quinta-feira chuvosa, Londres do jeito mais Londres possível. Ela estava me esperando na saída, com um casaco verde e o cabelo preso de qualquer jeito. Sorriu como se estivesse aliviada — e isso bastou. Abraça-lá foi diferente. Talvez porque fazia meses. Talvez porque ela estivesse mais linda , ou talvez seria algo que eu não tinha percebido. Ou porque saudade demais sempre muda as coisas. Almoçamos num bistrô minúsculo perto do Soho. Ela me levou para ver os tecidos, as provas, os croquis amontoados. A cidade parecia um organismo vivo — e ela, parte dele. À noite fomos caminhar perto do Tâmisa. O vento estava frio demais, e ela reclamava, mas não soltava meu braço. Eu não sabia que morar fora fazia a gente se sentir tão… pequeno — ela disse, olhando a água n***a. — Faz a gente aprender quem somos — respondi. — Mas você sempre soube. Paramos em um bar, e ela bebeu mais do que deveria, o copo subia bem rápido, e eu só acompanhava, para não deixá-la sozinha. Voltamos para o apartamento, ela rindo alto, tropeçando no próprio casaco. E, pela primeira vez, ela olhou para mim como se não me conhecesse como so um amigo— ou como se estivesse reconhecendo outra coisa. — Erick… — disse num sussurro, e aquilo não era brincadeira. Meu coração travou por um instante . Ela sentou-se no sofá, tirou as botas, e ficou ali observando. — Você ficou diferente — comentou. — Você que bebeu de mais — falei. Ela sorriu, aquele sorriso meia-boca que sempre me desmontou. O vinho escalou o resto. — Eu senti muita falta disso — confessou, sem explicar o “isso”. Não precisava. Eu sabia. Foi naquela noite que tudo ficou mais perigoso — ainda não havia o toque, mas já existia a possibilidade dele. E às vezes a possibilidade dói mais do que o ato. garrafa que ela trouxe ,ficou pela metade, mas o resto da noite transbordou. Laiz levantou-se do sofá e andou até a pequena bancada da cozinha improvisada. O vinho já tinha deixado seu rosto mais quente, e o cabelo, solto e bagunçado, prendia a atenção de um jeito novo. — Você lembra quando eu falei que ia vir pra Londres e dominar o mundo? — ela perguntou, virando-se com o copo na mão. — Lembro — respondi. — E você tá fazendo isso– falei Ela riu, mas não foi de deboche. Foi frágil. — Às vezes eu acho que não sei o que tô fazendo Erick — Você sempre soube, Laiz Bonatti. – E eu só assisto. Ela parou. Uma pausa longa demais para ser casual. — Por que você sempre fala as coisas certas Erick? — questionou, cruzando os braços. — Não é difícil quando a pessoa importa. — Disse, e eu não deveria ter dito. Ela engoliu o ar devagar. O corpo dela reagiu antes da mente. — Erick… — sussurrou de novo, só que dessa vez havia algo transparente ali. Dez passos nos separavam. Ela só precisou dar mais alguns pra chegar perto. Quando chegou perto o suficiente, senti o cheiro do vinho misturado ao seu perfume. Era uma combinação perfeita que funcionava nela. Ela levantou o rosto. — Me beija Erick. — Ela pediu. E não era uma ordem. Era um pedido quase tímido. — Você tem certeza disso? Perguntei um pouco confuso. — Sim, tenho e eu quero. Talvez porque eu soubesse que, se eu tomasse a iniciativa de forma brusca, ela se afastaria no dia seguinte. E eu não podia correr o risco de perder o pouco que já existia entre nós. Esse pensamento me travou — e, ao mesmo tempo, me incendiou. Quando o beijo finalmente veio, foi quase um choque silencioso. Devagar… inseguro… como se ela testasse os limites da própria coragem. O toque dos lábios era leve, mas carregado de intenção. A respiração dela roçou a minha pele antes mesmo da boca tocar a minha, e aquilo fez meu corpo inteiro reagir de um jeito que eu não estava preparado. O medo e o desejo se misturaram num espaço tão curto que cabia entre nossas bocas. – Eu senti. Ela também. – E talvez por isso o beijo ganhou ritmo depois — um pouco mais firme, um pouco mais profundo, mas sem pressa, como se qualquer movimento errado pudesse estilhaçar tudo. Cada segundo dizia mais do que qualquer palavra O beijo ganhou corpo. Primeiro no ritmo — mais firme, mais decidido — depois nas mãos. Os dedos dela subiram pela minha nuca, leves no começo, quase como se pedissem permissão, e depois mais seguros, puxando-me para mais perto. Senti o calor do corpo dela encostar no meu e, por um instante, tudo ao redor ficou suspenso. O mundo se reduziu àquele toque — à forma como ela respirava entre um beijo e outro, ao jeito como seus lábios alternavam força e suavidade, como se estivesse descobrindo o que fazer comigo e gostando do poder disso.
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