- Olha só se o picolé não retornou das ilhas paradisíacas -- a voz de Nicolas soa assim que Nathan sai do elevador no prédio da Travelyan's Technology, o som de um espumante sendo aberto soa no salão da presidência. - Achei que tinha derretido por lá picolé.
- Já me arrependo de ter retornado – o mais novo exclama fazendo o moreno o encarar ofendido
- Vou fingir que não ouvir, servido?-- questionou Nicolas entregando-lhe uma taça com espumante
- Não obrigada, prefiro um café a essa hora da manhã – Nathan responde recusando a oferta e Nicolas revira os olhos
- Tomy?
-Eu tenho uma reunião em uma hora Nico, não vou beber -- O loiro responde após abraçar Nathan.
- Como podem ser minha família? seus caretas -- Nicolas exclama revirando os olhos e os irmãos fazem a mesma coisa para ele - E ai picolé como foi com a sua esposa?
- Foi.. divertido -- Nathan responde evasivo fazendo ele bufar irritado e virar as três taças de espumante garganta abaixo.
Ignorando totalmente as exclamações de Nico sobre os detalhes que ele deveria dar da respectiva lua de mel o mesmo encaminhou-se a sua sala, sendo seguido por ambos os irmãos como duas sombras, repousou sua pasta sobre a mesa e abriu o botão de seu blazer sentando-se em sua cadeira com vista para a cidade e aguardou até que um dos irmãos soltasse a próxima pérola.
- Pegou um bronze legal, andou transando na praia?-- Nico questiona balançando ambas as sobrancelhas para o irmão e a gargalhada gutural de Thomas soou na sala.
- Você é um i****a, quais são as novidades?
- Thomas viveu em reuniões e eu estou criando um novo software para um dos nossos novos aparelhos e estão prestes a sair no mercado os novos relógios digitais. – Nico responde enquanto o loiro observa a pilha de documentos no canto de sua mesa, o moreno logo percebe onde a atenção do irmão esta de fato. - São urgentes, Maria deixou aqui somente o que você precisa dar uma olhada e assinar urgentemente, então comece picolé.
- Por favor, pare com este apelido ridículo -- Nate implorou impaciente e recebeu um aceno negativo do irmão mais velho.
Nicolas havia o apelidado com este nome quando eram crianças, Nico já estava quase entrando na adolescência e eles estavam passando o natal nos alpes suíços e seu pai os levara para esquiar mas acabou o esquecendo em uma das montanhas e Nate passou 7 horas no frio, quando o encontraram apesar das roupas apropriadas o mesmo precisou de horas no hospital e de uma manta térmica para recuperar a temperatura corporal e desde então para o irmão mais velho ele era o Picolé.
- Nos vemos no almoço seus palermas, vamos comer shawarma. – Nicolas fala a sair da sala do irmão com sua garrafa de espumante em mãos.
E com este anuncio o mesmo retira-se, enquanto Thomas permanece e faz uma rápida atualização a Nathan sobre o que ele precisaria saber até a reunião que logo ocorreria, e o mesmo tentava concentrar-se nas palavras do irmão e guardar o máximo de informações possíveis.
Após mais de uma hora de reunião o mesmo reuniu-se com Maria em sua sala e esta o passou a atualização de sua agenda semanal e como organizou tudo que foi remarcado em seus dias longe, teria muito trabalho pela frente e sabia que os próximos dias seriam corridos e cansativos ao extremo.
Dito e feito, as duas semanas seguintes foram infernais na presidência da empresa e mesmo tendo Thomas, seu irmão do meio como vice presidente e este tendo realizado muita coisa em sua ausência. O mesmo precisou desdobrar-se para avaliar cada contrato em sua mesa e somente depois assinar cada um deles, as reuniões remarcadas com os fornecedores ocorreram uma após a outra no decorrer dos dias e as reuniões de apresentações de projetos ocorriam da mesma forma, levando-o a uma exaustão extrema ao chegar em casa a noite.
Ele sabia que Alexandra tava passando por algo parecido com os clientes do escritório e com as documentações da empresa que precisavam sempre passar pelos advogados em primeira mão. Só na ultima semana ao fim do dia o mesmo teve quatro reuniões com o pai de sua esposa, sua rotina estava um ponto de deixar-lhe doente, estava tão sobrecarregado que não sentia fome quando deveria sentir, estava sempre estressado e com dores de cabeça e no corpo, e sentia-se facilmente fadigado todos os dias, tudo isso iniciou cerca de duas semanas após o retorno do casal da lua de mel e estendeu-se desde então.
...
Nate e Alex já estavam casados a quase dois meses, nem conseguia acreditar que havia levado até o momento um casamento de negócios sem transtornos, ele e Alexandra davam-se muito bem e por mais que sua rotina tenha sido estressante no fim do dia quando chegava em casa, ambos partilhavam uma taça de vinho ou champanhe e conversavam desabafando sobre o dia que tiveram, soltavam seus monstros e iam para a cama de certa forma aliviados.
Mas Nate estava exausto, diariamente cansado e sem um motivo aparente, até quando tentou uma noite de diversão com a esposa falhou miseravelmente na balada, e passou parte da noite arrependido de ter aceitado sair com ela da forma que estava.
Enquanto isso a morena seguia sua rotina mesmo tendo um retorno puxado ao escritório e levado alguns processos para casa perdendo horas de sonos por noites seguidas. Quando ele menos esperou ela estava ali pronta para uma noite de bebidas e diversão no fim de semana em que toda a carga de trabalho havia voltado aos eixos, e tem sido assim desde então, ela o convida para sair e quando ele diz não, a mesma segue sozinha com as amigas e retorna na madrugada feliz e alterada, e quando ele aceitava, retorna sóbrio demais, e ainda mais cansado, e ela alterada da mesma forma quando sai sozinha.
- Hey cara, uau quem matou você e esqueceu de recolher o cadáver? – Nico questiona ao entrar na sala do irmão pela manhã.
Nathan havia passado o fim de semana incomunicável em seu apartamento para descansar e havia retornado na segunda feira péssimo, como se não dormirá todo o fim de semana, o que de fato ele fez grande parte do tempo. Mas ainda assim havia olheiras escuras embaixo dos seus olhos que ele inicialmente esconder sob os óculos escuros, mas na segurança de sua sala o mesmo livrou-se do objeto, sentindo-se mais confortável sozinho, sem falar que no domingo o mesmo notou alguns hematomas leves em algumas áreas do corpo, mas não lembra-se de ter batido em nenhum lugar.
- Me erra Nicolas.
Ele responde impaciente e o irmão aproxima-se a sorrir zombador.
- A minha cunhadinha é vampira? que chupão é esse no pescoço e como veio trabalhar sem cobrir isso? -- o mesmo questiona risonho e senta-se na cadeira de frente para o irmão recebendo uma expressão de descrença do mesmo impaciente para as piadinhas de Nicolas.
- Você ta péssimo, e com o chupão que ta eu imagino que o fim de semana foi fogo e gasolina. – O mais velho reafirma a mirá-lo.
- Cala a boca Nico, deixa de gracinhas, e para com esta historia de chupão, sabe que Alexandra e eu não temos um envolvimento físico
Nathan o repreende e responde impaciente, enquanto procurava na pasta do seu computador sobre a mesa a agenda do dia que Maria atualizou.
- É sério picolé, tem um chupão no seu pescoço e se não foi a minha cunhadinha, alguém andou chupando o picolé dela --- ele responde risonho e Nathan revira os olhos.
Nicolas levanta-se e com seu telefone faz uma foto do pescoço do irmão, em seguida exibindo a tela ao mesmo.
- Ta vendo isso palerma, eu não minto... quer dizer só quando necessário. – o mais velho exclama enquanto ele observava a imagem.
De fato havia uma mancha roxa em seu pescoço, não muito grande, mas assemelhava-se a um chupão como o irmão havia dito e o loiro suspira cansado e seu dia m*l havia começado, precisava urgentemente ir a um médico e conseguir algumas vitaminas ou pioraria ainda o seu caso de exaustão.
- Posso te contar algo?
- Claro, o que há? -- Tony questiona sério ao perceber a expressão do irmão mudar.
Há alguns dias ele notará que Nathan estava estranho, sempre reclamando de dores de cabeça e no corpo, cansado e que o mesmo já não fazia as refeições como sempre, não era todo dia que ele estava disposto a almoçar. Thomas também havia notado esta mudança no comportamento do mesmo e ambos já haviam conversado sobre, mas imaginavam que não passava de estresse.
Thomas até ofereceu-se para levar ao irmão a uma massagista para um dia de relaxamento, mas o mesmo não achou necessário e arrependeu-se amargamente quando na manhã seguinte acordou com fortes dores no corpo a ponto de chegar ao escritório horas mais tarde.
- Não me sinto bem Nico, de verdade acho que há algo errado comigo .
Nathan comenta suspirando e encosta a cabeça no encosto de sua grande cadeira de couro preta, precisava de alguma forma retomar os sentidos, mas sua cabeça doía tanto que ele conseguia ver uma explosão de cores nas órbitas oculares.
- Essa mancha, há uma no meu braço, na minha coxa e na minha perna, e há mais de uma em minhas costas, a minha cabeça dói e meu corpo dói
- Vá ao médico – Nicolas responde seriamente e seu tom de voz soa mais como um comando de irmão mais velho.
- Eu vou, vou ver um dia livre e irei ao médico. -- O loiro responde para tranqüilizar o irmão.
- Não, você vai hoje -- O mesmo levanta-se da cadeira e sem pedir licença pega o telefone da mesa de Nathan usando a discagem rápida para falar com Maria na recepção - Cancela toda a agenda do Nate do dia, ele não ficará na empresa hoje.
- Nicolas, quem lhe deu o direito?
Nathan questiona irritado e indignado com a atitude do mais velho.
- Sou seu irmão, se esta sentindo todas essas coisas, eu me sinto na obrigação além de ter todo direito de desmarcar seus compromissos para levá-lo ao médico. –Nicolas fala obrigando o loiro a levantar de sua cadeira.
Além de pegar seu blazer e óculos escuros saindo com o mesmo de sua sala e passando por Maria e sua assistente na recepção, usando o elevador enquanto Nathan permanecia quieto, sentia-se cansado até para mandar Nicolas ir pastar em outro planeta, achou que aceitar e obedecê-lo lhe pouparia mais forças.
Em minutos eles deixavam o prédio da empresa, com Nicolas no volante de seu conversível, enquanto Nate seguia em silencio, e o telefone do mais velho toca, soando no sistema de som do veiculo.
- Onde você esta levando o Nate? Nico é segunda feira e nem é meio dia para ir se jogar na vida -- A voz de Thomas soa no sistema de som do carro de Nicolas quando o mesmo atende ao telefone.
- Todo dia e toda hora é momento de se jogar na vida, mas calma ai bonitão, eu estou levando o nosso picolé para o hospital – Nicolas responde acelerando o conversível para ultrapassarem o sinal antes que este ficasse vermelho, Nathan imediatamente abre a boca no banco do carona para reclamar da atitude do irmão - Não tava vermelho, cala a boca.
- Por que esta levando ele ao médico? -- Thomas questiona do outro lado da linha.
- Para tomar chá – Nico responde ironicamente e escuta o suspiro do irmão do outro lado da linha. - Ele não se sente bem, esta reclamando de dor mais do que um velho com osteoporose, artrite e tudo que um idoso tem.
- Me mantenha atualizado -- Thomas comanda antes de desligar a chamada e o som de Metallica retorna ao sistema de som do carro.
Durante o trajeto Nathan trocou mensagens com o médico amigo da família que atendia no hospital onde ambos estavam indo, e este aceitou encaixá-lo em sua agenda. Assim que ambos chegaram ao local tiveram que aguardar por cerca de meia hora enquanto o loiro precisou suportar Nicolas reclamando o quanto odiava esperar ainda mais em um lugar que carrega o sobrenome da família deles, ainda assim o mais novo aceitou a espera e agradeceu a disposição de Dr. Hamilton em atendê-lo em seu horário de almoço.
- Não vou ser deixado para trás, podem me passar gripe enquanto eu espero vocês -- Tony reclama quando Steve pede que o irmão aguarde na recepção e a resposta do moreno faz Hamilton rir.
Ele era um grande amigo da família deles, atendeu com seus pais quando ainda eram residentes e hoje é o médico responsável pela unidade do hospital de New York da família deles. O trio entrou em um dos consultórios no andar de atendimento e consultas, a sala era espaçosa e arejada com janelas e persianas, havia uma mesa com computador e duas cadeiras para o paciente e acompanhante, além de uma partição de meia parede em madeira clara para a maca de exame físico e um banheiro, nas paredes haviam quadros em tons claros dando um ar mais leve ao consultório e uma foto no armário atrás da mesa do médico, exibindo a imagem do mesmo e sua família, e dele com os pais da dupla e donos da rede hospitalar que estavam.
- Muito bem Nathan, diga-me o que tem sentido ? -- Dr. Hamilton questiona olhando-o por trás de seus óculos de grau com armação preta, o homem tinha um sorriso gentil e uma expressão calma e solicita ao dirigir-se a ele, exibindo alguns cabelos grisalhos a mais desde que o vira da ultima vez.
- Eu achei que poderia ser algo relacionado ao estresse, mas as semanas conturbadoras já passaram, minha rotina é a mesma de sempre e eu sigo com sentindo um cansaço, e as dores de cabeça, dor no corpo, me sinto fraco, até parei de treinar e correr, é estranho esta fadiga constante e há alguns dias surgiram algumas manchas roxas no meu corpo, começou com uma ou duas mas agora deve haver umas dez. – Nathan explica ao homem enquanto o mesmo digita tudo no computador sobre a mesa de vidro.
- Sua rotina antes disso? – o médico questiona a mirá-lo.
- Nate é um chato, raramente comia algo que não é saudável, e ele fazia corridas regulares e musculação e treino pesado com um personal. – Nicolas responde pelo irmão.
Estava indignado que ele tenha parado com a rotina de exercícios e não lhes disse nada, estava quantos dias sentindo-se dessa forma e escondendo o quão r**m era o sintomas a ponto de largar suas corridas matinais.
- Alguns dos sintomas que descreveu podem ser confundidos com gripe ou problemas de estresse, dependendo do nível de estresse da pessoa pode surgir manchas roxas pelo corpo, é mais comum do que imaginam, mas ainda assim eu vou solicitar alguns exames de sangue e hormonais para verificarmos o que pode haver de errado com o seu corpo.--- o médico diz lançando no sistema a solicitação dos exames.
- Obrigado doutor!
- Tem algo mais a me dizer? – o senhor questiona.
- Ele dormiu o fim de semana todo e olha essas olheiras, não há pepino que dê jeito Doutor Hamilton – Nicolas exclama segurando o rosto do irmão e fazendo o homem rir
- Mais algum sintoma Nathan ? -- o homem questiona novamente.
- Perda de apetite, se eu fizer uma refeição ao dia não me importo e não sinto a necessidade de fazer mais que isso. -- ele responde sincero e o homem segue digitando.
Seguindo para o exame físico o mesmo pede para averiguar as manchas roxas que surgiram no mesmo e fez uma rápida palpação e pressão nas mesmas recebendo respostas negativas do loiro ao questionar se doía, averiguou se havia sinal de inflamação na garganta, algo que indicasse alguma gripe mas o mesmo estava sem nenhum sinal, mas ao verificar a temperatura corporal do mesmo recebeu indicativo de febre, Hamilton encaminhou Nathan até a sala de exames onde foram coletados alguns tubos de sangue para averiguação.
- Há sinais de anemia presentes em seu estado físico, eu pedi urgência nos seus exames devem sair ainda hoje a tarde, mas eu gostaria que permanecesse aqui conosco para receber algum suporte intravenoso e manteremos sua temperatura sob observação. -- Hamilton aconselhou no fim do exame.
Nathan somente concordou com o mesmo, sendo ele encaminhado a um quarto para descanso e observação enquanto Nico havia sumido por sabe-se lá quanto tempo, ali sozinho no quarto o mesmo chegou a cochilar sem necessitar de tanto tempo no silêncio devido o cansaço que estava a sentir.
- Sabe a quantidade de pessoas doentes e enfermeiras bonitas que há neste hospital? -- Nicolas surge o acordando enquanto usava uma máscara no rosto e isso faz Nathan rir apesar da forma que sentia-se, Nico ainda o fazia rir.
Foram cerca de quatro horas esperando nas quais ele viu o irmão entrar e sair do seu quarto, falar ao telefone com seu assistente ou reclamar das noticias na televisão ou do fato de estarem esperando tanto, mas finalmente Dr. Hamilton solicitou a presença de ambos em seu consultório e uma enfermeira os acompanhou do quarto ao consultório, ao entrarem ambos puderam notar a expressão fechada no rosto do homem.
Sob o olhar do médico ambos sentaram nas mesmas cadeiras de horas atrás e esperaram por segundos que o homem desse a primeira palavra e iniciasse a conversa na qual tiraria as dúvidas sobre o problemas que o loiro tinha mas ele não o fez e isso estava deixando o loiro ansioso a ponto das palmas de suas mãos suarem frio e seu estômago embrulhar.
- O quão r**m? -- Nathan questiona imaginando pela forma que o mesmo havia se comportado, não era um simples resfriado ou problemas de estresse
- Nathan, o seu hemograma demonstrou um quadro alto de anemia e há alterações em algumas células sanguíneas, suas plaquetas e glóbulos brancos estão muito abaixo do valor normal, e isso infelizmente é um indicativo de leucemia
- Leucemia? -- Sua voz soa fraca e tudo que ele consegue escutar é a respiração pesada de Nico ao seu lado.
Apesar de ouvir a respiração acelerada e profunda do irmão, Nathan não tem coragem de olhar para o irmão mais velho, quando os sintomas de gripe que ele estava tendo passaram de algo tão comum a um câncer que pode lhe tirar a vida?
Pensava que tudo não passava de uma brincadeira, e se fosse, era uma das péssimas, quis virar para Nicolas e lhe socar até ele assumir que pagou o médico para aceitar fazer esta pegadinha sem graça, mas ao virar-se em direção ao mais velho e ver a expressão do irmão ele não parecia de fato estar no meio disso, parecia tão chocado e assustado quanto ele, fazendo enfim com que ele compreendesse a verdade, estava mesmo com câncer.