A porta se fechou atrás de mim com um som seco.
Não foi alto. Não foi violento.
Ainda assim, pareceu definitivo demais para um simples clique de fechadura.
Eu estava sozinha em um quarto que não era meu.
O espaço era grande, impessoal. Cama king-size com lençóis escuros, cortinas pesadas cobrindo as janelas, móveis de madeira sólida que pareciam ter sido escolhidos para durar décadas. Nada ali tinha identidade. Nenhum detalhe feminino. Nenhuma concessão ao conforto emocional.
Era um quarto feito para alguém que dormia pouco.
E agora… era meu.
Larguei a bolsa sobre a poltrona e fiquei parada no centro do quarto, tentando entender quando exatamente minha vida tinha deixado de me pertencer. Não houve transição suave. Um minuto eu era filha, mulher comum, alguém com planos pequenos e reais. No outro, eu era a noiva de um Don da máfia siciliana.
Sem beijo.
Sem promessa.
Sem escolha.
Passei os dedos pelo anel no meu dedo. Frio. Pesado. Não era exagerado, nem chamativo. Justamente por isso era assustador. Um símbolo discreto de posse.
Sob o nome do Don.
A frase ecoava na minha mente como uma sentença.
Ouvi passos do lado de fora e meu corpo reagiu antes da razão. Endireitei a postura, o coração acelerando. A porta se abriu novamente, mas não era Matteo.
Uma mulher entrou. Devia ter uns cinquenta anos, cabelos presos, expressão neutra.
— Sou Teresa — disse. — Estou aqui para ajudar no que precisar.
Ajuda.
Como se isso fosse possível.
— Preciso de alguma coisa? — perguntei, cansada demais para ironia.
Ela me analisou com cuidado, talvez procurando sinais de desespero. Não encontrou. Eu os tinha enterrado fundo demais.
— O jantar será servido em uma hora — informou. — O Don prefere que esteja presente.
Prefere.
— Claro — respondi.
Ela hesitou por um segundo.
— Se precisar de roupas, posso providenciar.
Olhei para mim mesma. Vestia as mesmas roupas de quando saí de casa. Jeans, blusa simples. Nada que combinasse com aquele lugar.
— Depois — falei.
Teresa assentiu e saiu, fechando a porta com o mesmo cuidado excessivo.
Fiquei sozinha outra vez.
Caminhei até a janela e afastei um pouco a cortina. Do lado de fora, o pátio era iluminado por luzes baixas. Homens armados circulavam como sombras silenciosas. Não era uma casa. Era um território.
E eu estava no centro dele.
Respirei fundo, tentando não entrar em pânico. Matteo De Luca não precisava me trancar. Ele sabia que eu não iria a lugar nenhum. Para onde eu iria? Contra quem eu lutaria?
Naquele mundo, fugir era um luxo que só os mortos tentavam.
Quando voltei a me virar para o quarto, a porta se abriu de novo.
Dessa vez, era ele.
Matteo entrou sem anunciar a própria presença. Terno escuro, camisa aberta no primeiro botão, mangas dobradas como se tivesse acabado de sair de uma reunião — ou de algo pior. O olhar passou pelo ambiente e pousou em mim com atenção silenciosa.
— Você se adaptou rápido — disse.
— Não tive escolha — respondi.
Ele caminhou até a mesa lateral, serviu-se de um copo de uísque e bebeu sem pressa.
— Pessoas inteligentes se adaptam — falou. — Pessoas orgulhosas quebram.
— E você prefere as inteligentes.
— Eu prefiro as que sobrevivem.
Cruzei os braços, tentando manter alguma dignidade.
— Isso não muda o fato de que fui forçada a estar aqui.
Ele se aproximou um pouco mais, parando a poucos passos de distância.
— Muda tudo, Isabella. Você não está aqui como prisioneira.
— Não? — ergui a sobrancelha.
— Está aqui como alguém sob minha proteção.
— Proteção comprada.
O olhar dele escureceu levemente.
— Nada do que eu tenho foi comprado barato.
O silêncio se estendeu entre nós. Denso. Elétrico.
— Onde eu durmo? — perguntei, quebrando-o.
— Aqui.
— No mesmo quarto que você?
— Não esta noite — respondeu, direto demais. — Não enquanto você ainda acha que isso é uma negociação.
Meu coração deu um salto estranho. Parte alívio. Parte irritação.
— E quando eu parar de achar?
Ele me encarou por um segundo a mais do que o necessário.
— Aí conversamos.
Ele se virou para sair.
— Matteo — chamei, antes que pudesse pensar melhor.
Ele parou, mas não se virou.
— Isso não vai ser fácil pra você — falei. — Eu não sou dócil. Não vou sorrir e fingir que está tudo bem.
Finalmente, ele me olhou de novo.
— Ótimo — disse. — Eu não teria escolhido alguém fraca.
E saiu.
Fiquei ali, com o coração batendo forte demais para um simples diálogo.
Uma hora depois, fui levada à sala de jantar. A mesa longa demais para duas pessoas. Matteo sentou na cabeceira. Eu, à direita. Distância calculada.
A comida era impecável. Eu não senti gosto algum.
— Amanhã — ele disse, enquanto cortava o próprio prato — você será apresentada como minha noiva.
Engoli em seco.
— Para quem?
— Para quem importa.
— E se eu disser algo errado?
— Não diga nada — respondeu. — Observe. Aprenda.
— Eu não conheço suas regras.
— Vai conhecer.
Levantei o olhar.
— E se eu quebrar alguma?
Ele largou os talheres lentamente.
— Depende de qual regra.
O aviso era claro.
Quando o jantar terminou, fui conduzida de volta ao quarto. Dessa vez, a porta não foi trancada. Não precisava.
Troquei de roupa e me deitei naquela cama grande demais, o teto desconhecido acima de mim. O silêncio era quase absoluto, interrompido apenas por passos distantes e vozes abafadas.
Fechei os olhos, mas o sono não veio.
Tudo em mim estava alerta. Como um animal cercado, esperando o momento do ataque.
Algum tempo depois, senti a presença antes de ouvi-la.
A porta se abriu suavemente.
Matteo entrou, sem acender as luzes. Parou perto da cama.
— Durma — disse, baixo. — Amanhã começa de verdade.
— E se eu não quiser acordar para isso?
— Vai acordar — respondeu. — Porque agora você carrega meu nome.
Ele saiu.
Fiquei olhando para o escuro, o anel pesando no meu dedo, o coração batendo como se estivesse em guerra.
Eu não sabia ainda, mas aquela casa não era o lugar mais perigoso em que eu pisaria.
O lugar mais perigoso…
era o mundo que vinha com o nome dele.
E eu acabara de entrar nele.