Acordei antes do sol.
Não porque estivesse descansada, mas porque meu corpo não confiava naquele lugar o suficiente para dormir profundamente. Tudo ali parecia silencioso demais, organizado demais, como se a casa respirasse junto com os homens que a protegiam.
Sob o nome do Don.
A frase voltou assim que abri os olhos.
Levantei devagar, caminhei até o banheiro e encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos denunciavam o que eu tentava esconder: medo, sim — mas também algo mais perigoso. Raiva. A raiva de quem foi empurrada para um jogo que não escolheu jogar.
Teresa apareceu pouco depois, trazendo roupas.
— O Don pediu que usasse isso — disse, estendendo um vestido escuro, simples, elegante demais para ser apenas uma escolha estética.
— Ele escolheu até isso? — perguntei.
Ela hesitou.
— O Don prefere evitar interpretações erradas.
Sorri sem humor.
— Ele não confia nem na própria noiva.
— Ele confia no controle — respondeu, sincera demais.
Vesti o vestido em silêncio. Caía perfeitamente. Como se tivesse sido feito para mim — o que só tornava tudo pior.
Quando terminei, Teresa prendeu meu cabelo de forma simples, deixando o pescoço exposto. O toque foi delicado, quase maternal, mas seus olhos carregavam pena.
— Não demonstre fraqueza hoje — aconselhou. — Eles respeitam quem não baixa a cabeça.
— Eu não costumo baixar — respondi.
Ela assentiu.
— Ótimo. Vai precisar disso.
Fui levada até o andar principal da casa. Homens ocupavam o espaço como peças bem posicionadas. Alguns conversavam baixo. Outros observavam em silêncio. Todos me analisaram no instante em que apareci.
Nenhum disfarçou.
Eu era a novidade.
Matteo estava ao centro, conversando com dois homens mais velhos. Quando me viu, interrompeu a fala sem pedir licença.
— Venha — disse, estendendo a mão.
Olhei para ela por um segundo. Não por timidez. Por desafio.
Então aceitei.
O contato foi breve, firme. Controlado.
— Senhores — ele anunciou — esta é Isabella Romano. Minha noiva.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Avaliador. Como se cada homem ali estivesse decidindo o que eu representava: ameaça, fraqueza ou oportunidade.
— Um prazer — murmurei, porque ficar muda seria pior.
Alguns assentiram. Outros sorriram de forma enviesada.
— Tão jovem — comentou um deles, com um olhar que me percorreu sem pudor.
A mão de Matteo apertou levemente a minha.
— O suficiente — respondeu ele, frio. — E sob minha proteção.
O aviso estava dado.
Seguimos para a área externa, onde carros aguardavam. Matteo me conduziu até o banco do passageiro e fechou a porta pessoalmente. Um gesto calculado. Visível. Ele queria que todos vissem.
O trajeto foi curto, mas tenso. Nenhum de nós falou nada. A cidade passava pela janela como um cenário que eu já não reconhecia.
Parámos diante de um restaurante fechado para o público. Segurança em excesso. Homens posicionados em cada entrada.
— O que é isso? — perguntei.
— Uma reunião — respondeu. — Hoje, você aprende quem são nossos aliados. E quem não são.
Engoli em seco.
Lá dentro, o ambiente era carregado. Homens de terno, expressões duras, vozes baixas. O tipo de lugar onde decisões custavam vidas.
Matteo me manteve ao lado dele o tempo todo. Não como carinho. Como declaração.
— De Luca — disse um homem alto, aproximando-se. — Não sabia que estava noivo.
— Não estava — Matteo respondeu. — Agora estou.
O homem me olhou com interesse demais.
— Ela sabe onde está se metendo?
— Ela aprende rápido — respondeu Matteo por mim.
Sorri, mantendo a postura.
— Não subestime quem você ainda não conhece — falei, olhando diretamente para o homem.
O silêncio voltou a se espalhar.
Matteo me lançou um olhar rápido. Não de repreensão. De avaliação.
Durante a reunião, ouvi nomes, territórios, números. Aprendi rápido a ficar em silêncio nos momentos certos. Observei olhares atravessados, tensões m*l disfarçadas. A máfia não era uma organização sólida. Era um campo minado.
Em certo momento, um dos homens se inclinou para Matteo.
— Não teme que ela se torne um ponto fraco?
Meu coração disparou.
Matteo não hesitou.
— Quem acha que minha noiva é um ponto fraco… não entende quem eu sou.
O olhar dele caiu sobre mim.
— Nem quem ela pode se tornar.
A frase ficou presa em mim.
Quando saímos, o ar parecia mais pesado do que quando entramos.
— Você falou demais — ele disse, assim que entramos no carro.
— E você falou por mim — retruquei.
— Eu falei por nós.
— Não somos “nós”.
Ele virou o rosto lentamente em minha direção.
— Ainda não — concordou. — Mas será.
— Você não pode controlar tudo, Matteo.
Um leve sorriso surgiu.
— Posso controlar o suficiente.
— Eu não vou ser sua fraqueza.
— Ótimo — respondeu. — Porque fraquezas morrem rápido nesse mundo.
Voltamos para a casa em silêncio.
Mais tarde, sozinha no quarto, minhas mãos tremiam levemente. Não de medo apenas. De adrenalina. De consciência.
Eu tinha sido vista.
E isso me tornava perigosa.
Quando a noite caiu, ouvi passos familiares. Matteo entrou sem aviso.
— Você foi observada hoje — disse.
— Eu sei.
— Alguns gostaram de você. Outros não.
— E você?
Ele me encarou por longos segundos.
— Ainda estou decidindo.
— Eu não vou ser decorativa — falei. — Nem obediente.
— Eu não preciso de uma boneca — respondeu. — Preciso de alguém que sobreviva ao meu lado.
— Então pare de me tratar como propriedade.
Ele se aproximou, parando perto demais.
— Enquanto carregar meu nome… você é minha responsabilidade.
— Isso não é o mesmo que posse.
— No meu mundo, é.
O silêncio se esticou entre nós. Denso. Carregado.
— Eles vão tentar me usar contra você — falei.
— Eu sei.
— E se conseguirem?
O olhar dele escureceu.
— Então eles morrem.
Saímos daquele confronto sem vencedor.
Mas algo havia mudado.
Eu não era mais apenas a dívida paga.
Eu era uma peça no jogo.
E, gostando ou não, Matteo De Luca acabara de me colocar no tabuleiro.