Eu não erro em avaliações.
Pessoas são previsíveis. Medo, ambição, lealdade — tudo tem um padrão. É por isso que sobrevivi tempo suficiente para me tornar Don. É por isso que homens que se achavam mais espertos do que eu estão enterrados em lugares que ninguém visita.
Isabella Romano não se encaixa em padrão algum.
Fiquei parado no escritório, olhando a cidade pela janela, enquanto a casa finalmente adormecia. Os relatórios estavam sobre a mesa, intactos. Pela primeira vez em muito tempo, minha mente não estava nos números, nem nos territórios, nem nas ameaças que cresciam silenciosas como ervas daninhas.
Estava nela.
No jeito como me encarou quando anunciei o noivado.
No modo como não baixou a cabeça.
No silêncio estratégico que manteve quando qualquer outra mulher teria falado demais — ou chorado.
Ela não implorou.
Isso foi o primeiro erro dela.
Ou talvez… o primeiro problema meu.
A maioria das mulheres que entram nesse mundo vem com expectativas erradas. Poder, luxo, proteção. Isabella veio com raiva. E inteligência suficiente para escondê-la quando necessário.
Raiva bem direcionada é uma arma.
E armas são perigosas nas mãos erradas.
Ou nas certas.
Acendi um cigarro, mesmo prometendo a mim mesmo que tinha parado. A fumaça subiu devagar, densa, como os pensamentos que eu evitava.
Ela não foi escolhida ao acaso.
A dívida do pai era real, mas havia outras soluções. Sempre há. Dinheiro, favores, sangue. Eu escolhi Isabella porque precisava de um símbolo. Um movimento visível. Algo que deixasse claro que eu estava consolidando poder, não apenas cobrando dívidas.
Um Don sem alianças visíveis é um Don questionado.
Ela era perfeita para o papel.
Bonita sem ser frágil. Jovem o suficiente para chamar atenção. Forte demais para quebrar no primeiro impacto.
O problema é que ela não entendeu que o papel não termina quando as portas se fecham.
Ela quer existir ali dentro.
E isso… complica tudo.
Bati a cinza no cinzeiro e me afastei da janela. Passei pela ala silenciosa da casa, sentindo o peso familiar da vigilância constante. Homens posicionados, armas prontas, olhares atentos. Tudo sob controle.
Tudo, menos o fato de que eu sabia exatamente onde ela estava naquele momento.
No quarto que agora carregava meu nome.
Parei diante da porta por um segundo. Não entrei. Não era fraqueza. Era cálculo.
Ela precisava entender que não tinha acesso a mim quando quisesse. E eu precisava lembrar a mim mesmo que ela não era… nada além do que eu decidi que seria.
Nada além disso.
Voltei ao escritório e me sentei. Abri um dos relatórios. Não li uma linha.
Ela enfrentou Leone hoje.
Pouca gente faz isso sem pagar o preço. Leone é antigo. Orgulhoso. Um daqueles que acreditam que respeito vem da idade, não da inteligência. Quando ela respondeu, firme, sem elevar a voz, vi o olhar dele mudar.
Ela marcou território.
Sem saber.
Ou sabendo demais.
— Maldição… — murmurei, passando a mão pelo rosto.
Isabella não entende ainda que cada palavra que diz naquele mundo tem peso. Que cada gesto é interpretado como fraqueza ou ameaça. E o pior: ela não tem medo suficiente disso.
Isso pode matá-la.
Ou torná-la algo muito pior.
Peguei o telefone e disquei um número curto.
— Fique atento — disse assim que a ligação foi atendida. — Qualquer movimento fora do padrão, você me avisa.
— Sobre ela? — a voz do outro lado perguntou.
— Sobre qualquer um que olhe tempo demais — respondi.
Desliguei sem esperar resposta.
Eu deveria estar irritado. Deveria vê-la como um risco a ser controlado, um problema a ser neutralizado antes que crescesse. Esse sempre foi meu método.
Mas o que senti não foi irritação.
Foi… curiosidade.
E isso me incomodou mais do que qualquer ameaça externa.
Isabella não tenta me agradar. Não tenta me provocar de forma óbvia. Ela simplesmente existe, firme demais para alguém que acabou de ser jogada em um mundo que engole pessoas como ela.
Ou pessoas que parecem com ela.
Fechei os olhos por um instante e a imagem veio sem ser convidada: o modo como o vestido escuro moldava o corpo dela, como o olhar se mantinha firme mesmo quando tudo ao redor gritava perigo.
Desejo não fazia parte do plano.
Nunca fez.
Desejo é distração. Fraqueza. Um erro caro.
E, ainda assim, meu corpo reagia quando ela se aproximava. Não como impulso cego, mas como alerta. Como se algo estivesse se reorganizando dentro de mim.
Como se eu estivesse… interessado.
Isso não podia acontecer.
Porque se Isabella se tornasse mais do que um símbolo, mais do que uma aliança estratégica, ela se tornaria exatamente aquilo que meus inimigos procuram: algo que eu não estaria disposto a perder.
E homens como eu não podem se dar a esse luxo.
Levantei e caminhei até o cofre embutido na parede. Abri, retirei um arquivo fino. Fotos. Nomes. Informações sobre os Romano.
Nada inesperado.
Família pequena. Vida simples. Erros comuns.
Isabella não cresceu nesse mundo. Ela não foi moldada por ele.
Talvez por isso… ainda não esteja quebrada.
Fechei o arquivo com força.
— Isso não é um conto de fadas — murmurei para o silêncio do escritório.
Ela não será exceção. Não comigo.
Ainda assim, uma parte incômoda da minha mente já calculava como protegê-la sem parecer que eu me importava. Como colocá-la em posições seguras sem limitar demais sua presença. Como ensinar sem parecer controle absoluto.
Eu não ensino. Eu comando.
Mas Isabella não reage bem a ordens.
Ela reage a desafios.
Isso é perigoso.
Sorri de lado, sem humor.
Talvez seja por isso que não consigo tirá-la da cabeça.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, algo entrou na minha vida sem pedir permissão.
E eu ainda não decidi se devo esmagar isso…
ou observar até onde pode ir.
Saí do escritório quando o céu começava a clarear. Passei pelo corredor novamente. Desta vez, parei diante da porta dela.
Fiquei ali por alguns segundos. O suficiente para ouvir a respiração tranquila do outro lado.
Ela dormia.
Segura.
Porque eu permitia.
E esse pensamento, simples demais, acendeu algo que eu deveria ter matado há anos.
— Você ainda não entende — murmurei, baixo. — Mas vai entender.
Me afastei antes que ficasse tempo demais.
Isabella Romano não é minha fraqueza.
Ainda não.
Mas se continuar assim…
pode se tornar a única coisa capaz de me destruir.
Ou a única coisa que me faz lembrar que ainda sou humano.
E ambos os cenários são igualmente perigosos.