Capítulo 3

965 Palavras
A dor que percorria o peito de Elaine era insuportável — crua, ardente, um tormento que ela não desejaria nem ao seu pior inimigo. Ela a esvaziava por dentro, deixando-a ofegante, como se cada respiração pudesse estilhaçá-la ainda mais. Seus olhos, brilhando com lágrimas não derramadas, agarravam-se desesperadamente ao rosto de Michael, suplicando em silêncio que ele retirasse o que dissera, que mudasse de ideia, que a visse como ela realmente era — Sua companheira destinada, escolhida pela própria Deusa. Mas a dureza nos olhos dele dizia tudo. Sua decisão estava tomada, resoluta e c***l. Ele escolhera Kathy, sua própria irmã. A voz de Elaine quebrou ao se virar para a família, o último fio de esperança pendendo por um fio frágil. — E vocês? — Perguntou ela, o olhar passando do pai para a mãe, buscando, implorando — Vocês concordam com isso? Os ombros de seu pai curvaram-se sob o peso do olhar dela. O tom era firme, mas as palavras cortavam mais fundo que qualquer lâmina. — Temos que pensar na matilha, Elaine. Não só na nossa família, mas em todos os lobos que dependem de nós. Isso... é maior que nós. Os olhos de sua mãe transbordavam de tristeza, mas suas palavras bateram como um martelo. — Sua irmã está grávida, Elaine. Tem um bebê para se pensar também. O coração de Elaine se contraiu tão forte que ela pensou que poderia parar de vez. Ela se virou para Kathy, desesperada para que a irmã negasse, para que se agarrasse à irmandade, para que ficasse do seu lado. Mas os olhos de Kathy eram poças brilhantes de arrependimento. — Eu sinto muito que isso tenha acontecido, irmã — Sussurrou Kathy, com a voz tremendo — Eu te amo. Eu não sabia que Michael era seu companheiro. Se não fosse pelo meu filhote, eu me afastaria... eu realmente me afastaria. Mas não posso, não agora. Cada palavra era outra faca cravada fundo no peito de Elaine. A traição era insuportável. Sua família — aqueles que deveriam protegê-la, blindá-la da dor — agora eram os que a destruíam. E o pior? Eles falavam como se sua crueldade fosse dever, como se sacrificar a felicidade dela fosse nobre. Algo dentro de Elaine endureceu. Ela sentiu seu coração começar a congelar, como se sua própria alma estivesse se retraindo atrás de muralhas geladas. Ela percebeu então, com uma certeza profunda até os ossos, que nunca mais conseguiria olhar para eles do mesmo jeito. Eles não eram mais sua família. Eram a família do Beta, leal à matilha acima de tudo. O casal Alfa era apenas isso — o Alfa e a Luna, líderes, não protetores. E Michael... ele não era mais seu companheiro. Era simplesmente o futuro Alfa, nada mais. Inspirando um fôlego trêmulo e deliberado, Elaine forçou-se à imobilidade. Não deixaria que vissem sua dor. Eles não mereciam. Nenhum deles merecia suas lágrimas, seu amor ou sua confiança. — Então — Disse ela por fim, a voz calma, quase distante — O que o senhor propõe, Alfa? Todo o quarto caiu em um silêncio atônito. Nenhum grito, nenhuma lágrima, nenhuma súplica desesperada, apenas uma frieza gélida que nenhum deles jamais ouvira de Elaine. Isso os perturbou profundamente, porque Elaine nunca fora fria. Ela sempre fora calor e luz, a faísca que elevava os outros. Agora, aquela faísca se fora, enterrada sob seu coração partido. O Alfa Efrein pigarreou, a expressão sombria. — Michael e Kathy terão sua cerimônia de acasalamento no próximo mês — Disse ele devagar — A matilha já sabe que você é a companheira destinada de Michael. Precisamos que você esteja presente, Elaine. Precisamos que demonstre apoio à união deles. A matilha deve permanecer unida. O coração de Elaine rachou novamente, cada palavra outra fratura. Não só queriam que ela sacrificasse seu companheiro, seu destino dado pela Deusa — queriam que ela ficasse ao lado deles, sorrindo, fingindo celebrar. Queriam que sua humilhação se tornasse seu dever. — Então — Disse ela baixinho, mas com uma ponta afiada no tom —, vocês querem que eu abra mão do meu companheiro, do meu companheiro dado pela Deusa... e que ainda seja grata por isso? — Não foi isso o que eu disse! — Retrucou o Alfa Efrein, frustração piscando em seus olhos. — Não importa — Respondeu Elaine, a voz agora afiada e inflexível — Vocês podem fazer o que quiserem. Eu não importo nesta matilha mesmo. — Não diga isso, irmã — Implorou Kathy, lágrimas escorrendo livremente por suas bochechas — Isso não é verdade. Elaine riu amargamente, um som oco que gelou o quarto. — Irmã, por favor — Tentou Kathy novamente, dando um passo à frente — Nós te amamos. Sabemos que você está sofrendo, mas todos temos que fazer o que é certo para a matilha. Eu nunca quis ser a causa da sua dor. Eu nunca quis isso, Elaine. Mas por favor, por favor, entenda. Ela estendeu a mão, tentando segurar a de Elaine, a voz se partindo ao sussurrar: — Por favor. Mas Elaine recuou, arrancando a mão como se o toque da irmã fosse fogo. A mesma irmã que outrora idolatrara, estimara, amara além da conta — Agora era a fonte de sua mais profunda agonia. E Elaine não suportava. Sua voz era firme, final. — Preciso pensar. Preciso ficar longe de todos vocês. Ela virou-se nos calcanhares, ignorando o coro de vozes que chamavam seu nome, os gritos desesperados de sua família tentando alcançá-la. Suas palavras, suas desculpas, suas súplicas. Nada mais importava. Ela os excluiu, selou seu coração e, com um último ato de desafio, bateu a porta de sua mente. No momento em que tentaram alcançá-la pelo elo mental, ela bloqueou todos eles. Pela primeira vez na vida, Elaine estava verdadeiramente sozinha.
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