Elaine correu, correu como se o próprio ar ao seu redor a sufocasse, como se as paredes de seu mundo estivessem desabando. Ela não se importava para onde seus pés a levavam. Só sabia que precisava escapar. Longe das vozes deles, longe das justificativas, longe da traição que destruíra tudo em que ela acreditava.
Seus pulmões ardiam, o peito arfava, mas ela não parou até que o som familiar de água correndo chegasse aos seus ouvidos.
Seu santuário.
A cachoeira se erguia alta e indomada perto da fronteira do território, seu rugido constante afogando o barulho do mundo. Era seu lugar seguro, o único canto das terras da matilha onde ninguém a seguia, ninguém exigia, ninguém julgava.
Ela cambaleou em direção a ela, os joelhos finalmente cedendo enquanto desabava na terra úmida. Suas mãos cravaram-se no solo, o corpo tremendo violentamente, e, por fim, ela deixou sair.
Um grito cru e partido rasgou sua garganta, ecoando pelas rochas e misturando-se ao trovão das quedas.
Ela gritou novamente, mais alto, até a voz falhar, até parecer que o próprio som poderia rasgá-la ao meio.
Lágrimas que contivera naquele quarto sufocante agora corriam livres, incontroláveis, escorrendo por suas bochechas com a mesma impiedade da cachoeira diante dela. A água correndo tornou-se a única testemunha de sua dor, sua cascata interminável espelhando a dor sem fim em seu coração.
Ela chorou por tudo o que perdera.
Chorou pela família. Pelo laço que sempre a definira, pela proteção do pai que um dia prometera mantê-la em segurança, pelo calor da mãe que costumava ser seu consolo, e pelo amor incondicional da irmã que sempre fora sua melhor amiga. Aquele laço se fora, foi cortado de forma limpa e sem piedade. O que restava era apenas traição, dever falado em vozes frias, e a constatação de que sua família escolhera a matilha em vez dela.
Chorou por Michael — seu companheiro. O homem que deveria ser seu para sempre, seu parceiro, sua outra metade dada pela própria Deusa. Chorou pelo futuro roubado que um dia ousara sonhar: a companhia, a parceria, as noites de risadas, e os filhotes que imaginara que criariam juntos.
Tudo isso, arrancado antes mesmo de poder começar.
Sua loba uivava dentro dela, gemendo de agonia, lamentando o companheiro em uma voz que ressoava profundo até seus ossos. O som era tão perfurante que quase a colocou de joelhos outra vez.
— Ele não nos abandonou — Sussurrou sua loba desesperadamente — O lobo dele ainda nos quer. Foi Michael quem escolheu isso, não o lobo dele.
Mas as palavras não traziam consolo. Apenas aprofundavam a ferida. Se fora Michael, o homem, o líder, quem fizera a escolha, então significava que ele a olhara e decidira que ela não era suficiente. Nem mesmo valia a pena lutar por ela.
Ela se lembrou da noite anterior. Do fogo nos olhos dele quando descobriram que eram companheiros, do calor do toque, da forma como seus corpos se encaixaram como se fossem feitos um para o outro. Por um momento, ela acreditara nisso, neles.
Mas agora entendia a verdade. Era por isso que ele não a marcara. Era por isso que se contivera, por isso algo parecer restrito mesmo na paixão deles.
Ele já escolhera Kathy. Já decidira traí-la.
Um soluço sacudiu seus ombros. Ele não apenas a rejeitara. Ele a usara. Usara seu corpo, seu coração, sua confiança, sabendo muito bem que não tinha intenção de ficar. Ela lhe dera tudo, e ainda assim não fora suficiente.
E o pior de tudo, todos naquele quarto concordaram.
Seu pai. Sua mãe. Sua irmã. O Alfa. A Luna. Todos ficaram em silêncio, justificando, como se sua dor fosse um preço justo pelo bem da matilha.
Seu peito arfava, a respiração vindo em golfadas rasas e irregulares. Ela se curvou para a frente, abraçando a barriga como se pudesse fisicamente se manter inteira, como se seu corpo pudesse se desfazer completamente se ela soltasse.
Mas devagar — muito devagar — as lágrimas começaram a secar. A cachoeira ainda rugia, constante e indiferente, como se a lembrasse de que o mundo não pararia por sua dor. A noite se aprofundava ao seu redor, estrelas começando a brilhar fracamente acima das árvores.
Ela se forçou a sentar mais ereta, embora o corpo ainda tremesse. Não podia ficar ali, afogando-se na dor. Se permanecesse na casa da matilha, cercada pelas mentiras e traição deles, murcharia. Quebraria além do conserto.
Não, ela precisava de um plano.
Sua mente começou a girar, trêmula no início, mas com determinação crescente. Não podia viver mais um dia sob o mesmo teto que a família do Beta. Cada olhar, cada palavra sussurrada a sufocaria ainda mais. Não podia assistir Michael desfilando com sua irmã, fingindo que nada acontecera.
Ela não sobreviveria a isso.
Mas não podia deixar a matilha por completo. Ainda não. Não até depois da cerimônia de acasalamento. Eles a obrigariam a comparecer. Ela sabia, e se desaparecesse antes, eles a caçariam. Mas depois... depois ela poderia partir, e nunca mais voltaria.
Não havia mais ninguém ali por quem valesse a pena ficar.
Sua mente vagou para um lugar que ouvira falar uma vez, uma estrutura meio esquecida na extremidade distante da fronteira. Uma casa onde lobos aguardando punição costumavam ser mantidos, abandonada agora, suas paredes entregues à natureza. Ninguém ia mais lá. Era para onde ela iria.
Um mês. Era tudo o que precisava suportar. Um mês escondida, sozinha, longe dos olhos daqueles que a traíram.
Lá, não precisaria colar um sorriso no rosto, não precisaria engolir a dor. Poderia ser ela mesma. Quebrada. Raivosa. Livre. A única vez que precisaria fingir seria quando o Alfa convocasse sua presença. Faria essas aparições mínimas, as suportaria em silêncio, e depois desapareceria novamente.
Mas isso exigiria preparação. Teria que renunciar ao cargo de secretária do Beta. O pensamento doía. Era o único papel que um dia a fizera sentir-se útil, importante. Mas não podia mais servi-los, não depois do que fizeram.
Horas se passaram enquanto ela permanecia sentada em seu santuário, o ritmo infinito da cachoeira ancorando-a enquanto juntava os fragmentos de seu plano. Só quando a lua estava alta e a noite espessa ao seu redor é que percebeu quanto tempo se passara.
O mundo estava quieto agora, exceto pela água e pelo sussurro fraco do vento nas árvores.
Pelo vínculo, ela sentia a pressão fraca das vozes de sua família. Beta Richard, sua mãe Lucille, até Kathy, todos tentando alcançá-la, perguntando se ela estava segura. Mas sua mente estava trancada, selada.
Ela não os deixaria entrar.
Não naquela noite.
Aquela noite era para o luto. Aquela noite era para sua dor.
Amanhã... amanhã ela seria mais forte.