Outros tempos

2014 Palavras
Acompanhando Belisário, Zoe, Angélica e Débora, posso afirmar com toda a certeza que aquilo que nós não falamos, inflama por dentro. Isso é muito real, pois às vezes, ou quase sempre, o que eles engolem, machuca muito. Muitas das vezes é somente para não terminar em brigas ou simplesmente para não começar uma. Tudo isso para ao final do dia, eles serem o que choram sozinhos enquanto tudo se repete em suas cabeças. O clima melancólico que as nuvens cinzas, a chuva forte e o cheiro da terra molhada, criaram para este clímax, realmente era surreal e combinava exatamente com o momento. Aliás, creio que a chuva combina com tudo, desde um beijo apaixonado, um reencontro inesperado ou até mesmo um término desesperado. – Amor, de coração? Eu tenho um milhão de coisas para te falar, acredite, mas conversar de cabeça quente não nos levará a lugar nenhum, certo? – leu Belisário. – Se você quiser, eu posso fazer um café e a gent... – Zoe, descontente com a situação m*l terminou de ouvir o áudio convertido de seu namorado. Ela realmente estava muito decepcionada com ele. Zoe apenas deu pause e voltou a lhe encarar. – Notei que você não escutou tudo, sei que parece besteira, e que você chegou no meio da briga, mas eu realmente não te trai. – escutou Zoe. Ela o encarou novamente e gravou o áudio enquanto ele lhe olhava. A tensão para Belisário era pior, pois o telefone tampava completamente a boca, logo, ele não sabia sobre o que ela falava. Zoe finalizou a gravação e se retirou para o quarto, largando assim, a bomba emocional no colo de seu namorado. – Quero um tempo, porque por mais que você não tenha me traído, coisa que eu realmente não sei se acredito, você mentiu para mim e foi de encontra à uma garota que jamais mencionou conhecer. Eu estou decepcionada com você. – leu Belisário. Nosso protagonista ficou sem chão, jamais pensou que fosse reencontrar com Angélica e terminar com Zoe no mesmo dia. Aquilo era realmente assustador e novo para ele. "Se bem que não é um término, é um tempo". – sua mente bem que tentou lhe ajudar. No quarto, Zoe apanhou o colar de identificação de Belisário e jogou na cama enquanto ele entrava no quarto para arrumar a pouca roupa que tem numa mochila que ele mesmo trouxe. "Sinceramente? Não, porque por mais que eu esteja chateada com ele, parte mim, só quer ficar, alcançar tua boca com um olhar, ler frases inteiras, sentir, beijar e amar. Por mim, mil vezes eu escolheria o Belisário, mas quebrar a confiança dessa maneira é algo que eu não consigo perdoar". – pensou Zoe, imaginativa que só. "Devo confessar pelo menos para mim que eu realmente agi de má fé, mas a amo, não posso deixar que acabe assim". – pensou Belisário visivelmente balançado com tudo. Assim que arrumou as coisas, ele enviou uma mensagem para Zoe que entendeu como um sinal de despedida. Ela saiu do quarto e caminhou até a porta. Belisário, logo atrás, enviou outra mensagem para chamar sua atenção. – Mesmo que estejamos num tempo, ainda tenho obrigação de te ajudar com o livro, tudo bem? – escutou Zoe. – Ok, amanhã você vem junto com a Lilian. – leu Belisário. – Fique tranquila, isso vai passar e você irá ganhar ok? – escutou. – Estou um pouco insegura, mas sei que posso vencer. – leu. – Acredite mais em si mesma, você está pronta, comece a fazer. – reconfortou Belisário. – Eu sei, eu sempre a venci, não perderei agora. – Belisário notou certa arrogância em Zoe. – Não é demagogia ou um pedido solitário de um namorado que quer voltar. Eu realmente acredito que você pode ganhar da Angélica de mãos amarradas. Afinal de contas, você sempre ganhou, não é mesmo? Porque iria perder logo agora. – Zoe escutou a resposta de Belisário, mas replicou com um deboche. – Eu sei, eu posso vencer a Angélica até de olhos vendados. O sarcasmo do humor n***o dela selou a despedida dos dois. Vamos deixar o casal de pombinhos arrumarem suas coisas enquanto acompanharemos outro casal, digo; amigos que acabam de se conhecer. Mas antes, quero fazer apenas uma pequena ressalva. Não há dúvidas de que o Rio de Janeiro é um lugar interessante tanto para casais apaixonados quanto para amigos que acabaram de se conhecer, mas pode se tornar incrivelmente perigoso se você foi assaltada ou se você foi resgatada por um estranho na rua. Como bom carioca, se eu pudesse lhe dar um conselho com certeza seria para não andar com uma bolsa cheia de dinheiro por ai como a Luciana fez, ou então, afrontar perigosamente um trombadinha como o Miguel fez. Mas principalmente e acima de tudo, você definitivamente não pode acompanhar um estranho que te salvou de um trombadinha. Ainda mais se ele for alto, grande, forte e perigoso, se tiver uma tatuagem grande que começa no pescoço e termina no braço, pior ainda. Eu sei que isso é completamente escroto da minha parte e completamente preconceituoso, mas Luciana tinha definitivamente tudo para não acompanhar Miguel, mas ainda assim o fez. – Garota? – Oi? Sim? – respondeu Luciana assustada. – Se acalma, eu não vou te morder. – brincou. – Ainda bem, né? – revidou. – O que? – Miguel encarou com um olhar agressivo. – Não.. É... Nada, o que iria dizer? – Eu preciso pedir quinze minutinhos de dispensa do trabalho para poder te levar até o lugar, tudo bem? – Não querido, tudo bem, não quero te atrapalhar. Eu realmente não tenho pressa, só preciso de um lugar seguro para dormir e poder escrever, ok? "Porque eu chamei ele de querido?" – pensou Luciana. "Escrever?" – pensou Miguel. Não vou ficar me referenciando Miguel como herói, ok? Por que, afinal, isso é algo que ele não é, mas envolvê-lo num arco vilanesco ou assumir o papel de um antagonista, ele também não irá se enfiar. Portanto, chamarei apenas de anti-herói, certo? Seguimos! Nosso odiável anti-herói, hoje em dia trabalha num mercado frigorífico local e com certeza eu não preciso te dizer que ele ainda tem a Marcely rodeando não tão somente os seus pensamentos quanto a sua vida, e que realmente ainda não conseguiu tirar do coração o seu sentimento para com Zoe. Miguel caminhou para dentro do Mercado para falar com seu chefe e deixou Luciana na porta, agora, um pouco mais aliviada com a situação. "Mas que m***a que eu tô fazendo aqui? Eu não acredito que eu segui um cara suspeito que desconheço, e pior, vou parar num lugar ainda pior com esse rapaz". – imaginou Luciana. – Eu vou é embora daqui. – sussurrou consigo mesma. – Voltei! – disse Miguel. "d***a". – pensou ela. – Ok... Mas... Para onde nós iremos então? – Por aqui. – sinalizou Miguel apontando para uma rua à esquerda. Enquanto os dois andavam, Luciana notou que todo mundo parecia conhecer Miguel e que ele não lhe oferecia m*l, mas Judas também era assim, certo? – Você sabe o que é uma Quitinete? – Claro que eu sei, né? Lá em Pernambuco têm várias! – Por aqui. – Miguel apontou para uma viela apertada. Luciana, corajosa, foi atrás. – Então, você não é daqui, não deveria andar por aí com essa sacola de dinheiro, sabe? É só uma dica. "Como ele notou?" – questionou-se. – Mas e a quitinete? Cadê? – respondeu Luciana. Rapidamente e meio que do nada, um jovem adolescente surgiu por trás dela. O rapaz balançou a cabeça para Miguel, parecia conhecê-lo bem, nosso anti-herói repetiu o gesto. Luciana ficou aflita. "Cai numa armadilha". – Se você já percebeu, eu não estou te levando bem para uma quitinete. – É mesmo é? – Luciana estava se borrando de medo ao dar passos firmes em diante. – Falei que era uma quitinete para você se interessar e me seguir até aqui. "É, estou perdida". – imaginou. – Olha, eu não quero problema cara, tudo bem? – O que? Como assim? – Miguel não estava entendendo o que estava acontecendo. – Pode levar tudo, só não faça nada comigo, por favor! – suplicou Luciana. Dava pra notar a lágrima dançando em sua bochecha e cair pelo seu pescoço. Mas antes que Miguel ou o jovem rapaz atrás dela pudessem fazer algo, Luciana notou a estrutura que estava se formando em sua vista. – O que é isso? O que vão fazer comigo? – questionou Luciana. – Aqui é um cortiço. – respondeu. – E existe um cortiço no Rio de Janeiro? Caso não saiba, Cortiço é a denominação dada, no Brasil e em Portugal, para uma casa cujos cômodos são alugados, servindo cada um deles como habitação para uma família, possuindo instalações sanitárias um tanto comuns. – Não falo que é um cortiço, pois isso tende a afastar as pessoas. – Entendo. – Mas eu recebo dias de graça por aqui se arrumar mais inquilinos, então, se você quiser me ajudar e ao mesmo tempo, ter um lugar para dormir por alguns dias até o fim da Bienal, acho que aqui é o lugar certo. Antes que pudesse responder, Luciana passou os olhos no quintal e viu uma das maiores combinações criadas no município do Rio de Janeiro. Falo de duas uniões simplesmente fantásticas, o Cortiço de Quintal e o Hotel Cortiço. Pois enquanto o lugar ocupa o centro de um quarteirão com acesso através de um pequeno corredor. De frente para a rua, ao lado do portão de entrada, tendo um prédio de uso comercial. Este cortiço, durante o dia, também é usado como restaurante e à noite, como dormitório. É um lugar esteticamente estranho, mas essa é a sua configuração mais comum de cortiço, ou seja, trata-se de uma habitação coletiva formada por uma série de cômodos distribuídos ao longo de um corredor ou em volta de um pátio. Neste caso, na narrativa, Miguel lhe convidou para morar nesse Cortiço que durante o dia é uma pensão e todos os inquilinos têm seus afazeres pessoais como trabalho, bico, e etc. Logo, a dona do lugar, tem mais tempo e espaço para trabalhar. – Sabe o melhor disso? – questionou Miguel. – O que? – São apenas cinco reais por dia, pagos toda a noite, antes das dez horas da noite. – SÉRIO? – Bom, eu sei que esse inda é caro, mas aqui tem esgoto e água quente, a luz cai às vezes, mas funciona. – NOSSA! – O que foi? Não quer? – desconfiou. – Pelo contrário, isso é perfeito para mim. Se tem um quarto, cama com água e segurança, eu fico. – Achei que reclamaria da luz. – comentou. – Sei que parece meio absurdo, estamos em pleno dois mil e dezenove, mas no Sertão de Pernambuco, de onde venho, no caso, o vilarejo do Geraldo, que fica na Zona Rural de Salgueiro, nós ainda vivemos sem energia elétrica em casa. – Sério? – Sim, as residências ficam a uns cem metros de uma rede de elétrica, mas mesmo com a proximidade, não possuímos acesso ainda à eletricidade e ao uso de tecnologia. – E como veio parar aqui? – É uma longa história parceiro, longa história. – sorriu. Os três saíram da pequena viela e o jovem que cumprimentou Miguel correu para uma porta mais à direita do cortiço. – Como sabe que vim para a Bienal? – Você não mencionou que precisa escrever? – Sim. – Acho que está finalizando algo grande e quer publicar na Bienal, correto? – Sim! – respondeu entusiasmada. – Pode parecer ridículo, mas eu costumava ser um revisor, se precisar da minha aj... – Luciana m*l esperou que Miguel pudesse completar a frase e o interrompeu. – É CLARO QUE EU ACEITO! – Não será de graça, você sabe, né? – Não tem problema, eu preciso de ajuda! Miguel coçou a cabeça e encarou aquela nova oportunidade com entusiasmo. Parece que outra dupla poderosa está se formando para a premiação da Bienal.
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