Inquietude Angustiante

2004 Palavras
A chuva ainda que moderada, deu sua pequena trégua de dez minutos com o tempo fechado e ameaçando desabar por muito mais tempo. A rua do condomínio de Dona Antônia é íngreme e a água tende a escorrer mais rápido o que coloca sua subida a pé ainda mais difícil. Quem parece não ligar pra isso, certamente é Zoe que ousou enfrentar aquela perigosa subida de frente, bem como Belisário que optou por correr atrás dela por livre e espontânea vontade. Zoe apenas encarou a situação e os outros personagens desta trama e subiu. Belisário passou os olhos em Débora e olhou para Antônia que apenas balançou a cabeça positivamente e correu atrás dela. — Não vai fazer nada? — questionou Débora. — Vou desfazer as compras enquanto você prepara o nosso jantar. — Tô falando em relação a eles dois! — exclamou. Antônia a encarou com sua sobrancelha chamativa. Aquilo realmente a incomodava, mas fazer o que? Ela teve de aceitar da pior maneira que seu filho era um adulto e deveria resolver seus próprios problemas à sua maneira. Mesmo que ela estivesse descontente, era o que seu filho queria e não ela. — Vou dedicar parte da minha noite em deslocar alguém para ajudar Zoe no que for necessário, esta é uma briga que eu não posso perder e que ela definitivamente quer ganhar. — rebateu. — Mas eu estou me referindo ao Belisário que está subindo na chuva atrás daquela cega! Dona Antônia voltou a vê-la com os maus olhos de sempre. — Ele tem sua vida agora, não faz bem que eu me intrometa em suas decisões, ele é adulto agora, só posso rodeá-lo com meu amor enquanto rezo por sua felicidade. Débora engoliu a seco, não esperava essa atitude de Dona Antônia. Ela sempre foi superprotetora e achava que seu filho era incapaz de tudo, essa, sem dúvida alguma, era uma mudança e tanto em sua vida. Mas longe delas, um pequeno conflito começava a acontecer. — ZOE VOLTA AQUI! — essa era a expressão que Belisário fazia com seu rosto. Para ser bem sincero, ela bem que está dando uma sorte danada, pois pra uma cega, Zoe está conseguindo caminhar sem pisar em nada, torcer o pé ou cair devido ao chão escorregadio. Eu aposto tudo o que você quiser que se ele pudesse falar, certamente seria desse modo que agiria. "Onde eu estava com a cabeça? Porque agi dessa forma? E porque a Angélica disse aquilo?" — nosso protagonista claramente ainda não entende a maldade do mundo. Mas Zoe, ciente de que o mundo não tão somente é um lugar h******l e sombria, sabe que a escuridão é ainda pior quando se está desacompanhada. "Eu sabia que não podia confiar em alguém, deveria ter ficado reclusa naquele dia, vendido tudo e entrado numa casa de repouso". — imaginou. O casal mais impensável possível, verdadeiramente estava vivendo dias tranquilos onde o amor e o trabalho agiam e falavam por si só, mas como será que vão passar pela primeira tempestade deste caos que chamamos de: "relacionamento?" Zoe deu uma derrapada com a bengala, mas seu corpo conseguiu se firmar. Belisário, tentava se aproximar com rapidez, mas estava escorregando mais do que ela. O fato dele estar de chinelo e ela de tênis, tem colaborado um pouco com a distância que se estabeleceu entre eles, mas o simples fato dela ser cega e ele enxergar, piora para o nosso herói que ainda assim, está perdendo essa corrida. "Como pude ser tão tola a ponta de acreditar que poderia ser feliz assim?" — os pensamentos de Zoe só puderam ser interrompidos pela queda repentina de seu corpo ao torcer o pé esquerdo e deixar a bengala entortar ao forçá-la contra o chão. Felizmente, estamos num romance, e Belisário, por conta do roteiro milagroso, conseguiu chegar a tempo e pegá-la em seus braços molhados de chuva gelada. Nenhum dos dois havia trago um guarda-chuva, pois ele deu um pulo rápido na rua enquanto ela, esperava encontrá-lo em sua mãe e retornar para seu apartamento. Mas a vida não segue segundo o que queremos, não é mesmo? Infelizmente, mesmo que quisessem, a dupla não podia se comunicar no meio da rua com a chuva fina que caia e a tempestade que se aproximava. Os dois levam tempo demais para escrever ou falar, converter e responder. Se a falta de comunicação já é um m*l terrível para quem não possui qualquer tipo de deficiência, imagina para eles à essa altura do campeonato? O primeiro ato de Zoe foi certificar-se de que Belisário estava lhe encarando. Ela rapidamente colocou a mão em seu rosto e disse. — Vamos para o apartamento primeiro, temos muito o que conversar, ok? Belisário fez o famoso sinal de 'ok'. É aqui que o final do ato um do capítulo começa, e com ele, a inquietude angustiante do casal. Em poucos segundos, Belisário pediu o Uber. Mas os longos e silenciosos minutos constrangedores que se sucederam até a chegada do Uber. Porém, no momento em que chegou e eles entraram, o silêncio era ainda pior. Zoe m*l olhou na cara de Belisário tentava não encontrar-se com os olhos dela. Aquilo era simplesmente desesperador e impensável à algumas horas atrás. O casal que tanto se amava, agora estava se evitando e conspirando contra si mesmo em seus pensamentos. "Eu me permiti e me enganei com Belisário, infelizmente, ninguém deveria ser tão magoado a ponto de ter medo de amar alguém de novo". – pensou Zoe vendo o tempo passar virada para o seu lado da porta no banco de trás. "Infelizmente, eu acabei me apaixonando pela Zoe do mesmo jeito que eu caio no sono: gradativamente e de uma hora para a outra". – pensou Belisário contemplando a rua do lado de fora virado para o seu lado da porta no banco de trás. Em pouquíssimos minutos, o Uber chegou até o apartamento de Zoe, onde como sempre, o cartão de Belisário já estava cadastrado e pagou a viagem. O casal entrou em silêncio, pegou o elevador em quietude e permaneceu em constante repouso até entrarem no apartamento, mas o que aconteceu depois disso? Só saberemos depois. Um pouco distante dessa confusão conjugal, estava Sr. Gonçalves e Angélica, nossa dupla de antagonistas gananciosos. — Porque veio até aqui? — questionou Gonçalves. — Ele é meio que um ex-quase namorado. — E isso existe? Angélica riu. — Eu sabia que vocês se conheciam, mas não pensei que você tinha um romance sério com o filho da CEO da Bienal. — Ela me rejeitou dez vezes, sabia? — Como assim? — Antônia dizia que minha escrita era fraca, eu não era bom com estrutura e pior ainda nos diálogos. — Nossa! — Gonçalves se mostrou surpreso. — E eu era mesmo. — brincou. — Então porque da raiva? — É porque na verdade, eu nunca vou saber se ela estava me julgando imparcialmente ou com o tempero a mais de ver como possível namorada de seu filho, e por isso, me rejeitava. — Faz sentido. — concluiu. O Taxi Executivo percorreu mais algumas ruas, já estava indo longe do Hotel em que estavam hospedados. — Para onde iremos? — Para o Riocentro. — respondeu Gonçalves. — Eu nunca fui. — Conhecerá de perto. Os dois fogem de abordar o fato curioso de Zoe namorar Belisário, filho da CEO da Bienal, o assunto ainda não veio à tona, mas ainda não será tocado no momento. É com esse pequeno impasse que devemos retornar à outro núcleo importante para nossa obra. Estamos à poucos dias da Bienal e as imprensas não param, os dedos digitam e a roda gigante da engrenagem da vida está se mantendo em movimento. É na reta final que quem não desiste se consagra campeão. Poucos sabem, mas o deus do destino gosta de pregar suas coincidências nada sutis, pois no exato momento em que o Taxi Executivo de Angélica parou no sinal com o Sr. Gonçalves mostrando para ela o Riocentro, quem atravessava o sinal, era Luciana, nova outra h*****a. Contudo, algo ainda mais chamativo roubou a atenção de Angélica, pois um assalto acabava de acontecer. Um trombadinha que existe aos montes no Rio de Janeiro, havia acabado de roubar a mochila de um pedestre. — Nossa, ala, vamos fazer alguma coisa. — reclamou Angélica. Sr. Gonçalves riu. — Nós não estamos na Europa mocinha, está vendo? Esse é o meu medo ao vê-la andando por aqui, as ruas desta cidade não foram feitas para você. — Isso é muito revoltante para mim. — comentou. O semblante de Angélica caiu em tristeza, mas imagina só como estava o semblante de Luciana? Afinal, ela foi a pedestre roubada! Luciana havia entrado numa corrida com o trombadinha que corria demais. — Assalto. Me ajudem. Socorro! — quanto mais Luciana aos quatro cantos, mais sentimos aquela sensação de impunidade. Logo, Luciana percebeu que não receberia auxílio de ninguém, e em poucos minutos correndo atrás de sua mochila, suas pernas começam a falhar e sua respiração passa a ficar mais ofegante. "Estou perdendo essa guerra". — pensou. Em pouco tempo, a distância entre os dois aumentou e ele conseguiu virar uma esquina apressadamente. "Meu sonho se foi". — imaginou. Luciana já estava cogitando que jeito agora é dar parte numa delegacia próxima e rezar para conseguir se sustentar. Mas estamos num romance e ela é uma das heroínas, não poderia terminar assim. Ninguém menos do que Miguel, parou o trombadinha. — Você roubou daquela garota ali? — questionou nosso antigo herói apertando o pescoço do garoto. — Foi sim... A esperança volta à brilhar no coração de Luciana. Ela corre de encontro ao seu herói e apanha sua mochila de volta. — Não quero mais vê-lo por aqui de novo, fui claro? — sussurrou Miguel no ouvido do trombadinha. No momento em que soltou, o jovem delinquente bem que tentou gingar para Miguel, chegando a cuspir em Luciana, mas foi só isso. Cão de late, não morde. Ele correu no momento em que Miguel ousou correr. Nosso não querido personagem introduzido agora era o antigo revisor e auxiliar de roteiro da Zoe, bem como seu ex-namorado. Hoje, é um segurança m*l encarado, parece um personagem deslocado de um romance HOT, sempre esbanjando beleza, simpatia e sensualidade com seus longos cabelos loiros jogados sobre uma barba grande com um par de olhos castanhos claros que completam o visual "lumberjack" clássico. Pode não parecer, mas é tão inteligente e talentoso quanto Zoe, mas adotou o novo visual e a tatuagem agressiva que começa em seu pescoço e provavelmente se espalha pelo corpo, mas que felizmente, não conseguimos ver. "Ele me dá mais medo do que o trombadinha". — pensou Luciana. — E você? — Desculpa, eu só estava passando... — Não sabe que o lugar é perigoso para ficar dando mole com essa mochila? A garota sentiu o ataque, ainda estava nervosa e o seu herói se comportava mais como vilão do que o mocinho que salva o dia. — Desculpa, eu devia ter notado que não é daqui. — Como sabe? — perguntou curiosa. — O seu sotaque é arrastado demais, não tem os 'S' e os 'X' que usamos. "Talvez ele não seja tão m*l assim". — imaginou. Coitada. — Eu sou de Pernambuco, me chama Luciana, prazer. — Me chamo Miguel, sou daqui, trabalho ali e estou sempre por aqui. — Como o anjo? — Estou mais para o traidor. — brincou. Luciana não entendeu muito a piada, mas sorriu. — Está bem? — completou. — Sim, mas você pode me ajudar numa coisinha? — E em que posso lhes ser útil? — Onde encontro algum lugar para morar aqui? É por pouco tempo, tenho que participar de um evento e preciso de um lugar para dormir e trabalhar. — Por incrível que pareça, eu moro numa quitinete meia-boca por aqui, o dono do lugar deve ter algumas vagas, quer vir? — Sim, por favor. É aqui que outra trama tem início.
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