Capitulo 15

4173 Palavras
A noticia que Shawn espalhou quando amanheceu foi de que eles estavam realmente viajando, no litoral, quando Camila começou a se sentir m*l. Resolveram voltar pra Nova York, e assim que voltaram ela teve o ataque. Ele precisava manter a história do casamento normal. Convenceu a todos. Madison apenas o encarava, os olhos duros, enquanto ele contava a história a Karen e Alejandro. Ao terminar de contar ele simplesmente se sentou e deixou cada um tirar suas conclusões. Estava muito calado, desde a madrugada. Camila amanheceu bem melhor. Não era o tipo que ficava no chão muito tempo depois de tropeçar. Já levantara, e assim que os médicos liberassem, voltaria pro "marido". Alejandro: Oh, querida. - Disse, entrando no quarto. Ela sorriu, um sorriso sincero, pra variar - Fiquei tão preocupado quando Shawn ligou! Como você está? - Perguntou, acariciando os cabelos dela. Camila: Estou bem, papai. - Dispensou - Foi só um desmaio, Shawn é super protetor. - Mentiu, mas viu o alivio no rosto do pai. Alejandro: Ele disse que você não vinha se sentindo bem desde o litoral, por isso voltaram. - Disse, segurando a mão dela - O que há? Camila: Foi só um desmaio. - Tranquilizou novamente. Alejandro: Você está se alimentando, Camila? - Perguntou, os olhos severos e preocupados. Ele nunca se recuperara do susto da bulimia dela. Camila: Como uma porca. - Debochou, e ele riu - Não foi nada. Logo vou receber alta. Alejandro: Você não está... Quero dizer, talvez você não possa estar grávida? - Perguntou, e Camila riu gostosamente. Camila: Papai! - Repreendeu - Eu me casei antes de ontem! - Disse, achando graça. Alejandro: Sim, mas vocês vem saindo juntos há quase 6 meses. - Rebateu, e ela sorriu. Alejandro não sabia que Camila jamais superara o trauma em relação a sexo - Ela fizera todo o possível para ele acreditar que ela superara, e funcionou. Na verdade, ela meio que superara. Depois de anos de terapia entendia que, sendo consensual, era bom e as pessoas gostavam. Isso só não se aplicava a ela. Ela tinha nojo só de pensar na possibilidade de alguém tocando-a novamente. Camila: Não estou grávida. O casamento, a mudança de cenário... Foi só exaustão. - Garantiu. - Está tudo bem. Aquele foi um dia de visitas. Bella sondou para ver se não foi Shawn que tentou matá-la, mas não conseguiu nada. Karen veio, preocupada e atenciosa, se certificar de que estava tudo bem. Deu um beijo na testa de Camila, um beijo doce, desejando sua melhora, que deixou a outra sem reação. Ah, sem contar com Greg, que levara um buquê de rosas cor de rosa para ela. Shawn: Sabe que dar em cima da sua cunhada é errado, não sabe? - Perguntou, entrando no quarto quando o menino entregava as flores. Já havia se trocado, se barbeado, estava composto de novo, com uma calça social e uma camisa azul escura. Greg: Você tem mesmo que aparecer o tempo todo? - Perguntou, exasperado, e Camila riu. Shawn: Tenho. Mamãe esta te chamando, vocês já vão embora. - Greg suspirou, frustrado. Greg: Bom, melhoras. - Disse, todo rapazinho. Camila: Ora, venha aqui. - Disse, se esticando, e deu um beijo estralado na bochecha do menino, que corou - Muito obrigada pelas flores. Foi muito galante. - Elogiou. Shawn: Vamos, garoto, ela é minha mulher, dê o fora. - Greg suspirou, e após se despedir, saiu. Sobraram Camila e Shawn no quarto. O silencio foi esmagador. Ela esperou deboche da parte dele pelo que descobrira, ou no mínimo um bombardeio de perguntas, mas ele apenas a encarou. O sentimento de ódio mutuo entre os dois não sumira, só mudara de tom. Shawn: Você está de alta. - Disse, tirando uma maleta do ombro. - Trouxe roupas. Liam vai vir até aqui dar algumas recomendações. Mande me chamar quando estiver pronta. - Disse, duro, e saiu antes de esperar uma resposta. As duas semanas que vieram depois foram um calvário. Shawn não atacou Camila, porém os dois não se falavam, e evitavam estar no mesmo cômodo. Debaixo dos gritos de Liam, ele devolvera os remédios de dormir dela. Não haviam visitas. A paz era tão estranha que Camila quase chorou quando acordou e o viu passando no corredor, falando com alguém no telefone preso a orelha, usando calça social, camisa branca e um colete. Finalmente a maldita lua de mel acabara. Ela se levantou, tomou banho, se trocou, vestindo uma saia lápis cinza e uma camisa branca. Camila: Bella vai embora hoje. - Disse, entrando na cozinha, onde Shawn orientava Gail. A primeira frase nas duas semanas que se passaram - Fiquei de ir com ela ao aeroporto. Qual a senha do elevador? - Perguntou, direta. Camila reparou que a farta mesa de café da manhã não estava lá. Shawn: Você não vai. - Disse, achando graça - A propósito, acabou a mordomia. A partir de hoje, você cozinha. - Gail saiu da cozinha, dando privacidade aos patrões. Camila: Como é que é? - Perguntou, exasperada. Shawn: Qual parte? - Perguntou, passando por ela e atravessando a imensa sala. Nova York rugia lá embaixo, através da parede de vidro. Camila: Gail cozinhou esse tempo todo, porque essa mudança agora? - Perguntou, seguindo-o. Shawn cheirava a sabonete e loção de barbear, além de um perfume masculino particularmente agradável. Shawn: Ora, estávamos em lua de mel. Onde estaria o meu cavalheirismo se eu deixasse você cozinhar? - Perguntou, calçando os sapatos. - A lua de mel acabou, logo o cavalheirismo também. A dispensa está cheia, se vire. - Disse, claro, sumindo dentro do closet. Camila: Eu não sei cozinhar! - Disse, exasperada. Shawn: Problema seu. - Disse, voltando com um terno e uma gravata preta na mão - Não tente subornar Gail, ela está muito bem instruída. E a respeite: Ela não é sua empregada. Nem sua, nem de ninguém. - Camila balançou a cabeça em choque. Parecia que algo maior estava escapando dela. Camila: O que quis dizer com "você não vai"? - Perguntou, observando-o fechar os punhos da camisa. Shawn: Você não vai levar Bella ao aeroporto. - Esclareceu, fechando as abotoaduras de prata com as iniciais dele. Camila: Ok... - Disse, lentamente - Qual é a senha do elevador? - Perguntou, lentamente. Ele sorriu, deliciado. Shawn: Você entendeu, não é? - Perguntou, vestindo o terno. Camila m*l podia acreditar. Já havia checado: As saídas de emergência e dos empregados estavam trancadas a chave, e ela não fazia idéia de onde estas estavam. A única saída dali era o elevador, que só atendia perante a senha. Shawn se deliciou ao ver a expressão de pânico no rosto dela. Camila: Você não pode me manter presa aqui! - Guinchou, subitamente se sentindo sufocada. Shawn: Na verdade, posso. - Disse, sorrindo, com o queixo pra cima enquanto dava o nó na gravata. - Você concordou. Camila: É claro que não concordei! - Quase gritou. Aquele homem era louco! Shawn: Está no contrato. Você teve uma crise histérica ao passar pelo item que dizia que você ia cozinhar, e depois simplesmente assinou o papel sem ler o resto. - Explicou, falsamente paciente, parado em frente ao espelho enorme que havia no fundo do closet dele. Camila o seguiu, em passos lentos - Está no contrato: Você só sai daqui comigo ou com a minha permissão, no momento em que eu quiser. Pegue sua cópia do contrato e cheque, se não acredita em mim, mas de nós dois, não sou eu o mentiroso aqui. - Disse, terminando de se aprontar e saiu do quarto - Tenha um bom dia, querida. - Debochou. Camila o seguiu, sem voz. De repente as paredes, as obras de arte, tudo parecia sufocá-la. Estava presa com por aquele lunático. Shawn apanhou suas chaves no potinho que ficava na mesinha da ante-sala, e deliberadamente discou os números do elevador. Números demais, rápido demais, ela não conseguiu gravar. Shawn: A propósito... - Disse, se virando enquanto o elevador subia - Se você tentar digitar a senha errada três vezes, o elevador desce até o porão, ficando lá até que a chave de segurança seja usada. Cada morador tem uma. A da cobertura fica comigo. - O elevador chegou e ele entrou - Tenha um bom dia. Volto às cinco. Espero ter um jantar razoável me esperando. - Disse, tranquilo, e o elevador se fechou. Camila se amparou na parede do elevador, olhando os números. Jamais adivinharia. Ela escorregou até o chão, se sentando com as mãos na cabeça, tentando pensar em um modo de escapar disso. Pelo visto, a trégua acabara. Entretanto... Shawn: Louis? - Disse, no telefone - Mendes. Preciso de um favor seu. - Disse, ao se sentar em seu escritório - Preciso que você levante o passado da minha esposa. Qualquer coisa é relevante. Desde a infância: Históricos médicos, vizinhos que a conhecessem, qualquer coisa. E tenho urgência. - Louis perguntou mais algumas coisas, Shawn respondeu e logo o telefonema acabou. Quem procura, acha. Vamos ver se nessa guerra desmedida, Shawn vai gostar do que vai encontrar. ** Camila tentou não entrar em pânico. Foi ate a dispensa, abrindo-a, e havia comida a perder de vista. Ela não sabia fazer nada. Foi então que viu Gail passando, tranquila, em direção ao quarto de Shawn, com um saco da lavanderia na mão. Camila disparou atrás, mas a fidelidade da governanta era clara. Ela tinha lá seus 50 anos, cabelos acobreados, vestindo uma camisa branca, social, calça de linho e tamancos de salto baixinho, os cabelos presos em um coque. Camila primeiro tentou fazer ela cozinhar, depois apelou por ajuda, mas as ordens de Shawn foram claras: Nada de dar a senha do elevador, e ficar distante quando Camila tentasse cozinhar. Camila: Ok, eu estou implorando. - Disse, abrindo os braços em frente à porta. O quarto de Shawn, diferente do de Camila que era neutro, tinha personalidade. A porta do closet era preta, os lençóis eram brancos e grafite, enfim, tudo muito masculino. A cara dele. Gail: Senhora Mendes, não posso ajudar. Perdoe. - Disse, sem jeito. Camila: Eu pago a você o dobro do que ele estiver pagando. - Gail sorriu. Gail: Não é por dinheiro. Eu cuido do menino Shawn desde que ele veio pra cá, logo após perder o pai. Quando se tornou independente, me trouxe pra cá com ele. É como um filho. - Disse, andando pelo corredor. Camila: Pois ele vai passar fome. - Anunciou, derrotada - Juro por Deus. Gail: Olhe. - Disse, parecendo em conflito. Camila se empertigou - Massa nunca é uma idéia r**m. Há carne na geladeira. - Disse, quieta, então deu as costas, saindo. Seria cômico se não fosse trágico. Os bifes estavam prontos, mas Camila não os temperou - Levou ao fogo e terminou queimando. Em um momento uma labareda subiu pelo fogão, o que fez ela gritar, correndo na direção oposta. Recorreu à massa, tentando fazer uma macarronada, mas colocou na água fria. O macarrão se juntou de um modo impossível: Foi isso que Shawn encontrou quando chegou. Com um sorriso debochado, ela cortou um quadrado do macarrão, pondo no prato dele e cobrindo com um molho de lata. Shawn sorria. Ela se sentou em seu lado da mesa, evitando olhar seu próprio quadrado de massa. Camila: Bom apetite, querido. - Disse, debochada. Ele cutucou a massa com um garfo, com um sorriso de canto. Shawn: Isso foi o melhor que você conseguiu? - Perguntou, apanhando uma faca de carne e cortando uma fatia da coisa. Camila: Espero que esteja do seu agrado. - Disse, tranquila. Shawn: É uma pena... Eu tive um jantar de negócios antes de vir pra casa. - O sorriso de Camila morreu na hora - Estou farto. Mas por favor, sinta-se a vontade. Shawn e Camila se encararam por um bom tempo, mas ela estava faminta. Só comera bolachas de água e sal o dia todo. Ele observou ela comer a massa, que parecia borrachuda, com um gosto particular de vitória. Camila comeu metade, e não aguentou mais. Teve dor de estomago durante a noite. Nos três dias que se seguiram, foi bem assim, só mudaram os pratos. A fome já era um sentimento permanente nela, sempre presente, nunca saciada totalmente. Havia um piano de cauda, preto, no canto da sala, perto da vidraça. Camila sabia tocar piano porque o pai gostava de ouvir, então pedira pra ter aulas. Agora tocava um lamento triste, de uma peça antiga que ouvira em um musical. Achara que podia vencer essa guerra, mas se sentia perdendo logo a inicio. O som do elevador tocou e ela olhou, pra ver Madison entrando no apartamento. Parecia vir de um shopping, tinha varias sacolas na mão. Madison: Olá. - Disse, sorrindo, e Camila sorriu de volta. Madison era a única Mendes que simpatizava com ela. Camila: Olá. - Disse, sem entender a visita. Ninguém nunca a visitava. Madison: Estou sem jeito... Mas tudo bem. Preciso de um vestido. - Disse, meio encabulada, e Camila franziu o cenho. Madison não tinha o mesmo corpo que ela, era um pouco mais alta. Camila: Um vestido. - Repetiu, olhando as varias sacolas de grife nos braços de Madison. Madison: Vou a um coquetel com Niall hoje e não encontrei nada que servisse. - Admitiu, mas os olhos estavam duros em Camila, como se quisessem dizer algo - Sophia é mais magra que eu. Deixei pra ultima hora e estou com o problema. Sei que não nos conhecemos direito, mas... - Ela deu de ombros. Camila: Certo... - O piano parou - Meu closet... Eu não sei, eu não vi direito ainda, mas você pode olhar. - Disse, sem entender. Camila acompanhou Madison, confusa, até seu quarto. A outra rosnou ao ver que a porta fora removida do portal. Era uma afronta clara. Uma vez dentro do closet, ela fechou a porta, trancando-a, e sua expressão mudou. Madison: Não tem câmeras dentro dos closets, parte do projeto do prédio foi meu. - Explicou - Niall me mataria... - Murmurou, colocando o cabelo atrás da orelha e se ajoelhou, abrindo as sacolas de grife que tinha na mão. Não eram roupas: Era comida. Comida de verdade, de restaurantes. Camila não podia expressar o choque ao ver aquilo. Havia um kit do Mc Donalds, uma embalagem de um restaurante caro, entre outras coisas que Camila não conseguia identificar. Madison olhou pra cima, vendo a outra estagnada. Madison: Não vai me entregar, não é? - Parou, subitamente hesitante - Camila, Niall vai acabar comigo se souber que eu estou me metendo nisso. Camila: Porque está me ajudando? - Perguntou, mortificada. Suas mãos tremiam de vontade. O perfume de comida inundara o closet. Madison: Aaliyah sabe de tudo o que acontece aqui. Ouvi ela conversando com Sophia. Não interprete Soph m*l, foi dela a idéia. - Disse, apontando as sacolas de grife. Camila: Você não me odeia? - Perguntou, a boca cheia d‟água. Seu estomago doía. Madison: Odiei pelo que fez com ele. Mas Shawn está fora de si. - Disse, desembalando mais e mais pacotes - Esses dois você pode comer agora, ainda estão quentes, mas não posso trazer comida que não pode ser armazenada. Shawn descobriria e Niall torceria meu pescoço. - Resumiu. - Ande! Camila se sentou ao lado da outra, apanhando uma das embalagens, com garfos de plástico. Era ravióli com um molho maravilhoso - Camila adorava ravióli. Gemeu de satisfação, atacando o prato, e Madison não ligou, compenetrada. Camila sempre mantivera sua dieta na linha, mas hoje era impossível. Acabou o primeiro prato e atacou o Mc Donalds, se deliciando com o sanduíche e as batatinhas e o refrigerante. No final seu corpo parecia mole, relaxado, seu estomago satisfeito. Camila: Obrigada. - Disse, sincera. Madison: Eu trouxe mais. - Disse, mostrando outras caixas de inox. - São sanduíches esquentados por pedras quentes , mas não vai durar muito tempo. Falando em pedras quentes, tem um prato que pode te servir de jantar, ou almoço de amanhã. É um bife amanteigado com purê de batatas. Provavelmente, se deixar pra amanhã, estará frio. Desculpe. - Disse, sem jeito - Tem biscoito recheado, salgadinhos, miojo - Tome cuidado ao fazer o miojo, não tem isso na dispensa de Shawn e eu não sei se Gail é confiável. - Disse, terminando de esvaziar as sacolas - Biscoitos de povilho, cereais... Foi tudo o que eu pude reunir com tão pouco tempo. - Se desculpou. - Existem canais de culinária na TV, isso deve ajudar você em algo. É melhor que tentar as cegas. - Camila assentiu. Não tinha pensado nisso. Camila: Não sei dizer o quanto estou agradecida. - Disse, sincera. Madison: Precisamos esconder isso e sair daqui. - Camila assentiu. As duas esconderam em tudo quanto foi canto: Caixas de sapato, debaixo da gaveta de calcinhas, todos os esconderijos eram validos. Por fim Madison parou na fileira incontável de vestidos de Camila e escolheu um Alexander McQueen grafite, mantendo o álibi. Madison: Se importa? - Camila negou, afoita - Ótimo. Devolvo depois. Vamos sair daqui. As duas voltaram pra sala, e Camila pro piano. A melodia era mais suave agora, mais tranquila enquanto as duas conversavam sobre tudo: A faculdade, sobre como conhecera Niall, o casamento. Foi uma manhã agradável. Até o que assunto não foi tão agradável assim. Madison: Liam está preocupado. Outra taquicardia daquela... Ele pode não chegar a tempo. - Disse, parada do outro lado do piano. Camila tocava suavemente. Camila: Posso confiar em você, Madison? - Perguntou, precisando de uma amiga agora mais que nunca, já que Bella fora embora. Madison assentiu. - Shawn vai descobrir de qualquer jeito. - Disse, dando de ombros. Madison: Não precisa falar se não quiser. - Camila hesitou. Camila: Eu nasci em New Orleans. Morava com meu pai e minha mãe, e era uma criança feliz. Até que meu primo por parte da minha mãe, Zayn, veio morar conosco. Os pais dele haviam morrido em um acidente de carro, ele tinha 12 anos. - Disse, quieta - Não vou me prender a detalhes, não gosto de lembrar. Meu pai trabalhava bastante, a empresa estava começando a dar certo e minha mãe estava deslumbrada com sua nova vida, de modo que eu Zayn passávamos bastante tempo em casa. - Ela respirou fundo - Eu fui violentada pela primeira vez quando tinha seis anos de idade. Foi a experiência mais horrível, mais dolorosa que eu já passei na minha vida. Sangrei por semanas, em silencio, com vergonha. Meu corpo não estava pronto para aquilo - Disse, os olhos distantes. Madison: Eu sinto muito. - Disse, escandalizada e penalizada. Camila: Eu era só uma criança, nem sabia o que era sexo ainda. Começou como brincadeiras inocentes, então ele começou a me tocar... Eu não gostei. Não entendi, mas não gostei. Ele disse que brincaríamos de casinha. Isso eu entendia. - Disse, amarga consigo mesma. - Quando aconteceu da primeira vez... Era tanta dor, tanta humilhação, eu tive vergonha. Tive medo de ficar perto dele, mas não havia como evitar. Então veio a segunda, a terceira... Ele mesmo não sabia o que estava fazendo. - Disse, os olhos distantes, em algum lugar longe dali - Me apertava, me machucando, então tateava as cegas, até conseguir forçar a penetração. Tudo o que eu sentia era dor. Quanto mais eu chorava, quando mais eu me debatia, mais ele parecia gostar. - Disse, amarga. Madison: Você não procurou ajuda? - Perguntou, quieta. Camila: É claro. Eu contei pra minha mãe. - Disse, amarga. Madison: Ela não acreditou. - Supôs. Camila: Ah, não, ela acreditou. - Camila sorriu - Mas deu pouca importância. Mesmo eu dizendo o que ele estava fazendo comigo, ela insistia que ele só tentara pôr a mão onde não devia, e que isso era normal na idade dele. Me mandou evitar ele, e tudo ficaria bem. - Disse, amarga - Todos os dias acontecia. A cada vez me machucava mais. Eu não sabia o que fazer. Ela era minha mãe, ela devia me proteger. - Disse, olhando as teclas do piano. Madison: E então... - Encorajou Camila: Aos sete anos eu já tinha tido todas as experiências sexuais possíveis entre duas pessoas. Já havia feito todo tipo de sexo: Vaginal, anal, oral, tudo. Era só dor, e desespero. Eu implorava pra que ele me deixasse em paz, mas não acontecia. - Disse, tocando uma tecla do piano - Foi quando eu resolvi aguentar a vergonha e contar pro meu pai. Madison: Ele não ligou também? Camila: Não consegui contar. Tentei varias vezes, mas sempre travava. Zayn percebeu. - Disse, com um sorriso triste - Envenenou minha cachorra, e disse que colocaria o mesmo veneno no café do meu pai se eu contasse. Eu não podia. - Disse, tocando outra tecla do piano. Madison: Meu Deus... - Disse, sem saber como reagir. Camila: Esse calvário durou cinco anos. - Ela viu Madison recuar, escandalizada - Minha infância foi roubada do modo mais c***l. Meu corpo se desenvolvia, mas eu ainda era uma criança, enquanto ele era um adolescente quase adulto. O corpo dele também se desenvolveu. E mais uma vez era só dor. Em uma das vezes ele me masturbou, me forçando a gozar só pra dizer que eu tinha gostado. E eu me odiei com todas as forças por meu corpo ter respondido daquele jeito, ter respondido a ele. - Disse, quieta. Madison: Sua mãe não interferiu? - Camila riu. Camila: Minha mãe estava ocupada demais sendo a nova socialite da cidade. Esqueceu o assunto. Não reparou que eu estava entrara em depressão, que eu emagrecera, que eu m*l falava. - Disse, quieta - Meu pai reparou, mas eu sempre despistava. Ele quis me levar a um medico, mas eu me neguei. Se ele descobrisse, Zayn o mataria. Madison: Como acabou? Camila: Aos 11 anos, na semana do meu aniversário de 12, eu estava voltando do colégio. Eu m*l olhava as pessoas. Fui atropelada. Acho que o destino se apiedou de mim. - Disse, sorrindo de canto - Foi um atropelamento grave. Tive um breve traumatismo craniano, quebrei uma perna, torci um braço. Os médicos m*l acreditaram ao me examinar: Eu estava grávida. - Ela sorriu. Madison: Grávida? - Perguntou, mais branca que o normal. Camila: Eu ainda não havia menstruado, mas de alguma forma meu corpo achou um modo de atender ao que estava acontecendo, e tive uma espécie de ovulação. Zayn nunca se preocupou com nada, então a gravidez aconteceu. O bebê sobreviveu. - Disse, e Madison ergueu as sobrancelhas - Tinha semanas, era muito fraco, mas sobreviveu. Eu tinha 11 anos e ia ser mãe. Madison: E então? Camila: Meu pai finalmente descobriu. Furioso é pouco perante a reação dele. Estava possesso. - Lembrou - Como se não fosse o suficiente, minha mãe não queria que a gravidez fosse interrompida. - O choque de Madison foi absoluto - Ela não queria que a queixa fosse prestada, que o escândalo caísse sobre a família. Era certo que em algum momento eu abortaria, meu corpo não estava pronto, e ela queria esperar por isso. Não queria denunciar o sobrinho. Madison: Meu Deus. - Murmurou, nocauteada. Camila: Meu pai quase a matou. - Camila riu de leve - Me levou a delegacia, prestou queixa, e eu tive que contar tudo isso aos policiais. Fiz os exames que eles queriam, que confirmaram o abuso de anos. A gravidez foi interrompida. Meu pai pediu o divorcio. Abriu um processo contra Zayn. Infelizmente, de algum modo minha mãe ganhou minha guarda na justiça. - Disse, pondo o cabelo atrás da orelha. Madison: Impossível. - Murmurou. Camila: Eu tinha psicólogo três vezes por semana, usava remédios controlados, mas dentro de casa era como se nada tivesse acontecido. Como se eu tivesse destruído o casamento dela propositalmente. - Disse, achando graça - Eu não consigo dormir sem os remédios. Eles me derrubam e me impedem de sonhar. Toda vez que eu sonho, tudo aquilo volta. - Explicou, e Madison assentiu - Um ano depois eu desenvolvi bulimia. Minha mãe, mais uma vez, negligenciou. Só quando eu fui parar em uma clinica, pele e osso, morrendo, meu pai conseguiu minha guarda definitiva e uma ordem de restrição que obrigava ela a ficar longe de mim. Eu me curei, nós nos mudamos para Nova Jersey, deixando tudo pra trás, eu me tornei uma adolescente intragável, e foi onde eu conheci meu marido. - Disse, amarga - Essa parte da história você conhece. Foi isso. - Encerrou, observando a outra, esperando pela pena. - Quando Shawn me sacudiu, aquela noite, eu me vi outra vez sobre o domínio físico de outra pessoa. É claro que não reagi bem. Madison levou um instante em silencio, então pegou a mão de Camila em cima do piano, apertando-a. Em vez de pena, havia determinação no olhar dela. Camila observou. Madison: Não sei como vou fazer, mas conte comigo. - Disse, em um murmúrio. Certamente haviam escutas na sala - Vou ajudá-la com isso. - Camila assentiu, agradecendo.        
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