Liso Narrando Acordei com a cabeça latejando, o corte ainda pulsava, lembrança viva da explosão do dia anterior. O barulho do despertador da vizinha atravessava a parede fina, junto com o cheiro de café passado. Por um segundo, fiquei ali deitado, encarando o teto descascado do meu quarto, tentando fingir que a invasão não tinha acontecido, que a vida era outra. Mas não dava. No morro, a gente não tem esse luxo de esquecer. Levantei devagar, sentindo o corpo pesado. A invasão tinha sugado minhas forças, mas eu não podia parar. Fiz minha higiene, lavei o rosto com a água gelada que descia pingando da torneira enferrujada e respirei fundo, tentando afastar o gosto metálico de sangue que ainda parecia estar na boca. Fui até o espelho rachado pendurado na parede e tirei o curativo da testa.

