Pressão.

1489 Palavras
Capítulo – pressão " A pressão psicológica é pior do que uma sürra " Marcelo Uma semana depois... Entro no quarto e o silêncio me recebe como uma bofetada. Meu pai não se move. Ele está ali, com o corpo ocupando o leito, mas o espírito parece ter se retirado para algum lugar onde eu não sou convidado a entrar. Ele mantém os olhos fixos no teto, uma tela em branco onde ele projeta a sua decepção, ignorando a minha presença com uma precisão cirúrgica. — Pai? — tento, mas a palavra morre antes de chegar a ele. Aristide não desvia o olhar. Ele não pisca. É uma máscara de gelo, uma barreira de mármore que ele ergueu entre nós dois. A máquina ao lado da cama marca o ritmo do seu coração, o único sinal de que ele ainda me ouve, mas a sua recusa em me olhar dói mais do que qualquer grito que ele pudesse dar. — Eu estou aqui todos os dias — começo, sentindo a irritação subir pela minha garganta como ácido. — Eu cuido da empresa, eu mantenho os negócios rodando, eu honro o sobrenome que o senhor me deu com cada contrato que assino. Mas nada disso importa, não é? O senhor só enxerga o que eu não sou. O senhor quer um herdeiro de comercial de margarina, um homem domesticado com uma mulher fazendo cobranças e filhos puxando a barra da calça. Gesticulo, mas o homem na cama continua sendo uma estátua. — Eu não tenho vocação para ser o que o senhor quer! Eu sou um executivo, sou o sangue novo dessa família, mas não sou um fantoche para ser moldado no seu molde de "homem de família". Nada. Nem um suspiro. Ele continua olhando para o gesso do teto como se eu fosse transparente. — Ótimo. Continue assim, então. Viro as costas, incapaz de suportar aquela frieza por mais um segundo. Saio do quarto e o som da porta se fechando parece selar o nosso distanciamento. Passo pelo corredor do hospital sem ver ninguém, pego o elevador e recepção de lá sigo a passos largos para o estacionamento É tarde de sexta-feira na Lombardia. O sol começa a baixar sobre Milão, tingindo os prédios com um brilho pálido e frio. Entro no carro e ligo o motor, sentindo a vibração mecânica subir pelos meus braços, uma extensão do tremor que sinto nos meus próprios nervos. O sangue ferve. A raiva é um motor potente que me impulsiona para longe daquele hospital. Dirijo pelas ruas da cidade sem rumo certo. O trânsito de sexta começa a se adensar, as pessoas saindo dos escritórios, os cafés lotando, a vida milanesa seguindo o seu fluxo elegante e indiferente ao meu caos interno. Passo pelo quadrilátero da moda, vejo as luzes das vitrines se acendendo, mas tudo o que sinto é o peso do ultimato do meu pai e o desprezo no olhar mudo dele. Ele quer me quebrar. Ele acha que, com o silêncio, vai me forçar a aceitar uma vida que eu abomino. Mas quanto mais ele aperta, mais eu sinto vontade de acelerar. Estaciono o carro em frente ao Bar Basso, um dos lugares mais exclusivos de Milão. Preciso de barulho para silenciar o rosto mudo do meu pai. O ambiente está saturado de gente bonita, o tilintar de gelo contra o cristal e risadas que não custam nada. Peço um Negroni Sbagliato e, em menos de dez minutos, já estou cercado. Duas loiras, modelos de alguma campanha de inverno, riem das minhas piadas ácidas. O flerte é o meu oxigênio; é a única coisa que me faz esquecer que sou um herdeiro com data de validade. Estou inclinado, sussurrando algo no ouvido de uma delas, quando um clarão rápido e seco corta o canto do meu olho. Um flash. Viro o rosto e vejo um sujeito de jaqueta escura tentando se misturar à penumbra, segurando um celular e uma câmera profissional. O sangue, que já estava quente, entra em ebulição. Perco a razão. — Ehi, tu! — grito, afastando-me das mulheres. O cara tenta correr, mas eu sou mais rápido. Alcanço-o perto da saída e agarro-o pelo colarinho. — Apaga essa pørcaria agora! — rosno. — Me solta, Lombardo! O público quer ver o herdeiro festejando enquanto o pai morre no hospital! — ele provoca, com um sorriso cínico. A fúria explode. Meu punho se fecha e atinge o rosto dele antes que eu possa pensar. Ele cai, e o celular voa longe. Eu me jogo sobre ele, pegando o aparelho e esmagando-o contra o chão de mármore com o calcanhar. Em seguida e a câmera que "beija" o chão. O estalo do vidro quebrando é satisfatório, mas o maldito revida. Um soco acerta em cheio o canto da minha boca. Rolamos pelo chão. Cadeiras voam, copos se quebram. Vejo, pelo canto do olho, dezenas de outros celulares erguidos: as pessoas não ajudam, elas filmam. " Bando de filhos da püta! " Somos expulsos aos empurrões pelos seguranças depois que eles separam a briga. — Como um maldito desses entra com câmera nessa meŕda e você deixam! Berro sentindo o sangue descer pelo meu rosto. Entro no carro com os nervos arrebentando comigo. Bato no volante antes de dar a partida e me distanciar do bar de meŕda. Esse eu não frequento mais. Saio para a calçada de Milão com a respiração arfante e o gosto ferroso do sangue na boca. Sigo direto para a minha cobertura. Não posso aparecer na mansão com o rosto arrebentado. Maristela iria falar um monte nos meus ouvidos e não estou com " säco" para aturar sermão de mãe e muito menos olhares de julgamento. Entro, jogo as chaves na mesa e me olho no espelho do hall: supercílio aberto, um edema roxo começando a fechar meu olho esquerdo e a boca rasgada. Um trapo humano. Sigo para o banho e atrás de um antisséptico para limpar as feridas. — Cazzo! Que azar da pōrra eu estou! – murmuro sozinho. Duas horas depois estou de roupão na sala! sentado no sofá degustando de uma bebida, é nesse exato momento que a campainha toca. Não é um toque, é um ataque. Estranho, a portaria não interfonou falando sobre visitas. Penso ser o síndico, vindo reclamar sobre o meu carro está m*l estacionado na garagem. Ledo engano . Abro a porta e dou de cara com Dona Maristela. Ela não espera ser convidada. Entra furiosa, enfiando o dedo na minha cara. — Mozzicone di un ragazzino inconsequente! (Moleque inconsequente!) — ela grita, a voz vibrando de ódio. — Seu pai está em uma cama de hospital, lutando para voltar para nós, e você está em bares se atracando como um animal por causa de mulheres? Você não tem jeito! Nem a morte batendo à nossa porta te faz criar juízo! Não consigo dizer nada. Sento-me no sofá de couro, apoio os cotovelos nos joelhos e escondo o rosto nas mãos. A dor de cabeça é uma britadeira dentro do meu crânio. — Eu pensei que tinha criado um lorde, um homem de honra, e não um lutador de luta livre de taverna! — ela continua, andando de um lado para o outro. — Já está na internet, Marcelo! O mundo todo vendo o "grande empresário" rolando no chão de um bar. Você não tem vergonha? Pela imagem da empresa? Pelo império de queijos que seus antepassados levaram a vida inteira para construir e que você está minando com essa irresponsabilidade? Olho para ela, magoado. A dor física não é nada perto do que sinto agora. — Por que estão fazendo isso comigo? Por que me obrigar a casar? Eu não tenho vocação para ser pai de família, mãe! — Não é sobre vocação, Marcelo! É sobre responsabilidade! É sobre maturidade! Coisas que você prova, a cada hora, que não possui — ela rebate, fria como o gelo. — O aviso foi dado. Você tem seis meses. Ou você se casa e assume o seu papel, ou será exilado. Você vai morar em outro país, longe da Itália, e pode esquecer o sobrenome Lombardo. Eu não vou te reconhecer como filho. Você será expulso da nossa história. Seu olhar é frio, duro e áspero. Ela dá meia-volta girando os calcanhares e sai, batendo a porta com tanta força que os quadros na parede estremecem. Fico sozinho no silêncio da cobertura. Jogo a cabeça para trás no encosto do sofá e fecho os olhos, soltando o ar devagar. Faço uma careta quando o movimento repuxa o corte na boca. Passo os dedos levemente no ferimento e solto um gemido baixo. — Aquele desgraçado me deu um soco de jeito... No entanto, a única coisa que me ocorre é: estou ferrado. O cerco fechou. Ou eu acho uma solução milagrosa em 180 dias, ou o lobo da Lombardia vai acabar morrendo de fome, sem nome e sem lar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR