Mãe casamenteira.

2561 Palavras
Capítulo – Mãe casamenteira. " Se você acha que uma determinada situação está r**m, não esquenta, ela pode piorar." Marcelo Os últimos dois dias foram um mergulho em um purgatório de luzes fluorescentes e bipes incessantes. O remorso é um gosto ácido que não sai da boca, por mais café que eu tome. Ver Aristide Lombardo, o homem que eu sempre vi como uma extensão das montanhas italianas — imutável e bruto —, reduzido a uma figura pálida sob lençóis brancos, foi o golpe de misericórdia no meu orgulho. Eu fui o gatilho. Cada vez que fecho os olhos, vejo o momento em que a luz dele vacilou. Mas agora, com a notícia de que a cirurgia foi um sucesso e que o velho "tronco de carvalho" sobreviveu, a pressão muda de forma. Não é mais o medo da morte, é o peso da sentença. Maristela e Nica deixaram claro: se ele fraquejar de novo por minha causa, eu sou um paria. Um Lombardo sem teto. Para fugir do silêncio ensurdecedor do hospital e das notas de culpa da minha irmã, aceitei o convite dos meus primos. Se é que posso chamar de convite uma convocação para o julgamento dos pares. Estamos no Caffè della Lupa, no coração pulsante da Via Montenapoleone. A fachada é de um verde-escuro clássico com detalhes em latão polido que brilham sob o sol de inverno de Milão. Por dentro, o mármore Carrara do balcão contrasta com o calor da madeira escura das paredes. O aroma... ah, o aroma é o que me mantém são. É uma mistura inebriante de grãos torrados na hora, o frescor cítrico de um panettone artesanal e aquele toque de chocolate amargo que só as cafeterias milanesas conseguem equilibrar. É o cheiro da civilização, mas hoje, parece o cheiro do meu velório. — Olhem para ele — Lorenzo começa, girando a colher de prata no seu espresso. — O lobo da Lombardia parece que foi mastigado por um urso e cuspido de volta. — O lobo? — Gavino solta uma risada curta, ajeitando o relógio de ouro. — Lorenzo, o lobo agora vai receber uma coleira. E das apertadas.Se não vier com o apetrecho de dar choques elétricos. — Coleira não — Lorenzo retruca, com um brilho sádico nos olhos. — Ele vai ser trancafiado em um canil, com direito a corrente curta e cadeado de aço. Seis meses para casar, Marcelo? Isso não é um ultimato, é uma contagem regressiva para o abate. Sinto o sangue subir pelo pescoço. Minha mão aperta a xícara de porcelana com tanta força que temo estilhaçá-la. — Calem a boca — rosno, a voz rouca. — Vocês não sabem o que estão falando. Eu não sou um homem de canil. Eu não nasci para ser domesticado por um contrato de casamento e um berço no quarto ao lado. — Pois é bom aprender a latir, primo — Gaetano intervém, mais sério, embora haja um tom de deboche no fundo. — Ou isso, ou você vai ter que começar a procurar emprego em qualquer esquina da cidade para ganhar miseráveis euros por hora. Sem o sobrenome, sem o império do Aristide... você é apenas um homem bonito com um terno caro que não pode pagar. Gavino se inclina para frente, um sorriso largo no rosto. — Se o problema for trabalho, Marcelo, não se desespere. Minha casa está precisando de uma faxina pesada. Eu te contrato. Posso até arrumar um avental de babados e um espanador para você. Combina com o seu novo visual de "filhinho arrependido". — Vaffanculo, Gavino! — disparo, a fúria finalmente transbordando. — Vai se føder você e a sua caridade de merda. Gian Luca, que estava quieto até agora, desata a gargalhar, atraindo olhares de algumas senhoras na mesa vizinha. — Não adianta espernear, Marcelo. Tio Aristide é igualzinho ao meu pai, o senhor Giacomo. Eles não dão ponto sem nó. Na verdade, acho que o tio foi até maleável. Você tem 31 anos, nenhuma noiva, nenhuma namorada séria e nenhum herdeiro. Eu estou aqui, encravado em um noivado que é um pé na bünda e outro no säco. Ele bufa, olhando com desprezo para a aliança pesada em seu dedo. — Minha noiva é insuportável, mas o negócio das famílias depende disso. Pelo menos você tem seis meses para escolher o seu próprio veneno. Gavino ri do desespero de Gian Luca, mas Lorenzo corta a graça dele rapidamente: — Não ri, Gavino. Sua situação é pior. Você teve um filho com aquela ex que nem quer saber da criança. Pelo menos o Marcelo ainda está limpo. Gavino fecha o semblante na hora. O clima na mesa pesa. — Eu dei ao meu pai, Michele, o que ele queria: um neto. Só não sabia que tinha escolhido a mulher errada. Aquela püta såfada só queria o dinheiro. O velho foi mais esperto, ofereceu uma nota preta e ela assinou a renúncia da guarda mais rápido do que se abre um espumante. Deve estar em algum lugar da Europa torrando o dinheiro dos Lombardo agora. — Eu fui o único que deu certo nessa família — Gaetano diz, estufando o peito. — Arrumei uma mulher que, aparentemente, me ama de verdade. Sinto uma náusea súbita. — Chega! Estou enjoado de ouvir vocês falarem de relacionamentos, filhos e "mulheres ideais". Dá vontade de vomitar. Gian Luca dá uns tapas amistosos no meu ombro, o que só aumenta minha irritação. — Não se preocupe, primo... ainda vai piorar. Quando a busca começar, as tias vão brotar do chão com fotos de "moças de boa família". — Dio mio, scapa fora! — exclamo, fazendo o sinal da cruz no ar. — Tá repreendido. Cruz credo! — Você não vai ter saída, Marcelo — Gavino volta à carga. — Vai acabar cedendo. — Eu vou dar um jeito — digo, tentando convencer a mim mesmo enquanto olho o movimento frenético da rua através da vidraça. — Vou convencer o meu pai de que ele não pode me moldar. Eu sou um homem, não um dos queijos dele. Casar? Formar família? Sou muito novo para isso. Não consigo me ver fiel a uma única mulher. Como eu vou ficar com uma só, tendo tantas mulheres maravilhosas no mundo dando sopa? Eu não como sempre do mesmo cardápio. Gosto de variedade. Comigo o que funciona é o rodízio. — Você vai arrumar um problema ainda maior com o tio Aristide — Gavino alerta. — Eu não estou arrumando problema — retruco, sentindo a pressão no peito voltar. — Estou lutando pela minha vida. Ele quer decidir o que eu devo ser, como se eu fosse um fantoche. Isso está errado. Completamente errado. Mas, no fundo, enquanto o café esfria na minha frente, sei que a sombra de Maristela e Nica paira sobre mim. Se eu falhar, se o coração do velho Aristide vacilar de novo, eu não perderei apenas o império. Perderei o sangue. E um Lombardo sem o seu clã é apenas um nome escrito na poeira. Ficamos cerca de quarenta minutos conversando até que a vida e as responsabilidades de cada um nos chamou de volta a dura realidade. No entanto, eu, antes de ir para a empresa, sigo para casa, querendo tocar de roupa e de relógio. Acerta a dosagem do perfume e trocar de carro por um modelo esportivo. Quinze minutos depois, meu carro desliza para dentro dos portões. A mansão dos Lombardo me recebe com o seu imponente jardim. Estaciono, respiro e tamborilo os dedos no volante antes de descer. A conversa com meu pai — melhor dizendo, briga— ainda ricocheteia nas paredes da minha cabeça. Desço do veículo e com passos firmes entro em casa tentando manter o que resta da minha dignidade milanesa, mas o silêncio da mansão Lombardo é traiçoeiro. Assim que cruzo a soleira da sala de estar, o cheiro de café fresco e perfume floral barato me atinge como um soco. Meus olhos varrem o lugar. No sofá de veludo, minha mãe, Maristela, reina com um sorriso que eu conheço bem: é o sorriso de quem acabou de armar uma emboscada. Ao lado dela, duas figuras parecem ter saído de um afresco m*l conservado do século XIX. — Marcelo, que bom que chegou! — minha mãe diz, a voz doce demais para ser verdadeira. — Esta é a Signora Genoveffa Altadonna, uma velha amiga da família, e sua filha, a jovem Agata. Forço um sorriso. Meus músculos faciais protestam. Eu não quero explodir, não com o coração do meu pai ainda remendado por pontos cirúrgicos, então engulo o veneno. Me aproximo usando da educação que foi me ensinada. — É um prazer — minto, estendendo a mão. — Oh, Marcelino! — Agata dispara, apertando minha mão com uma palma úmida. — Ouvi tanto sobre você. Finalmente o famoso herdeiro! Marcelino?! Sinto uma veia latejar na minha têmpera. Ninguém me chama de Marcelino desde que eu tinha cinco anos, e certamente não uma mulher que eu acabei de conhecer. Detesto essa alcunha. Tento prestar atenção no que ela diz, mas é impossível. Meus olhos ficam hipnotizados, por puro horror, no perfil dela. Agata possui um nariz adunco, proeminente e curvado, que me faz lembrar imediatamente da Upupa epops — a Poupa. É um pássaro que vemos muito aqui na Itália, especialmente nas áreas rurais e vinhedos da Lombardia e do Vêneto durante a primavera. Elas têm aquela crista exótica, mas o bico é longo, fino e levemente curvado para baixo, exatamente como o nariz que agora aponta para o meu rosto enquanto ela fala sem parar. — Marcelo — minha mãe interrompe, percebendo meu transe catastrófico —, por que não leva Agata para conhecer o jardim? As camélias estão lindas. Meu corpo sofre um arrepio e não do jeito gostoso que conheço e sim frio. "Dio Santo! Só faltava essa agora! " Estou encurralado. Sem saída. — Claro, mamà. – digo com o maxilar doendo por sustentar o sorriso falso— Por gentileza, Agata.— me volto para o nariz de Upupa. Guio Agata para fora. Pensando numa maneira de me safar dessa enrascada. Se eu pensei que a estética de Agata era r**m, sob a luz do sol, o desastre é ainda mais nítido. Além do nariz de pássaro, ela ostenta óculos com lentes tão grossas que seus olhos parecem duas azeitonas flutuando em salmoura — o legítimo fundo de garrafa. Quando ela sorri, o metal brilha: um aparelho ortodôntico completo, um emaranhado de fios e braquetes tentando domar dentes que parecem lutar por espaço. Para completar, o cabelo está preso em uma trança circular em volta da cabeça, um penteado que me remete a algo camponês, quase mexicano, totalmente desconexo da moda de Milão. Acho que me jogaram no inferno e ainda não percebi. — Eu adoro jardinagem, Marcelino! Você sabia que as plantas sentem a nossa aura? — ela tagarela coisas sem nexo. — Eu falo com os meus cactos todas as manhãs. Eles me entendem melhor que as pessoas. Balanço a cabeça em afirmação enquanto caminhamos, ela parece uma matraca sem freio, as vezes fala e saliva voa para fora da boca. Quando ri baixo encolhe os ombros e parece que engoliu um leitão inteiro porque ronca. Eu irei enlouquecer se ficar mais vinte minutos em companhia dessa ragazza brutta. Minha libido não apenas morreu; ela cometeu suicídio ritual. Não há faísca, não há interesse, há apenas um deserto de tédio e espanto. Ela não é uma boneca, não tem assunto e sua voz parece o grasnar da poupa no jardim. — Agata, por favor, espere um instante aqui neste banco, sob a oliveira — digo, apontando para o assento de pedra. — Esqueci de pegar uma coisa importante lá dentro. Já volto. Dou passos largos, fujo da ragazza brutta. Entro em casa como um fugitivo, atravesso o corredor r me tranco no escritório, girando a chave. Começo a andar de um lado para o outro, sentindo as paredes se fecharem. Como minha mãe é capaz de pensar em me casar com aquela mulher à força? Ela pode e mais, faz isso garantir a paz de Aristide. Uma ideia explode em minha mente. Pego o celular. Recorrendo a minha única salvação. Ligo para Giorgio, meu advogado e cúmplice de décadas. — Giorgio, socorro! Minha mãe me jogou em uma arapuca. Tem uma mulher aqui que parece um pássaro de óculos e ela me chama de Marcelino! Preciso que você ligue para o celular da minha mãe agora. Finja que é urgente, empresa, papéis, o que for! Do outro lado da linha, Giorgio explode em uma gargalhada ultrajante. — Marcelino? Ah, eu pagaria para ver isso! O Lobo de Milão sendo caçado por uma Upupa! — Não tem graça, seu cretino! Me tira dessa agora! — Vai custar caro, Marcelo. Meus honorários para "resgate de encontros bizarros" são altíssimos. — Cobrar o que quiser! Eu pago o dobro, mas liga logo! Encerro a chamada, desligo o aparelho, respiro fundo e saio do escritório. Caminho pelo corredor com passos calculados e volto para a sala de estar, onde Maristela e a Signora Genoveffa tomam chá. O celular da minha mãe toca em cima da mesa de centro. Ela atende depois de estreitar o olhar para a tela. — Pronto? Ah, Giorgio... sim, ele está aqui. Aguarde um minutinho... Dona Maristela desvia sua atenção para mim. — Marcelo, cadê o seu celular? Giorgio quer falar com você, meu filho. Eu me aproximo fazendo um teatro digno de um Oscar. Tiro meu celular do bolso com uma cara de confusão. — Ah, mamãe, o meu aparelho descarregou. Esqueci de conectar no carregador, como sabe passei a noite no hospital... bom. Eu estava indo agora mesmo encontrar a Agata no jardim, ela está me esperando... Minha mãe me estende o telefone, desconfiada. A Signora Genoveffa me olha com um sorriso de sogra que me faz arrepiar até o último fio de cabelo, como um gato preto diante de balde de água fria. Pego o aparelho. — Giorgio? Sim... o quê? Agora? — Faço uma pausa dramática. — Entendo. Não, eu sei que é vital para o contrato da holding. Estou indo imediatamente. Em dez minutos chego aí. Encerro a ligação e entrego o telefone para minha mãe com um suspiro de "dever cumprido". — Sinto muito, mamà. Signora Genoveffa, peço mil desculpas, mas Giorgio precisa de uma assinatura minha em documentos urgentes que não podem esperar nem mais um segundo. — Mas e a Agata? — minha mãe pergunta, a decepção vincando sua testa. — Diga a ela que sinto muito. Marcaremos outra coisa... em outro século, talvez — murmuro a última parte bem baixinho de maneira que elas não escutem, enquanto me afasto. Não dou tempo para contestações. Saio pela porta principal, pulo para dentro do meu carro e arranco, fazendo os pneus cantarem no cascalho da mansão Lombardo. Meus dedos apertam o volante com tanta força que os nós dos dedos estão brancos. O ódio percorre minhas veias. Minha própria mãe, a mulher que deveria me conhecer, tentando me vender para uma candidata a freira com bico de pássaro. Eu venci a batalha de hoje, mas sinto que a guerra de Maristela apenas começou. — Cazzo! — grito para o para-brisa. — Eu não vou ser domesticado!
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR