Capítulo — O peso do sobrenome e antagonismo emocional.
" Seu sobrenome é mais do que identidade, é peso real de suas raízes. "
Marcelo Lombardo
Assinar 'Lombardo' no final de qualquer papel nunca foi apenas uma formalidade para mim. É como se, a cada traço da caneta, eu estivesse arrastando comigo uma linhagem que começou lá atrás, no ano de 568.
Eu carrego no nome a herança dos Langbards — os 'homens de barba longa'.
É curioso, porque meu sobrenome é uma bússola que aponta para o norte, mas que criou raízes profundas no sul, na Sicília, na Calábria.
O peso de ser um Lombardo nunca foi tão literal. Não é mais sobre o brasão nos portões da villa ou o relevo nos cartões de visita; é uma prensa invisível que esmaga minhas costelas a cada respiração. Olho para as minhas mãos e não vejo o executivo que domina planilhas ou o homem que estampa capas de revistas. Vejo o reflexo de um colapso.
Sinto-me como um equilibrista que, por anos, desdenhou da rede de proteção, apenas para descobrir que a rede era o peito do meu pai. E eu a rasguei com um golpe de orgulho. Mas também de um filho que deseja conquistar o seu próprio espaço no mundo.
Cada um tem o direito de fazer o que quiser com a sua própria vida; por qual razão eu não posso decidir pela minha?
Ergo o meu olhar.
Nica e minha mãe estão diante de mim, mas é como se estivéssemos em continentes diferentes, separados por um abismo.
— Ele estava bem — a voz de Nica corta o ar, baixa e afiada como uma lâmina de barbear. — Ele acordou, me deu bom dia. Disse que me esperava para o café. Estava em paz, Marcelo. Até ver o jornal, até saber da sua cachørrada! Sabe o quanto de expectativa que o nosso pai deposita em você?! Não, você não sabe! Porque está sempre preocupado em arrumar alguma carne nova para se espojar!
— Nica, por favor — murmuro, sem conseguir sustentar o peso do olhar dela. — Não agora com a minha cabeça doendo e os nervos frouxos.
— Agora é o único momento que importa! — Ela avança, e o desprezo em seu rosto é uma métrica que eu não sei calcular. — Você viu o rosto dele? Você viu o exato segundo em que a luz apagou porque ele não aguentava mais ouvir sua prepotência? Você não estava defendendo sua liberdade, Marcelo. Você estava matando a única coisa que ele ainda respeitava em você: a possibilidade de ser um homem de honra.
Não suporto ouvir tantas besteiras.
— Eu estava defendendo a minha vida! — Minha voz sobe, uma tentativa desesperada de reafirmar uma identidade que, neste momento, parece feita de fumaça.
— Sua vida? — Nica solta uma risada histérica, que soa como vidro quebrando. — Que vida? Aquela foto patética no jornal? Aquelas mulheres que não sabem nada sobre você, apenas o sobrenome?! Você trocou a saúde do papai por uma noite de farra! Se quisesse continuar na galinhagem, fizesse isso de forma discreta, Cazzo!
— Chega, Nica — a voz de minha mãe surge, frágil, mas carregada de uma autoridade que me imobiliza.
Ela levanta os olhos para mim. Não há o fogo da raiva de Nica, apenas uma piedade exausta que dói muito mais.
— Marcelo... — Ela pronuncia meu nome como se estivesse fechando um livro. — Seu pai tem o temperamento de uma rocha, mas até as rochas partem se você bater no lugar certo. E você... você mirou na única rachadura que ele tinha: o medo de que a linhagem terminasse em um vazio.
— Mãe, ele me deu um ultimato. Ele queria me comprar, me moldar como se eu fosse um dos seus queijos! Eu não podia simplesmente baixar a cabeça e aceitar ser um fantoche. Sou um homem, de 31 anos! Cazzo!
— E por que não?! — Nica explode novamente, as lágrimas manchando o rosto perfeito. — Por que você tem que ser sempre o protagonista dessa rebeldia barata? O brilhante Marcelo, o herdeiro que é moderno demais para nós! Você queria provar independência? Parabéns. Você é o homem mais livre do mundo agora, enquanto o motivo da sua existência está ligado a aparelhos porque não suportou a vergonha de ter você como filho. Papai sempre prezou pela tradição, Marcelo, ele nunca escondeu isso. Ele quer ver os filhos trilhando o mesmo caminho, você sequer apresentou alguma namorada nesses últimos quatro anos e as que teve deram um pé na sua bünda porque você foi canalha o suficiente para trëpar com as amigas delas!
O peso das palavras dela me faz perder o equilíbrio interno. Sinto a pressão no peito, uma mímica c***l do que o velho Aristide sentiu na sala de jantar. A culpa não é um sentimento; é um verdugo.
Ela não exagera, mas o que posso fazer se as minhas ex tinham amigas bonitas e essas amigas davam brechas para mim, eu apenas dei a elas o que queriam: atenção e calor masculino.
— Eu não queria que isso acontecesse com o nosso pai— digo, e minha voz soa oca, sem a convicção que eu exibia horas atrás.— Mas quero que ele entenda que de mim não terá netos, nora, essas cosias que ele anseia. Eu não nasci para isso, eu não sou assim!
— E quem é você, Marcelo? — Minha mãe se aproxima, tocando meu rosto com a ponta dos dedos frios. — Além da empresa e dessas festas... quem sobrou? Porque o homem que está lá dentro deu cada gota de suor para que você tivesse um nome. E você usou esse nome para chicoteá-lo.
Afasto as mãos de Maristela.
— Eu trabalho, mãe! Eu sustento o império dele! Estou honrando com o legado da família! Caspita!
A irritação me consome, eles tem o dom de ver o que não faço, mas o que faço parece não ter importância alguma.
— Testa de mulo! Oimpério não é feito de contratos, seu i****a! — Nica grita. — O império é o que fica quando o dinheiro acaba. É a permanência. É o sangue. Coisas que você parece determinado a jogar no lixo. Se o papai não voltar... eu nunca vou te perdoar. Para mim, você não será mais meu irmão. Será apenas o homem que destruiu os Lombardo por capricho.
— Non me ne frega niente !( Não me importo nenhum pouco) .
As palavras saem por minha boca e os olhos de Nica ficam frios.
Ela vira as costas, o corpo sacudindo em soluços que ecoam no meu silêncio. Minha mãe me olha por um último segundo — um julgamento final — e segue Nica, deixando-me sozinho com os destroços do meu ego.
O ultimato de Aristide agora não é mais uma ameaça; é uma sentença. Seis meses para casar. Seis meses para um herdeiro. E eu, com o segredo daquela clínica suíça queimando na minha memória, percebo que minha "independência" me deixou em um beco sem saída.
Eu venci a discussão, mas perdi o mundo.
No entanto ainda respiro, e se respiro alguma saída há de ter.
— Tegnì dur, Marcelo! Milan la se ferma minga, e ti gnanca!"
(Segura firme, Marcelo! Milão não para nunca, e você nem de longe!)