Capítulo — Eu sou Marcelo Lombardo
" Meu nome? Não importa, o que importa é o que vou despertar dentro do seu coração."
Marcelo
Eu me chamo Marcelo, herdeiro de um sobrenome que pesa mais do que qualquer mala que eu já tenha arrastado pelos aeroportos da Europa. A Lombardia corre no meu sangue como vinho encorpado: tradição, dinheiro, poder antigo, campos verdes organizados em linhas perfeitas e fábricas que cheiram a leite, sal e tempo.
A empresa da minha família nasce do chão — agronegócio com tecnologia, agrifood tech, como os jornais gostam de chamar — mas cresce com algoritmos, sensores e inovação. Processamos alimentos, exportamos identidade. Nosso gorgonzola não é só queijo; é patrimônio cultural embalado a vácuo, com rastreabilidade digital e certificação de origem.
Eu conheço cada etapa disso. Sei falar de fermentação, de cadeia fria, de investimento em agricultura de precisão. Sei sentar em conselho e soar responsável. Mas isso não me define. O que me define é o que acontece quando eu fecho a porta do escritório, jogo a chave do carro no bolso e decido desaparecer sem avisar ninguém.
Tenho 31 anos, para desespero absoluto do meu pai e da minha mãe. Segundo eles, já passou da hora de eu “criar juízo”, casar, gerar um herdeiro que dê continuidade ao império do queijo azul. Eles não dizem “império”, claro. Dizem “legado”. Eu digo prisão com paredes acolchoadas.
— Marcelo, você não pode viver assim para sempre — minha mãe insiste, com aquele tom doce que esconde uma sentença.
"Posso, sim "— respondo mentalmente. Em voz alta, sorrio e mudo de assunto.
Nos jornais, eu ganhei um apelido que virou quase uma marca paralela à da empresa: “O Lobo da Lombardia”.
Não fui eu quem inventou, mas confesso que não fiz nada para impedir. Fotografias minhas saindo de hotéis, festas em lagos, braços diferentes pendurados no meu ombro a cada estação. Para a imprensa, sou escândalo elegante. Para os meus pais, sou uma dor de cabeça bilionária.
Eu não tenho namorada fixa. Nunca tive. As mulheres na minha vida funcionam como rodízio, e não vejo pecado nisso. Elas sabem como eu sou. Eu deixo claro desde o primeiro copo de vinho: não prometo amanhã, não mando bom-dia, não atendo ligações possessivas.
Se alguém tenta me manobrar emocionalmente, eu corto. Limpo. Sem drama. A liberdade é frágil demais para ser negociada.
E não, não é medo de compromisso. É aversão à rotina compartilhada. Eu odeio dividir espaço íntimo. Odeio acordar de madrugada com vontade de mijar e dar de cara com uma escova de dentes que não é a minha. Odeio calcinha lavada pendurada no box como se fosse decoração. Mas nada me irrita mais do que fio de cabelo. No chão, no ralo, grudado no sabonete. Fio de cabelo no box me dá a impressão de sujeira, de invasão. Meu banheiro é território sagrado.
E isso aconteceu uma única vez, foi demais para mim. Percebi que não nasci para ter alguém " agarrado" a mim.
Gosto de sair sem hora para voltar. De desaparecer por dois dias. De entrar no carro numa sexta-feira e só decidir o destino depois do primeiro pedágio. Não suporto mensagens a cada três minutos perguntando onde estou, com quem estou, quando volto.
Controle me dá alergia!
Meu pai não entende. Ele é um homem feito de horários, reuniões e alianças — no dedo e nos negócios. Para ele, a empresa é extensão da família; para mim, a empresa é parte da paisagem, não o mapa inteiro. Eu faço minha parte, gero resultados, respeito a história. Mas não vou sacrificar minha vida pessoal no altar da respeitabilidade.
Minha irmã, Nica, é o oposto de mim. Onze anos mais nova, ela é a princesa da família. Inteligente, delicada, adorada por todos. Onde eu sou o aventureiro indomável, ela é a promessa perfeita. Eu a amo com uma devoção silenciosa.
Nica me olha como quem sabe que eu não vou mudar, e talvez por isso não tente. Ela ri do meu apelido nos jornais e diz que eu sou “um caso perdido adorável”. Eu aceito.
— Você vai morrer sozinho — ela sempre provoca.
— É o plano — respondo, erguendo sempre a taça.
E digo isso sem vergonha. Eu desejo morrer solteiro, com a sensação de que aproveitei tudo o que pude. Sem filhos chorando no banco de trás, sem esposa reclamando da minha ausência, sem agendas compartilhadas. Não nasci para ser marido. Nasci para ser passagem.
Alguém pode chamar isso de cäfajestice. Eu chamo de honestidade brutal. Nunca prometo o que não posso cumprir. Nunca vendo ilusão. Se uma mulher entra na minha vida, entra sabendo que é visita, não moradia.
Eu aprecio as mulheres, suas formas, suas inteligências, suas risadas diferentes. Gosto da troca, do instante. O eterno me entedia.
Deus me deu virilidade demais, dizem por aí. Eu não sei se foi Deus ou genética lombarda bem-feita, mas não me culpo por usufruir. Culpa é uma invenção social para enquadrar quem não cabe. Eu não caibo.
Enquanto isso, a empresa cresce. Investimos em tecnologia agrícola, em sustentabilidade real — não a de marketing. Sensores no solo, inteligência artificial para prever safras, redução de desperdício. Contamos com a produção de milho (maíz)
Mas o nosso gorgonzola continua sendo referência, agora com QR code que conta a história da fazenda até a mesa. Eu participo disso tudo, à minha maneira errante. Reuniões em Milão numa semana, visita a produtores na outra, um voo inesperado no meio.
Sou herdeiro, sim. Mas antes disso, sou livre. E não vou pedir desculpas por isso.
Se amanhã eu sair novamente nas páginas dos jornais, que seja. O Lobo da Lombardia segue andando. Sozinho. Feliz.
Sozinho, feliz e tocando os negócios da família, que não são poucos, dentre eles a fazenda.
A fazenda da família não é só grande — ela é herança antiga. Daquelas que não surgem do nada, que não se compram por capricho. Ela está fincada na Planície Padana há quase cento e cinquenta anos, atravessando gerações como quem atravessa estações: com paciência e teimosia. Meu bisavô chegou ali quando a terra ainda era tratada com mais fé do que técnica. Meu avô consolidou. Meu pai expandiu. E eu… eu faço o que eles custam a admitir: eu sustento o futuro.
Quem vê de fora imagina apenas campos verdes intermináveis e galpões imensos. Mas a fazenda é um organismo vivo. Ela respira, exige, cobra. Produzimos leite em escala industrial, sim, mas com rigor quase artesanal. O segredo começa na raça. Criamos Frisona Italiana, linhagem pura, animal de grande porte, resistente, com genética voltada para a produção de leite de altíssima qualidade. Não é quantidade pela quantidade. É composição. Gordura certa. Proteína no ponto. Textura que responde bem à maturação.
Sem isso, não existe gorgonzola de verdade.
O nosso gorgonzola é motivo de orgulho — mesmo que meu pai finja que isso sempre foi assim. Suave, cremoso, elegante, com aquele azul que não agride, que convida. Um queijo que não grita, sussurra. Disputado no mercado europeu, requisitado por restaurantes estrelados, presente em prateleiras que só aceitam excelência comprovada.
E os títulos… ah, os títulos falam por si.
Prêmios em feiras internacionais.
Medalhas de ouro em concursos técnicos.
Certificações de origem protegida.
Cada selo daqueles não cai do céu. Tem gestão, estratégia, investimento, leitura de mercado. Tem alguém negociando contratos, ajustando logística, modernizando processos, lidando com gente difícil e números mais difíceis ainda. Esse alguém sou eu.
Mas, para o meu pai, isso tudo é detalhe.
— Você não tem juízo, Marcelo — ele diz, sempre do mesmo jeito, como se estivesse lendo uma placa com linguagem arcaica. — Homem só cria juízo quando casa e tem filho.
Juízo, para ele, vem com aliança, berço e olheiras permanentes. O resto é fantasia. Ele me chama de cabeça oca, às vezes de cabeça de vento, outras de miolo mole, como se meu cérebro fosse um salão vazio onde só entra festa e mulher. Fala isso com a naturalidade de quem acredita estar salvando o filho de si mesmo.
Eu escuto. Mas não engulo.
Porque, se eu der ouvidos demais, eu termino igual a ele. Um homem que repete sempre a mesma frase como se fosse troféu:
— Na sua idade, eu já era seu pai.
Sempre isso. Sempre a comparação. Sempre o passado usado como régua para medir um presente que ele não entende. O velho reclama da minha vida como se fosse um erro de cálculo, como se liberdade fosse desperdício.
Ele não vê minha competência administrativa. Não vê os relatórios que eu analiso até tarde. Não vê as decisões que evitam prejuízos milionários. Não vê a forma como eu converso com fornecedores, funcionários, investidores. Para ele, tudo isso perde valor diante da ausência de uma esposa sentada à mesa do jantar.
Eu caminhei pela fazenda hoje cedo, sentindo o frio subir do chão, o vapor dos animais cortando o ar. Os funcionários me cumprimentaram com respeito sincero. Eles sabem quem resolve problema. Sabem quem decide. Sabem quem segura a bronca quando algo sai do eixo.
Isso não vem de um casamento.
Vem de competência.
Meu pai confunde estabilidade com felicidade. Confunde repetição com virtude. E eu não vou cair nessa armadilha só para provar que tenho juízo. Juízo demais deixa o homem previsível. E previsibilidade é uma forma lenta de morte.
Então sigo do meu jeito. Respeitando a terra. Honrando a história. Fazendo a fazenda crescer. E ignorando as farpas do velho.
Se para ele eu sou cabeça de vento, que seja.
Vento move moinho.
Pedra parada só junta musgo.
E ainda está para nascer a mulher que vai conseguir me fazer repetir o mesmo prato sem enjoar.
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