Peso das Cinzas.

1701 Palavras
Capítulo – Peso das Cinzas " Tudo perde o sentido quando quem você ama parte para um lugar onde você não pode ir." Lúcia — Lúcia! Se apresse, bebê, papai precisa embarcar! Ouço pela segunda vez a voz do Senhor Sérgio Fuly. Digito rápido enviando uma mensagem para Suzana. Combinamos de nos vermos amanhã, ir ao Shopping, eu quero comprar uma bota nova para usar no aniversário da Isabelly. Do nosso grupo Belly é a que tem mais idade, vai fazer 18 anos, seu presente, segundo o pai dela disse ao meu, é um carro. Se fosse eu ganhando o carro iria ficar com os olhos brilhando. Imagina, um carro! Claro que ela vai ter que tirar carteira. Mas é um carro! — Estou indo! – berro para o desprazer da minha mãe que não gosta quando eu respondo um chamado aos gritos. Saio pela porta correndo, escorrego no tapete e por muito pouco não consigo enchergar o chão bem de perto. — Bah! Devagar guria! — Salete , nossa funcionária mais antiga, está com a família desde que nasci reclama. Sorrio e mando um beijo para ela no ar. A mulher sorri e balança a cabeça em negação. Desço a escada desesperada, medo do meu pai estar uma fera. Ele surge falando com alguém ao telefone. Me olha com repreensão, não gosta que eu desça a escada correndo, dá última vez que fiz isso ganhei um prêmio: braço quebrado e gesso por mais de um mês. Arrumo a minha postura. —Lúcia? Me viro e vejo minha mãe vindo do corredor trazendo uma pasta em mãos. — Oi, mãe. – meus olhos estão enormes e me prepararo para o sermão. — Vamos repassar tudo o que eu conversarmos. Seu olhar é rígido, mas tem o carinho maternal implícito. — Mãe, eu já sei. — Pode ser, mocinha. Porém é sempre bom relembrar. Bufo e ela me olha atravessado. — Lúcia! — Eu sei, mãe, isso é falta de educação. Desculpa. Ela toca o meu queixo. — Isso mesmo, estou criando uma lady. Vamos me diga: Senha do cofre? — Fundo falso da terceira gaveta do closet da senhora. — Muito bem. Senhas dos bancos? — No fundo da tela do quadro de Gerberas no escritório do papai. Seu olhar é de orgulho, brilha mais do que o diamante em seu dedo. — Cartões para qualquer emergência? — Não sua bolsa de couro de jacaré. Os olhos dela ficam enormes. — Crocodilo, Lúcia! Crocodilo! — Ah, mãe, tudo é feio e tem aquele räbo esquisito. Minha mãe olha para mim como se eu não tivesse conserto. — Você sabe que... — Eu sei,eu, sei... – digo e falamos juntas a frase dela que é um mantra – “Há mulheres que se encantam com o brilho… mas só as sábias reconhecem o diamante.” Ela arruma o sobretudo e olha inquieta pela janela. Parece nervosa. Depois olha para mim e me puxa para um abraço apertado, mas tão apertado que eu estranho. Minha mãe nunca foi de dar abraços apertados, detesta esse tipo de demonstração afetada demais, diz que é desnecessário. — Eu te amo tanto, minha menina, nunca se esqueça disso. A fala dela me causa uma agonia. — Eu também te amo, mãe. Ela não me solta, o abraço dura minutos. — Marjori, o carro está pronto. Meu pai "quebra" o nosso abraço com sua voz firme. Minha mãe me solta, toma uma respiração profunda. Olha dentro dos meus olhos. — Chegou o momento. Promete que vai se cuidar, minha filha. Dentro de quatro dias estamos de volta. Vai ser rápido, assim que resolvermos essa questão da exportação para a Ásia, retornaremos. — Combinei com a Suzana de irmos ao Shopping, quero uma bota preta para combinar com o meu vestido. O aniversário da Belly está bem perto. – digo animada. — Jarbas te leva, e traz. Não quero você circulando pela cidade sozinha. Ainda é uma adolescente, tem apenas 17 anos. — Ah, mãe! Fim desse ano, faço 18. — Falou bem, faz, ainda não fez. Ela beija o topo da minha cabeça ao sairmos na varanda. O céu desaba, água que não acaba mais. Parece que as nuvens estão sendo espremidas por mãos gigantescas. — Sergio, é seguro viajar nesse tempo? – vejo a preocupação estampada nos olhos da minha mãe. — O piloto é experiente, não se preocupe, querida. Eu olho para as nuvens carregadas. Parecem bravas e dispostas a depositar até a última gota de água na face da terra. — Os guarda– chuvas, senhora. Salete entrega para minha mãe. — Cuida da minha boneca enquanto eu estiver em São Paulo, Salete. — Sim, senhora. Abrimos o guarda- chuva e saímos, entramos apressados no carro e o veículo parte. Leva cerca de 30 minutos para chegarmos ao ponto de onde meus pais irão partir no jato da família. Desembarcamos e entramos no local, me despeço dos meus pais. Eles seguem e eu fico olhando-os através dos enormes vidros. Já fiz esse ritual tantas outras vezes, mas diferente das outras, nesta eu tenho um nó no peito. Uma agonia e angústia que não sei de onde vem. O céu de Porto Alegre não chora; ele desaba. A chuva fustiga o asfalto da pista particular com uma violência que transforma as luzes do aeroporto em borrões distorcidos de neon e cinza. O cheiro é de querosene e terra molhada. Eu aperto o casaco contra o corpo, sentindo o frio subir pelos meus pés, mas meus olhos não desviam da aeronave. Lá estão eles. Meu mundo inteiro dentro de uma caixa de metal pressurizada. O jato ronca, um rugido profundo que reverbera no meu peito. Eu vejo a silhueta do meu pai pela janela estreita — ele acena, ou talvez seja apenas minha imaginação tentando criar uma última despedida. O avião começa a correr. A velocidade aumenta, desafiando a gravidade e o dilúvio. As rodas perdem o contato com o solo. Ele sobe. Um metro. Dez metros. Então, o som do mundo se rasga. Não é um barulho de motor; é um grito de metal sofrendo. O jato oscila, uma asa fraqueja como se tivesse sido golpeada por um gigante invisível. O tempo desacelera. Eu vejo o bico da aeronave mergulhar, uma trajetória c***l e definitiva em direção ao fim da pista. — Não... — o sussurro morre nos meus lábios antes de se tornar um rugido. O impacto é um estrondo que faz o chão sob meus pés saltar. O som é tão alto que, por um segundo, eu fico surda. O silêncio que se segue dura apenas um batimento cardíaco antes de ser substituído pelo rugido das chamas. Um cogumelo de fogo alaranjado e obsceno floresce contra o céu cinzento. Ele é lindo e terrível. A luz da explosão ilumina a chuva, transformando cada gota em uma fagulha de sangue luminosa. Logo depois, a fumaça preta e espessa sobe, um dedo sujo de fuligem apontando para Deus, acusando-O. — PAAAI! MÃÃÃE! — O grito rasga minha garganta, cru, animalesco. Eu tento correr. Minhas pernas pesam como chumbo, mas o desespero é um combustível potente. Meus pés batem nas poças d'água, respingando lama no meu vestido. Eu preciso chegar lá. Eu preciso tirá-los do fogo. Lágrimas descem pelo meu rosto, meus olhos estão enormes cada músculo protesta, sinto meus pés se movimentarem mais rápido do que consigo respirar. — NÃO! NÃO! NÃO! NÃO! NÃÃÃÃOOOO !!! De repente meus pés deixam o firmamento. Mãos fortes circundam minha cintura, me suspendendo no ar. O impacto de ser impedida me faz perder o fôlego. — Me solta! Eles estão lá dentro! — Eu me contorço, chutando o ar, minhas unhas cravando na pele de quem me segura. — Lúcia, para! Você não pode fazer nada! — A voz é de Tio Jorge. Eu olho para trás e vejo o rosto dele. Ele está pálido, uma máscara de horror que ele tenta, sem sucesso, manter sob controle. Suas mãos tremem, mesmo enquanto me apertam com força. Ele olha para o fogo com olhos vidrados, o suor frio se misturando à chuva no seu rosto. Ele sabe. Ele sabe que o "Rei da Soja" acaba de ser reduzido a cinzas. — Me deixa ir! — eu imploro, minha voz falhando, transformando-se em um ganido de dor. — Eles estão morrendo! PAI! ALGUÉM SALVA OS MEUS PAIS! MÃE! MÃE! Os seguranças se aproximam, formando uma barreira humana entre mim e o inferno. Eles me arrastam para trás, seus rostos são pedras gélidas, mas seus olhos traem o pânico. O aeroporto vira um formigueiro humano. Homens de colete amarelo correm, veículos de emergência derrapam na pista encharcada. O som das sirenes do Corpo de Bombeiros corta o ar , um uivo agudo que se mistura ao meu próprio choro. As luzes vermelhas e azuis giram, refletindo nas poças de água. É um espetáculo de horrores. — Calma, Lúcia... respira... — Jorge repete, mas sua própria respiração é curta, errática. Ele olha para os lados, para os fotógrafos que começam a surgir nas grades, para a mobilização do pessoal da torre. Ele já sente o peso da coroa que caiu no chão. Meu corpo entra em convulsão. O tremor começa nas mãos e se espalha até que meus dentes batam uns nos outros. O calor da explosão parece alcansar meu rosto, uma carícia fúnebre. Tudo o que eu conhecia evaporou em segundos. A segurança, o amor, o cheiro de perfume doce da minha mãe, a voz grave do meu pai discutindo a safra. Tudo agora é fumaça. O ar parece sumir. O oxigênio foi consumido pelas chamas ou pela minha própria angústia. As luzes das sirenes começam a girar rápido demais, fundindo-se em um único círculo branco e cegante. O som das vozes ao meu redor torna-se um zumbido distante, como se eu estivesse afundando em águas profundas. Minhas forças se esvaem. O peso de perder meus pais é grande demais para meu coração de menina. O mundo escurece antes mesmo de eu tocar o chão. O último que vejo é o fogo. O primeiro que sinto é o nada. Aviso: Estamos começando com mais uma est0ria. Deixe suas mensagens de incentivo. Abraços Dezalima.
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