Capítulo — Despertar no Abismo
" O sono é o afago para escapar da dor por algumas horas."
Lúcia
O branco é a cor mais c***l que existe. Ele não acolhe, não disfarça, não permite fuga. O branco não tem sombras onde a dor possa se esconder. Ele expõe. Ele escancara. Quando meus olhos se abrem, é o branco do teto do hospital que me recebe — frio, absoluto, impiedoso. Um branco que parece gritar que algo foi arrancado de mim para sempre.
Por um segundo — um mísero, traiçoeiro milésimo de segundo que eu daria a minha alma inteira para congelar no tempo — eu esqueço. Esqueço quem eu sou agora. Esqueço o que aconteceu. Acredito, com uma ingenuidade c***l, que ainda sou a Lúcia de ontem. A Lúcia que tinha para onde voltar. A Lúcia que tinha um lar esperando, duas vozes familiares, abraços e segurança.
Então o cheiro de querosene queimado invade minha memória como um soco invisível. Ele não vem suave; ele explode dentro de mim. O estalo do metal se retorcendo ecoa nos meus ouvidos, agudo, interminável. O cogumelo de fogo se ergue atrás das minhas pálpebras fechadas, vivo, pulsante, faminto. Eu sinto o calor de novo. Sinto o impacto atravessar meu corpo. Sinto a violência do fim.
— Não… — O som escapa da minha garganta como um lamento seco, quebrado, cheio de dor — Não, não, não!
A realidade crua não se anuncia. Ela despenca. Me atinge como uma marreta no peito, esmagando o ar dos meus pulmões. O pânico sobe rápido demais, bruto demais, engasgando minha garganta. Meu coração dispara num ritmo desordenado, como se quisesse fugir do meu corpo antes que a dor o alcance por completo. Eu tento me sentar, mas os lençóis pesam toneladas. Eles me prendem, me acorrentam, como se o próprio hospital conspirasse para me manter ali, longe deles. Dos meus pais.
Arranco os eletrodos do meu peito com violência. O som rítmico do monitor cardíaco se transforma em um apito contínuo, estridente, desesperado — um grito eletrônico que imita o meu próprio horror. O barulho perfura o quarto, invade minha cabeça, mistura-se aos meus pensamentos que já não fazem sentido.
— MÃE! PAI! ALGUÉM ME TIRA DAQUI! — Eu grito, e minha voz rasga o silêncio do corredor como uma onda sem piedade. Não é um pedido de ajuda. Não é um chamado racional. É o grito de um animal ferido de morte, acuado, enlouquecido pela perda. — ELES ESTÃO COM FRIO! A CHUVA… A CHUVA APAGOU O FOGO!
Minha mente falha em distinguir passado e presente. Para mim, eles ainda estão lá. Perdidos. Esperando por mim. Eu me jogo da cama, o corpo pesado, descoordenado. Meus pés descalços batem no chão gelado, e o frio sobe pelas minhas pernas, mas não é nada comparado ao vazio que me corrói por dentro. Eu preciso correr. Preciso voltar para aquela pista. Eles estão me esperando. Meu pai nunca se atrasa. Ele deve estar impaciente, olhando o relógio, preocupado porque eu ainda não cheguei.
— Lúcia! Pelo amor de Deus, pare! — Jorge entra no quarto, o rosto vincado pela exaustão, os olhos vermelhos, fundos, como se também tivesse sido drenado por dentro.
— Onde eles estão, tio? — Eu o agarro pela camisa com força, meus dedos tremendo, desesperados. Sacudo seu corpo como se pudesse arrancar dele uma verdade diferente. — Me leva até eles! Diz que foi um pesadelo! Diz que eu ainda estou dormindo! Diz que o avião não caiu! — Minha voz quebra, mas o desespero não diminui. — Por que você está mentindo para mim com esse olhar? POR QUE VOCÊ NÃO OS SALVOU?
As palavras saem como acusações, como facas lançadas sem direção. Eu sei que não fazem sentido. Mas a dor precisa de um alvo. Meus gritos reverberam pelas paredes, escapam pela porta aberta e ricocheteiam pelos corredores do hospital. Vejo vultos correndo. Vejo rostos assustados. Vejo o brilho metálico de uma agulha se aproximando.
— Me solta! — eu urro, lutando contra os braços que agora me prendem. — Eu quero os meus pais! Eu quero a minha casa! Eu quero acordar! É um pesadelo!
A picada no braço é aguda, traiçoeira.
Meu corpo paralisa, não é um pesadelo, é real, não sentimos dor nos sonhos e eu senti a agulha perfurar a minha pele.
O líquido gelado invade minhas veias como um rio de esquecimento forçado, pesado, irresistível. Eu tento lutar contra ele. Tento me agarrar à dor, porque a dor é a última coisa que ainda me conecta a eles. Tento manter viva a imagem do rosto da minha mãe, o sorriso dela, o jeito como tocava meu cabelo. Mas o mundo começa a girar. As paredes se afastam. Minhas pernas cedem. O som dos meus próprios soluços vai ficando distante, abafado, até que a escuridão me engole outra vez.
Quando a consciência retorna, ela não vem inteira. Ela se arrasta. Fragmentada. Dolorosa. Meus lábios estão secos, rachados. Minha língua pesa dentro da boca como se não fosse minha. Meus olhos ardem, como se houvesse areia sob as pálpebras. O corpo dói em lugares que eu nem sabia que existiam.
— Que dia é hoje? — Minha voz é um sussurro rouco, quase irreconhecível.
Jorge está sentado em uma poltrona ao lado da cama. Ele parece menor. Mais velho. Como se o peso dos últimos dias tivesse dobrado sua coluna. Ele segura minha mão e aperta devagar, com cuidado, como se eu pudesse quebrar.
— Você ficou sedada, querida. Três dias. Seu corpo… sua mente não estavam aguentando o choque.
Três dias. O número ecoa dentro de mim como uma sentença. Três dias em que o mundo continuou girando enquanto meus pais se tornavam silêncio. Enquanto o fogo esfriava. Enquanto tudo chegava ao fim. A culpa me invade como uma onda n***a, espessa, sufocante. Como eu pude dormir? Como eu pude descansar enquanto eles viravam lembrança? Enquanto seus corpos se tornavam cinzas e terra?
— Eles não vão voltar, não é? — Pergunto, e minha voz já não carrega esperança alguma. Apenas a necessidade c***l de ouvir a verdade. Lágrimas silenciosas deixam meus olhos, caem pelas laterais do meu rosto, perdem -se em meu cabelo.
Jorge n**a com a cabeça. Seus olhos se enchem de lágrimas, mas ele não chora. Ele também parece quebrado demais para isso.
— Lúcia, você precisa ser forte. Eu sei que parece impossível agora… que a dor é um buraco sem fundo… mas você precisa se apegar às lembranças boas. Ao amor que eles tinham por você. Esse amor é a única coisa que o fogo não pôde queimar.
— Dói tanto, tio … — O choro vem silencioso, pesado, um choro que rasga por dentro. — Dói aqui… como se tivessem arrancado meus pulmões. Eu não sei como respirar sem eles. Quem vai me dar boa noite? Quem vai me dizer que tudo vai ficar bem?
— Você não está sozinha — ele diz, puxando-me para um abraço. Eu enterro meu rosto em seu ombro, molhando seu paletó com lágrimas que já não têm controle. — Eu estou aqui. A Mônica está em casa preparando tudo para você. Nós vamos cuidar de você como se fosse nossa filha. Eu prometo, Lúcia. Eu prometo.
Eu o abraço como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira no meio do oceano. Mas a madeira é fria. Nada tem o calor do abraço do meu pai. Nada tem o perfume de rosas da minha mãe.
— Eu quero eles de volta… — soluço, o corpo tremendo em espasmos de agonia. — Eu daria tudo, tio. Tudo. Toda a herança, cada grão de soja, cada centavo… Eu ficaria na rua, passando fome… se eu pudesse ter mais cinco minutos com eles. Só cinco minutos para dizer adeus.
Jorge me aperta mais forte. Mas suas próximas palavras são o golpe final. A âncora que me puxa para a profundeza da realidade.
— O médico vai te dar alta em poucas horas, querida. Nós… nós precisamos ir. Temos que nos preparar. O enterro será hoje à tarde.
O enterro.
A palavra cai dentro de mim como o som de uma tampa de caixão se fechando. O fim definitivo. O instante em que o mundo confirmará que eles não existem mais — enquanto eu continuarei existindo, vazia, quebrada, respirando num mundo que perdeu toda a cor.
Fecho os olhos e choro até não restar lágrima alguma. Apenas o som seco do meu coração, insistindo em bater em um mundo que já não me pertence.
Aviso: Aqui temos o lobo vestido de cordeiro. Nem sempre quem está ao nosso lado nos quer bem.