Capitulo— Adeus à Carne e ao Osso
" Nenhum tipo de despedida é fácil, o adeus e o até breve são palavras que marcam. "
Lúcia
O cemitério se estende diante de mim como um mar infinito de granito cinza, frio, impessoal, c***l. Lápides alinhadas como soldados silenciosos, nomes gravados em pedra, datas que resumem vidas inteiras em dois traços. Acima de tudo isso, o céu — indecente, irônico — resolveu abrir. O sol brilha com força, um deboche dourado refletido nas superfícies polidas das tumbas. Não há nuvens carregadas, não há chuva, não há trovões. Não há respeito.
Eu odeio o sol.
Eu odeio esse céu azul limpo demais.
Eu odeio a vida por continuar como se nada tivesse acontecido.
O mundo deveria estar de luto!
O céu deveria estar pesado, cinza, sufocante. O vento deveria uivar, as árvores deveriam chorar comigo. Mas não. Tudo continua absurdamente normal. Pessoas respiram. Pássaros cantam. O dia insiste em existir, e isso me parece uma traição imperdoável.
Os corações vazios talvez não sintam o frio, mas o meu sente tudo. Meus lábios tremem de forma incontrolável, mesmo sob o calor do sol. É um tremor que não vem da temperatura, vem de dentro, de um lugar onde algo foi arrancado à força. Meu corpo está aqui, em pé, vestindo preto, mas minha alma parece estar em queda livre.
A multidão ao redor de mim é apenas um borrão disforme. Rostos sem nome, expressões de puro lamento. Parentes distantes que eu m*l reconheço. Amigos antigos dos meus pais. Sócios do meu pai, engravatados, respeitosos demais, calculistas demais. Todos murmuram palavras de conforto que não alcançam meu ouvido. “Meus sentimentos.” “Uma perda irreparável.” “Força.” " Seja forte" O tempo cura tudo"
Não, eu não quero ser forte, e não, o tempo não cura tudo. Quem fala isso não sabe do römbo que foi aberto no peitö de quem fica.
Força para quê?
Para continuar vivendo sem eles? Para saber que no meu aniversário ninguém vai invadir meu quarto com um bolinho pequeno cantando parabéns? Para não ter mais com quem armar a árvore de Natal e discutir se os biscoitos serão de nozes ou de gengibre? Para saber que quando eu chegar da escola, não irei sentir o cheiro do frango com quiabo que a minha mãe fazia tão bem.
Eu dispenso essa força, ela não me serve de nada.
O cheiro das flores e das velas é o que tenho; caixão fechado, não pude dar o último beijo, fiquei apenas com o gosto da despedida naquele maldito aeroporto.
Me sinto indigna, eu deveria estar com eles, não quis ir, por causa de um trabalho de química e o teste de física na terça-feira.
Eram só quatro dias e agora, será para sempre, enquanto eu viver.
Ergo meu olhar, sinto o peso dos olhares pousando sobre mim. Olhares que não são apenas de pena, mas de curiosidade. De avaliação. Eles me observam como quem analisa um ativo valioso. A filha única. A herdeira. A menina que acabou de perder tudo — e, ao mesmo tempo, carrega agora o peso de um império inteiro sobre os ombros frágeis.
Ninguém pergunta se eu consigo respirar.
Ninguém pergunta se eu quero continuar existindo.
O cheiro é sufocante. Perfumes dos que estão presentes, misturados ao odor de terra revolvida, úmida, viva. Um cheiro de fim. De encerramento. De algo que não pode ser desfeito. Cada inspiração parece arranhar meus pulmões, como se o ar também estivesse de luto.
Jorge e Mônica estão ao meu lado. As mãos deles firmes nos meus ombros, como âncoras tentando me manter neste mundo. Eles são meu escudo contra a multidão, contra os olhares, contra o colapso total. Mas nenhuma armadura, nenhum gesto de apoio, nenhuma presença — por mais amorosa que seja — consegue proteger meu coração do que está prestes a acontecer.
À minha frente, dois caixões.
Um grande.
Um menor.
Ambos lacrados.
Meu estômago se revira violentamente.
Por que fechados?
A pergunta ecoa na minha mente, mesmo sabendo a resposta. Eu vi o fogo. Eu ouvi as palavras que ninguém deveria ouvir. Carbonizado.
Meus olhos se recusam a se afastar dos caixões. Principalmente do maior. Onde agora jaz meu pai — o homem que o mundo chamava de rei. Um homem grande, forte, imponente. O homem que me levantava nos ombros quando eu era criança, que ria alto, que me fazia acreditar que nada de r**m poderia acontecer enquanto ele estivesse por perto. Agora, reduzido ao silêncio absoluto.
E o outro… o menor… é para ela.
Minha mãe.
A mulher que me ensinou a rir quando eu queria chorar. A mulher que cantava desafinado pela casa. Que segurava meu rosto entre as mãos e dizia que eu podia ser tudo o que quisesse. O caixão parece pequeno demais para conter tudo o que ela era.
O padre começam a recitar as últimas orações. Palavras solenes, repetidas milhares de vezes ao longo da história. Palavras que deveriam confortar. Mas para mim, elas soam vazias, distantes, ocas. Elas passam por mim sem deixar marcas. Eu não ouço nada além do meu próprio coração, batendo forte, irregular, como um tambor descompassado dentro do peito.
Então chega o momento.
O momento que eu vinha temendo desde o instante em que acordei hoje.
O momento que vai rasgar o último fio de esperança que ainda insiste em sobreviver dentro de mim.
Homens se aproximam dos caixões. As cordas são posicionadas. Esticadas. Preparadas.
Minha respiração trava na garganta. É como se o ar tivesse sido arrancado de mim. Meu corpo começa a tremer com tanta intensidade que meus dentes batem uns nos outros, produzindo um som seco, constante, denunciando meu desespero. Meus olhos saltam de um caixão para o outro, incapazes de escolher onde pousar.
Eles vão descer.
Eles vão descer…
E eu nunca mais vou vê-los.
— Não… — o sussurro escapa dos meus lábios quase sem som, frágil, implorante, inútil.
As cordas cedem.
Lentamente. Cruelmente. Inevitavelmente.
Os caixões começam a descer rumo ao buraco escuro na terra. Um vazio aberto, pronto para engolir tudo o que eu amo.
A terra.
Fria.
Úmida.
Escura.
É ali que eles vão ficar. Para sempre.
O horror se mistura à agonia num nó impossível de desatar dentro de mim. É a imagem mais c***l que meus olhos já testemunharam. Meu pai — o homem que sempre me levantou quando eu caía — agora está sendo abaixado. Minha mãe — que sempre me acolheu nos braços — agora está sendo entregue ao chão.
— PAI! MÃE!
O grito explode do fundo do meu peito, rasgando o silêncio solene do cemitério. É um som bruto, animal, desesperado. As pessoas se sobressaltam. Eu me desvencilho de Jorge com uma força que nem sei de onde vem e corro até a beira do túmulo.
Minhas mãos se estendem no vazio, tentando alcançar o impossível. Como se, se eu tocasse nos caixões, pudesse detê-los. Como se o amor fosse forte o bastante para vencer a gravidade. Minhas unhas afundam na terra úmida, sujando-se, mas eu não sinto dor física alguma.
— EU AMO VOCÊS! — grito, a voz falhando. — EU AMO VOCÊS DO FUNDO DA MINHA ALMA!
As palavras se quebram, se desfazem em soluços. O choro vem inteiro, devastador. As lágrimas escorrem sem controle, queimando meus olhos, borrando tudo. Ainda assim, eu não desvio o olhar. Eu preciso vê-los ir. Preciso testemunhar o fim, mesmo que isso me destrua por completo.
Vejo os caixões desaparecerem no fundo do buraco, engolidos pela escuridão. E então a terra começa a cobri-los. Pá após pá. Cada punhado é como um golpe direto no meu peito.
Jorge me alcança novamente, segura minha cintura com força, me puxa para trás antes que eu me jogue com eles. Meu corpo cede. Eu me agarro à camisa dele, amasso o tecido entre os dedos, como se isso fosse a única coisa que ainda me prende a este mundo.
— Não… não… não… — repito, num lamento patético, verdadeiro. Uma oração dirigida a um Deus que escolheu não responder.
A primeira pá de terra atinge o caixão da minha mãe com um baque surdo.
O som ecoa dentro de mim.
É o som da esperança sendo enterrada.
É o som da minha antiga vida sendo encerrada.
Eu grito outra vez, mas minha própria dor me engole. O som se perde no vazio que agora existe onde antes havia amor, segurança, pertencimento.
As pessoas começam a jogar flores. Rosas vermelhas. Brancas. Pétalas caem sobre a terra recém-fechada como lágrimas coloridas. Um gesto bonito. Insuficiente. Nenhuma flor, nenhuma oração, nenhum abraço é capaz de preencher o buraco que se abriu dentro de mim.
Meus pais se foram.
E com eles, uma parte essencial de mim foi enterrada para sempre.
Sinto novamente os olhares da multidão. Pena misturada à expectativa. Eles veem a menina órfã. Mas também veem a herdeira. A sucessora. A peça que agora precisa se mover no tabuleiro de interesses e ganância.
Mas tudo isso ainda não importa.
Agora, só existe o frio da terra no meu coração.
Só existe a dor esmagadora da ausência.
E a certeza brutal de que, a partir deste dia, eu nunca mais serei a mesma pessoa.