Capítulo : O Predador da Lombardia
" O que há de mais interessante na vida se não vivê-la?"
Marcelo Lombardo
O ar em Milão no auge da L’Ordine dell’Eleganza tem um cheiro peculiar: uma mistura inebriante de perfumes de quatrocentos euros a dose, fumaça de cigarros caros e a eletricidade estática da vaidade pura.
Estou no Palazzo Parigi, onde o mármore brilha sob lustres de cristal que custam mais que o PIB de uma pequena cidade.
O evento, batizado de "L’Oro di Milano", é o epicentro da elite. Aqui, o dinheiro não apenas fala; ele dita o ritmo da respiração de todos os presentes.
Eu observo o movimento com o distanciamento de quem nasceu dono do tabuleiro. Sou um filho da Lombardia, moldado pela sofisticação de gerações que acumularam fortuna enquanto outros ainda aprendiam a contar. Ajusto os punhos da minha camisa sob medida e sinto o peso do meu relógio — um objeto que serve menos para marcar as horas e mais para demarcar território.
Estou cercado por sangue do meu sangue. Meus primos — Lorenzo, Gavino e Gianluca — discutem a última aquisição de terras na Toscana com a seriedade de estadistas, mas meus pensamentos estão longe de vinhedos e colheitas. Meus olhos vagam pelo salão, mapeando o que realmente me interessa: a carne fresca disfarçada de alta costura.
— Marcelo, você não ouviu o que eu disse? — Lorenzo me cutuca, um sorriso cínico nos lábios. — A safra deste ano será lendária. O investimento retornará em triplo.
— Investimentos são como mulheres, Lorenzo — respondo, mantendo a voz baixa e aveludada, o tom de um homem que nunca precisa gritar para ser obedecido. — Se você focar apenas no retorno futuro, esquece de saborear o presente. Eu prefiro o consumo imediato.
Meus primos riem. Eles conhecem minha fama. Sou o solteiro convicto, o libertino que trata o prazer como uma ciência exata. Enquanto eles buscam herdeiros e alianças, eu busco a exaustão dos sentidos. É uma filosofia simples: o mundo é meu playground, e eu não pretendo deixar brinquedos para a próxima geração.
É quando Gaetano, o quarto primo e o mais hedonista do grupo, aproxima-se com o troféu da noite. Ele não caminha; ele desfila, escoltando duas visões que parecem ter sido esculpidas em luz e pecado.
— Senhores, por favor, parem de falar de negócios — Gaetano anuncia, interrompendo a monotonia financeira. — Gostaria de apresentar as estrelas da agência Aura Elite Management. Recém-chegadas de Nova York.
Meus olhos as devoram com a precisão de um cirurgião. Elas são a perfeição estética americana: altas, pernas que parecem não ter fim, cabelos loiros que brilham como ouro líquido e olhos tão claros que parecem transparentes.
— Marcelo — Gaetano me foca, sabendo exatamente o que está fazendo —, estas são Amber e Tiffany.
— É um prazer quase ilegal conhecê-las — digo, dando um passo à frente.
Amber, a que está à direita, possui uma beleza agressiva, lábios que parecem convidar a uma submissão imediata. Tiffany é mais etérea, mas o modo como ela inclina a cabeça mostra que sabe exatamente o valor de mercado de cada centímetro de sua pele.
— Milão é muito mais quente do que eu imaginava — Amber comenta, sua voz um sussurro rouco que atravessa o barulho da festa.
— Milão é gelada, Amber — respondo, fixando meu olhar no dela, deixando claro que não estou falando do clima. — O calor que você sente é o atrito da atenção que você atrai. Algumas pessoas simplesmente incendeiam o ambiente quando entram.
Ela sorri. Elas sempre sorriem. Eu vejo o brilho nos olhos delas — o "faro" para o poder. Elas sentem o cheiro da conta bancária, do jatinho particular, da influência que emana da minha linhagem. E eu sinto o cheiro delas: ambição e perfume caro. É uma transação justa. Elas querem o meu mundo; eu quero o corpo delas.
— E você, Tiffany? — dirijo-me à outra. — Parece mais reservada. Ou está apenas calculando se este evento vale o seu tempo?
— Eu prefiro observar — ela responde, passando a língua levemente pelos dentes superiores. — Dizem que os italianos são os melhores anfitriões.
— "Dizem" é um termo muito vago — aproximo-me o suficiente para que elas sintam meu calor. — Eu prefiro provar. E posso garantir que meu conceito de hospitalidade é... extensivo.
A conversa flui. Meus primos tentam se inserir, mas eu domino o espaço. Sou o alfa aqui, não por força bruta, mas por uma sofisticação que as intimida e as atrai simultaneamente. No fundo da minha mente, a engrenagem do libertino já está girando. Imagino-as juntas, o contraste da pele pálida contra os lençóis de seda n***a do meu penthouse. A imagem é vívida, pulsante.
De repente, outras duas modelos da mesma agência se juntam ao grupo, rindo e trazendo uma energia caótica. O círculo se expande, mas meu foco permanece em Amber e Tiffany. Elas são as joias da coroa.
O que me faz pensar em um convite que vem sempre atrelado a um contrato.
— Este evento está começando a ficar sufocante, não acham? — lanço a isca, ajustando meu relógio. — A champanhe aqui é aceitável, mas tenho uma reserva de Cristal na minha residência que realmente merece ser apreciada por quem entende de beleza.
Amber e Tiffany trocam um olhar rápido. É o código das caçadoras. Elas sabem que sou o prêmio maior da noite.
— Uma oferta tentadora, Marcelo — diz Tiffany, deslizando a mão suavemente pelo meu braço. — Mas o que nos garante que a noite continuará interessante?
— Minha palavra, Tiffany. E, como vocês descobrirão, eu sou um homem de muitos talentos e pouquíssimas inibições.
O convite é aceito. Elas acreditam que ganharam a noite. m*l sabem elas que, para entrar no meu santuário, as regras são ditadas por advogados antes de serem ditadas pelo desejo.
Enquanto caminhamos para a saída, meu motorista já está a postos. Mas antes, o ritual. Elas pecam pela falta de atenção aos detalhes. Acham que sou apenas mais um herdeiro t**o. Elas não veem o predador metódico.
Assim que entramos no Mercedes blindado, meu assistente pessoal, que nos aguardava, estende dois tablets.
— O que é isso? — Amber pergunta, arqueando uma sobrancelha.
— Uma formalidade para a paz de espírito de todos — explico, meu tom agora mais pragmático, quase frio. — Um Acordo de Confidencialidade (NDA). Ele garante que tudo o que acontecer entre quatro paredes — e as minhas — permaneça no reino do mito. Nada de fotos, nada de relatos em redes sociais, nada de nomes mencionados.
A discrição é o único luxo que não aceito negociar.
Elas hesitam por um segundo, mas o brilho do meu anel de família e a promessa de uma noite de excessos as fazem assinar digitalmente. Elas assinam sua própria mudez.
O carro desliza pelas ruas de Milão. Dentro, o silêncio é preenchido pela expectativa. Eu as observo. Elas são lindas, sim, mas são riscos potenciais. Meu advogado e amigo íntimo, Giorgio, sempre me avisou:
"Marcelo, o prazer é efêmero, mas um processo ou um escândalo de paternidade é eterno".
Eu segui os conselhos dele à risca. Fiz vasectomia há cinco anos, um segredo que guardo a sete chaves de minha família conservadora. Para eles, ainda sou o herdeiro que um dia produzirá o próximo conde ou empresário. m*l sabem que as sementes da linhagem estão congeladas em uma clínica na Suíça, por puro incentivo de Giorgio, caso eu mude de ideia em duas décadas. Por enquanto, sou um beco sem saída genético, e isso me traz uma paz indescritível.
Ainda assim, não sou negligente. O contrato é apenas a primeira barreira. A vida é feita de etapas para conhecer os meus lençóis também.
Ao chegarmos à cobertura, meu segurança privado aguarda no hall de entrada. O procedimento é padrão, embora para elas pareça um jogo de poder exótico.
— Por favor, senhoritas — peço com um sorriso galanteador que desarma qualquer resistência. — Celulares, relógios inteligentes e qualquer dispositivo eletrônico devem ser deixados no cofre da entrada. E, por questões de segurança mútua, minha equipe fará uma breve revista. Considerem isso o backstage de um desfile exclusivo.
Amber revira os olhos, mas entrega o iPhone de última geração. Tiffany parece excitada com o nível de controle. Elas são revistadas com detectores de metal sensíveis. Nenhuma câmera oculta, nenhum gravador. Agora elas são minhas, desarmadas e prontas.
Entramos na sala de estar, onde as luzes da cidade de Milão se espalham através das paredes de vidro do chão ao teto. O Duomo brilha ao longe, uma relíquia do passado observando meu presente libertino.
Sirvo a champanhe. Meus pensamentos estão em chamas. Sei que elas esperam o sexo mecânico de um homem rico comum. Elas não fazem ideia da minha resistência, da minha sede. Eu as quero simultaneamente, quero ver a perfeição das passarelas se desmanchar em suor e luxúria sob meu comando.
— Vocês são magníficas — murmuro, aproximando-me delas enquanto elas admiram a vista. — Mas roupas de grife escondem o que realmente me interessa.
Em Milão, todos vestem máscaras. Eu quero ver o que há por baixo da Aura Elite.
Toco o pescoço de Amber enquanto minha outra mão encontra a cintura de Tiffany. Elas se inclinam para mim. Eu sinto o poder da situação. Sou o solteiro que nunca será domado, o homem que congelou o futuro para viver o agora com uma intensidade que as assustará e as viciará.
— E as precauções, Marcelo? — Amber sussurra contra meu ouvido, já sentindo a pressão do meu desejo. — Você parece um homem que se cuida.
— Sempre — respondo, meus olhos brilhando com uma malícia sombria. — O prazer é absoluto, mas a segurança é inegociável. Camisinha sempre, e a certeza de que esta noite será gravada apenas em suas memórias... se é que vocês conseguirão processar tudo o que pretendo fazer.
Eu as guio para a suíte principal. O contrato está assinado, os telefones estão longe, e minha biologia está protegida. Não há herdeiros, não há provas, não há arrependimentos. Há apenas Marcelo e duas das mulheres mais cobiçadas do mundo, prestes a descobrir por que a Lombardia ainda produz os melhores predadores da Europa.
A noite em Milão está apenas começando, e eu pretendo terminá-la apenas quando o sol denunciar que o tempo do prazer deve, momentaneamente, dar lugar ao tempo do poder.