O Protocolo do Silêncio

1501 Palavras
Capítulo 2: O Protocolo do Silêncio " Uma pessoa precavida vale por duas" Marcelo A luz do sol de Milão não pede licença. Ela entra rasgando a suíte como uma testemunha inconveniente, escorrendo pelos vidros panorâmicos, refletindo no mármore claro, denunciando cada detalhe de uma noite que já cumpriu sua função. Para muitos homens, essa claridade seria um convite à ternura tardia, ao café na cama, ao prolongamento da fantasia. Para mim, é apenas o sinal inequívoco de que o ato acabou. E se acabou é hora de dispensar as beldades. Abro os olhos com a exatidão de quem não pode errar. Não há preguiça, nem confusão. Só cálculo frio. Amber e Tiffany dormem ao meu lado, ainda presas a um tipo de abandono que não me pertence. Os corpos delas se confundem nos lençóis de linho egípcio, pernas longas, pele branca , cabelos loiros espalhados como uma composição cuidadosamente imperfeita. Sequer suporto olhar por muito tempo, o desejo de ter um botão para apertar e enviá-las para Marte, é avassaladora. Aprendam rápido: homem quando quer uma tŕepada, ele quer apenas uma tŕepada e não ter companhia ao amanhecer. A soma e o resultado são simples, fødeu +gøzou= vazöu. Mas infelizmente tem aquelas que acham que depois da troca de fluídos o homem vai se jogar aos seus pés segurando uma aliança e soltando um pedido de casamento. Patético! Viro o rosto, a ansiedade de ter meu espaço livre da presença delas faz meus nervos vibrarem. As duas poderiam estar numa capa de revista, poderiam estar num editorial de qualquer revista sobre decadência sofisticada. Eu mesmo escolhi o cenário, a iluminação indireta, o vinho certo, a música certa. Nada foi espontâneo. Nunca é. Observo por alguns segundos o ambiente, minha mente repassa tudo o que aconteceu ontem— não por desejo, mas por inventário. Tudo em ordem. Nenhuma marca fora do lugar. Nenhuma conversa pendente. Nenhuma promessa solta no ar. Não sou louco a esse ponto. No entanto fui chamado de amor pelas duas, e essa palavras pode significar muito para ambas. Sempre acontece, depois é a encheção de säco: mensagens, telefonemas, surgir nas minhas páginas sociais deixando indícios como " oi, se lembra de mim?" Não, eu nunca lembro, faço questão de deletar, nome, rosto e gemidos do meu cérebro. A luxúria, quando saciada, revela sua natureza efêmera. Ela se dissolve rápido, deixando espaço para o que realmente me move: controle. O libertino se recolhe como um figurante dispensável; o estrategista assume o centro do palco. Levanto-me sem fazer ruído. Meu corpo responde bem — sempre responde. Não há excessos quando se sabe exatamente até onde ir. Disciplina não é abstinência; é domínio. Caminho até o banheiro de mármore e fecho a porta com cuidado, como se o silêncio também fosse parte do protocolo. A água quente cai sobre mim como um rito de purificação inverso. Não lava culpas — nunca tive esse luxo porque não às tenho—, mas desperta. Endireita o eixo. Enquanto o vapor sobe e se espalha pelos espelhos, minha mente retorna, inevitavelmente, a dois anos atrás, ao escritório de Giorgio Sant’Anna. Giorgio não é apenas meu advogado. Advogados são substituíveis. Giorgio é o homem que construiu as paredes invisíveis que me permitem viver como vivo. Ele guarda meus segredos com a mesma naturalidade com que outros guardam fotografias de família. Estávamos em seu escritório, de frente para a Galleria Vittorio Emanuele. Livros de couro ocupavam as estantes até o teto, e o cheiro de tabaco envelhecido impregnava o ar, como se o tempo tivesse ali um peso físico diferente. — Marcelo, você vive como se as consequências fossem um problema alheio — ele disse, cruzando as mãos sobre a mesa de mogno, o olhar firme demais para ser apenas uma advertência casual. — Mas basta uma mulher grávida ou um vídeo vazado para um império ruir mais rápido do que qualquer crise na bolsa. Eu observava a cidade pela janela, indiferente por fora, atento por dentro. — Eu sou cuidadoso, Giorgio. Ele sorriu sem humor. — Cuidado é o que se tem quando se atravessa a rua. O que você precisa é de um sistema. Foi ali que tudo começou. Primeiro, a vasectomia. Não como um gesto impulsivo, mas como um movimento tático. — Você não quer filhos — ele disse, com a objetividade de quem fala sobre um contrato. — E eu não quero lidar com testes de DNA oportunistas pelos próximos trinta anos. Inclinei a cabeça, prestes a rebater, quando ele levantou o dedo. — Mas você é em algum momento pode mudar de ideia, então congele o sêmen. Um seguro contra o arrependimento. Se um dia, daqui a vinte anos, decidir que quer um herdeiro, ele estará lá. Intocado. Sob seu controle. Em uma clínica na Suíça, fora do alcance de qualquer sentimentalismo. Aquilo me agradou. Não a ideia de um filho, mas a de manter a escolha exclusivamente minha. Mesmo convicto de que filhos não eram e não são para mim. — E as mulheres? — perguntei, finalmente voltando o olhar para ele. Giorgio abriu uma pasta e deslizou alguns papéis sobre a mesa. — O NDA que eu redigi não é um acordo comum. Ele redefine o conceito de confidencialidade. “Informação sensorial” — ele disse, quase com prazer intelectual. — Qualquer coisa vista, ouvida, percebida em sua presença. Um comentário sobre o cheiro do seu perfume, uma cicatriz no seu corpo, o layout da sua casa… tudo é sigiloso. — E se elas falarem? — A multa é maior do que qualquer cachê que a Aura Elite pagaria em uma década. Não é um acordo. É uma mordaça dourada. Naquele dia nasceu o Protocolo Marcelo. A vasectomia encerrou minha vulnerabilidade biológica. O contrato, minha vulnerabilidade social. A partir dali, o prazer seria livre, mas nunca caro. Giorgio mostrou sua eficiência e concedeu a mim mais liberdade e segurança. Não que depois disso tudo foi paz, algumas tentaram o golpe da barriga, mas seus rostos iam ao chão quando eu dizia : eu fiz vasectomia e nunca tŕanso com ninguém sem preservativo. Era interessante ver o desespero brilhando nos olhos das golpistas, que encheram o útero de um outro qualquer e teriam que custear com a vida que sua vägina em meses iram cuspir para o mundo. Volto ao presente. Enxugo o corpo, visto um robe de seda e deixo o banheiro. A suíte permanece exatamente como deixei. Amber começa a despertar, esfregando os olhos, o gesto automático de procurar o celular que sabe que não encontrará ali. — Bom dia, bellissima — digo, minha voz já moldada no tom certo, aquele meio macio, meio distante. — O café está servido no terraço. Ela sorri, ainda envolta na ilusão de i********e. — Que horas são? — Tiffany pergunta, sentando-se na cama e deixando o lençol escorregar de propósito. Ela ainda tenta jogar. Sempre tentam. — A hora em que o mundo começa a exigir a nossa presença — respondo, sorrindo de volta, um sorriso ensaiado que não alcança os olhos. — Meu motorista as levará em trinta minutos. Ele já está com os pertences de vocês. Há um segundo de silêncio. Pequeno, quase imperceptível. É ali que a fantasia morre. O café é rápido. Elegante. Impessoal. Elas falam sobre viagens, campanhas, insinuam possibilidades futuras. Eu escuto como quem aprecia música ambiente. Respondo com frases que parecem portas entreabertas, mas que, na verdade, são corredores sem saída. — Vamos ver — digo. — Quem sabe — sorrio. — Milão é pequena demais para coincidências.— Palavras vazias. Beijo as mãos delas com delicadeza estudada. Conduzo as duas até o elevador privado como um anfitrião impecável encerrando um evento exclusivo. No hall, meu segurança entrega os celulares dentro de envelopes lacrados. Elas os pegam quase com ansiedade, verificando instintivamente a tela. Nenhuma foto. Nenhuma gravação. Nenhuma prova. Não há vestígios. Nunca há. O elevador se fecha com um som baixo e definitivo. O tão aguardado fim chega e eu relaxo de imediato, säco vazio e cabeça pronta para começar o dia. A cobertura volta a ser minha. O silêncio não é vazio; é organizado. Pego meu telefone e vejo a mensagem de Giorgio. “Contratos arquivados. Assinaturas digitais válidas em jurisdição internacional. Aproveite o domingo.” orrio, de leve. A sensação de controle é mais viciante do que qualquer droga que já recusai experimentar. Caminho até a janela e observo o carro preto se afastando pela rua. Elas saem acreditando que conquistaram o homem mais cobiçado de Milão por uma noite. Eu fico com algo muito mais valioso: a certeza de que minha liberdade permanece intacta, protegida por leis, dinheiro e silêncio. Há quem me chame de cafajeste. Libertino. Frio. Talvez estejam certos. Mas ninguém constrói um império emocional vivendo à mercê do acaso. Eu não devo nada a ninguém além de mim mesmo. Sou Marcelo. Nascido na Lombardia. Herdeiro de fortunas, executor de escolhas e especialista em preservação. E o silêncio… ah, o silêncio sempre foi meu melhor investimento.
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