capitulo 19

1261 Palavras
Ela girou o corpo, os olhos faiscando, tentando recuperar a dignidade de patroa. — Cala a boca! Você não sabe o que diz! O Augusto é dez vezes o homem que você jamais será! Ele manda, você obedece! Ele é o Imperador, e você é só a sombra que eu mando e desmando! — Ela falou com a voz trêmula, tentando se convencer da própria mentira. — É mesmo? — dei um passo pra frente, encurralando ela contra a porta de entrada. — Então por que tu não me entregou ainda? Por que o teu corpo respondeu quando eu te prensei contra o carro? Tu é fiel ao trono, ou tem medo de descobrir que o teu "rei" é um nada perto do que eu posso te dar? Soltei as sacolas com um movimento brusco nas mãos dela, fazendo o papel de grife amassar. Dei um passo pra trás, limpando o canto da boca com o polegar, mantendo aquele semblante de mármore. — Amanhã tem mais, patroa. O Caçador nunca perde o rastro e o teu cheiro agora tá impregnado no meu banco e na minha mente. Tu pode tentar se esconder atrás desse título, mas entre eu e tu, a máscara caiu faz tempo. Tu gosta da brutalidade, Samira. Tu só tem vergonha de admitir. Ela não aguentou o desaforo. Virou as costas com um ódio que quase fazia o mármore do pátio rachar, os saltos estalando furiosos, e bateu a porta principal da mansão com um estrondo que ecoou por todo o setor. Fiquei ali, parado, vendo a madeira nobre separar o meu desejo do meu dever, mas sabendo que as paredes daquela casa não iam segurar o que tava por vir. — Caralho... — resmunguei baixo, ajeitando o fuzil no peito. O p*u ainda tava latejando na calça, pedindo por ela com uma fúria que quase me fazia perder a razão. Eu tava jogando um jogo onde o perdedor virava presunto, mas o prêmio valia cada bala. Caminhei de volta pra Land Rover sob o olhar curioso do Bochecha, que tava na contenção ali perto, fingindo que não tava prestando atenção. O moleque tava com uma cara de quem queria perguntar por que a primeira-dama entrou naquele estado de nervos, mas a aura de morte que eu tava exalando fez ele baixar os olhos na hora e fingir que tava limpando a Glock. — Que foi, Bochecha? Perdeu alguma coisa na minha cara ou tá querendo ir pro micro-ondas mais cedo hoje por falta de serviço? — rosnei, entrando no carro e batendo a porta. — Nada não, relíquia. Visão total... Tá tudo calmo por aqui — o vapor gaguejou, voltando a focar na ladeira, tremendo na base. Dei a partida no blindado e saí cantando pneu, o som do motor roncando alto pelas vielas do Turano. No meu peito, a lealdade ao comando que eu jurava ter tava sendo enterrada por uma sede de posse que não ia parar até eu ver a Samira de quatro, gemendo o meu nome e admitindo que o Imperador dela era um lixo perto do Caçador. Estacionei a Land Rover no pátio da boca principal, o motor estalando enquanto esfriava sob o sol impiedoso que batia na laje. Desci do carro com o sangue ainda fervendo, mas a minha cara tava lavada, o semblante de mármore de sempre. No crime, se tu vacila na expressão por um segundo, tu vira saudade. Empurrei a porta da salinha da boca e o cheiro de uísque, nicotina e mofo me atingiu em cheio. O Augusto tava jogado na poltrona de couro, com os olhos vermelhos, fritando na neurose de quem sabe que o poder é um vidro quebrado. Ele me encarou de um jeito diferente, uma desconfiança sombria que brilhava mais que o ouro no pescoço dele. O silêncio na sala durou tempo demais, aquele tipo de quietude que precede o estouro de uma granada. — Demorou, Caçador — ele soltou, a voz rouca, sem tirar os olhos da minha cara, procurando qualquer rastro de traição no meu suor. — O informe no rádio foi curto demais pro meu gosto, e tu sabe que eu não gosto de ficar no escuro. Que p***a aconteceu naquele asfalto que tu levou esse tempo todo pra trazer a minha mulher de volta pra casa? Caminhei até a mesa, encostei o fuzil na parede com calma e sustentei o olhar do Imperador sem piscar um milímetro. A mentira já tava lapidada na frieza da minha alma, pronta pra ser entregue. — Pneu furou na via expressa, Patrão — respondi, seco, a voz saindo como uma lixa. — Tive que trocar no meio da pista, com a exposição no talo e o risco de algum alemão passar de bonde e querer tentar a sorte. A prioridade total era manter a integridade da mercadoria e da primeira-dama, então fiz o procedimento no silêncio pra não chamar atenção desnecessária de quem não deve. A patroa tava impaciente, tu sabe como ela é, queria chegar logo pra ver as joias novas, mas a segurança dela veio primeiro. Augusto se inclinou pra frente, os dedos batendo ritmados na coronha da pistola de ouro em cima da mesa. O desgraçado tava procurando uma fresta na minha armadura, um sinal de que eu tava escondendo o jogo. — Pneu furado... — ele repetiu, quase como um deboche, soltando a fumaça do charuto na minha direção. — E a Samira? Como é que ela tava? O Douglas me deu um papo de que mulher desprezada é bicho perigoso e que ela tava com a cara fechada desde o baile. Ela reclamou de alguma coisa? Tentou algum desenrolo de asfalto ou te deu trabalho enquanto tu tava lá embaixo trocando o pneu? Tu sabe que ela é o meu patrimônio, Renan. O que é meu, ninguém toca nem com o pensamento. — Ela tava no lugar dela, Patrão. No banco de trás, sendo a patroa — menti com uma perfeição cirúrgica, sentindo o gosto do tapa que ela me deu ainda queimando na minha bochecha, uma lembrança doce do que tava por vir. — Primeira-dama não gasta saliva com segurança de elite. Ela fez as compras dela, eu fiz a minha escolta. Se ela tá satisfeita com o passeio ou não, aí é papo de vocês dois dentro do quarto. Meu serviço é o ferro na mão e o olho na pista pra ninguém encostar no que é teu. Ela é fiel ao comando, Augusto. Até demais pro meu gosto. Eu forcei um tom de tédio na voz, como se proteger a Samira fosse o trabalho mais maçante do mundo. Isso desarmou a paranoia dele. O Augusto relaxou um pouco os ombros, a desconfiança dando lugar à arrogância de sempre. Ele achava que me conhecia, achava que eu era um robô, um soldado sem desejo que só vivia pra guerra. m*l sabia ele que a "mercadoria" dele já tinha sido provada pelo meu olhar e marcada pela força do meu toque. — É por isso que tu é o meu melhor elemento, Renan. Tu é seco, não se emociona com raba de mulher e sabe o teu lugar na hierarquia. — Ele deu uma risada de quem se sente o dono do destino, uma risada que me deu vontade de vomitar. — A Samira é difícil de lidar, tem o sangue quente, mas com o Caçador na bota, eu durmo tranquilo. Pode ir descansar, amanhã o plantão é cedo. E fica de olho... o Douglas tá muito interessado na vida alheia ultimamente, e gente curiosa morre rápido.
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