Capítulo 19

1090 Palavras
Eu não consegui dormir. Não foi insónia comum, dessas que vêm com pensamentos dispersos e cansaço acumulado. Foi o corpo em alerta, como se ainda estivesse à espera de alguma coisa acontecer. Cada vez que fechava os olhos, a noite regressava inteira. O toque. O silêncio pesado. A forma como ele tinha saído do quarto depois, nu, sem uma única palavra, como se o que tinha acontecido não precisasse de ser explicado nem repetido. Levantei-me quando percebi que ficar deitada era inútil. A mansão estava silenciosa de um modo quase agressivo, aquele silêncio limpo demais, disciplinado demais, que não pertence a casas habitadas, mas a espaços de poder. Desci as escadas devagar, descalça, guiada apenas pela luz suave que vinha da cozinha. Peguei num copo, enchi-o de água, e fiquei ali parada por um instante, com as mãos frias em volta do vidro, tentando convencer o corpo a abrandar. Foi ali, encostada à ilha de mármore, que a constatação me atingiu com uma clareza que eu detestei. Eu sentia-me mais sozinha ali… agora… do que me sentira quando o meu casamento acabou. O pensamento veio cru, sem aviso, e fez-me fechar os olhos de imediato, como se isso pudesse apagá-lo. Cinco anos com Ricardo. Cinco anos de um casamento que se foi esvaziando aos poucos, com ausências disfarçadas de rotina, com silêncios que não doíam porque já eram conhecidos. Eu tinha estado sozinha naquele casamento muitas vezes. Sentada ao lado dele em jantares, em camas partilhadas, em casas que nunca foram verdadeiramente minhas. Mas aquilo era diferente. Aqui, a solidão não vinha da indiferença. Vinha do impacto. Da presença esmagadora que tinha desaparecido de repente, deixando um vazio que o corpo reconhecia antes da razão aceitar. E eu odiei-me por perceber isso. Odiei o facto de a ausência de Matteo pesar mais do que a perda de um marido com quem partilhei meia década. Não fazia sentido. E, ainda assim, era verdade. Horas depois, já de manhã, foi Elena quem confirmou, com a mesma neutralidade com que se anunciam rotinas. Elena era uma das empregadas da casa. Não a mais antiga, nem a mais próxima dele, mas a única que não falava comigo como se eu fosse um objeto frágil ou um erro administrativo. Não invadia, não perguntava, mas também não evitava o olhar. Havia nela uma acessibilidade discreta, quase cuidadosa, que contrastava com a disciplina rígida da mansão. — O Don partiu esta manhã. Deve ausentar-se por alguns dias. Alguns dias. Quatro, como vim a saber depois. Os primeiros dois foram os piores. A casa parecia maior sem ele. Não mais vazia, apenas diferente. Como se a ausência dele tivesse criado um eco invisível nos corredores, uma tensão que não desaparecia, apenas mudava de forma. Eu andava pelos espaços sem destino definido, sentava-me em cadeiras que não eram minhas, tocava superfícies frias que pareciam recusar a minha presença. E, por mais que tentasse negar, o pensamento regressava sempre ao mesmo ponto. Com Ricardo, a solidão tinha sido uma erosão lenta. Aqui, era um impacto súbito. Foi no terceiro dia que Elena voltou, desta vez com um objeto pequeno na mão. — O Don pediu que lhe entregasse isto. Era um telemóvel. Simples. Sem capa. Sem explicações. Não perguntou se eu queria. Não era essa a função do gesto. Mais tarde, já sozinha no quarto, o ecrã acendeu pela primeira vez. “Como está?” Li a mensagem várias vezes antes de responder. Não porque fosse difícil. Mas porque percebi, com uma clareza desconfortável, que qualquer palavra a mais seria um convite. E eu não queria convidar nada. Respondi apenas: “Bem.” Horas depois, outra mensagem. “Talvez regresse amanhã.” O talvez não era indecisão. Era aviso. Respondi: “Ok.” E foi assim durante os quatro dias. Mensagens curtas. Frias. Funcionais. Nenhuma pergunta. Nenhuma explicação. Nenhuma referência à noite anterior, ao corpo, ao que tinha mudado entre nós sem ser nomeado. Eu respondia sempre da mesma forma. Sim. Não. Ok. O silêncio entre as mensagens era mais pesado do que as palavras. Foi nesse intervalo que comecei a escrever. Não era planeado. Não era ambicioso. Foi quase um reflexo. Encontrei um caderno numa das gavetas do quarto, esquecido, com folhas ainda intactas. Sentei-me na pequena secretária junto à janela, com vista para os jardins perfeitamente aparados, e comecei a escrever histórias curtas. Simples. Histórias infantis. Uma menina que não cabia nos sapatos que lhe davam. Um gato que se perdia porque ninguém lhe perguntava para onde queria ir. Um castelo onde todas as portas estavam trancadas, exceto uma, tão pequena que quase ninguém a via. Não escrevia para publicar. Nem para mostrar. Escrevia para respirar. Durante horas, eu deixava o mundo dele suspenso. Não pensava em contratos, em posse, em regras não ditas. Pensava em palavras que não feriam. Em finais que não exigiam rendição. Em personagens que escolhiam. Elena nunca comentou. Limitava-se a deixar chá quente perto de mim, a fechar a porta com cuidado quando eu estava concentrada, como se tivesse entendido que aquele silêncio era diferente do resto da casa. No quarto dia, já à noite, a mensagem chegou mais tarde. “Chego amanhã.” Sem talvez. Olhei para o ecrã por muito tempo antes de responder. “Ok.” Foi só depois de enviar que percebi que o corpo tinha reagido antes de mim. Um aperto leve no estômago. Um calor breve, indesejado. O reconhecimento de algo que eu não tinha pedido, mas que já estava instalado. Fechei o caderno. Arrumei-o no fundo da gaveta. A mansão continuava silenciosa, mas já não era a mesma. E eu também não. Durante quatro dias, estive sozinha. Deitei-me tarde, não porque estivesse cansada, mas porque ficar acordada exigia menos esforço do que tentar adormecer. A mansão fazia mais barulho vazia. Não sons reais. Espaço. Eco. A consciência constante de que ninguém pisaria o corredor de madrugada, de que nenhuma porta se abriria sem aviso. O pensamento irritou-me. Eu tinha sobrevivido a cinco anos de um casamento que me asfixiava e, ainda assim, aquela ausência parecia mais pesada. Detestei admitir isso, mesmo em silêncio. Não era saudade. Era desorientação. Com Ricardo, eu sabia exatamente o que esperar. Com Matteo, até o vazio tinha intenção. Virei-me na cama, os olhos abertos no escuro, decidida a não lhe dar esse poder. Nem em pensamento. E, contra tudo o que fazia sentido, percebi que a solidão mais perigosa não era a que vinha da ausência de amor. Era a que nascia da ausência de alguém que nunca me prometera nenhum.
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