Capítulo 20

1280 Palavras
As tábuas do chão rangeram atrás de mim. Eu não me virei. — Bom dia. A voz dele. Sem pedido de desculpas. Sem explicação. Apenas aquela calma lisa, polida, que fazia meus dentes doerem. Mantive os olhos na janela, na luz cinza e fina empurrando contra o vidro. Quatro dias. O silêncio tinha sido uma presença física naquela casa, um peso. A voz dele agora parecia mais pesada ainda. — Matteo — disse. O nome era uma pedra na minha boca. Ele se aproximou. Eu senti o ar mudar, fresco e limpo do lado de fora, misturando-se com o cheiro quente e masculino dele, café, couro, algo metálico. Ele parou logo atrás do sofá onde eu estava sentada. Sem tocar. Ainda não. — Espero que tenha ficado confortável — disse. Um teste. — Fiquei. A mentira saiu fácil. Conforto não tinha nada a ver com aquilo. Era sobre espaço, silêncio, o luxo de ser deixada em paz. Um luxo que ele tinha me negado, depois concedido, e agora estava ali esperando que eu o agradecesse por isso. Os dedos dele roçaram a parte de trás do meu pescoço. Um choque, agudo e indesejado. Eu estremeci. Só um espasmo muscular, mínimo, mas ele viu. O toque permaneceu, o polegar pressionando a linha tensa do meu ombro. — Você está tensa. — Estou. Uma constatação plana. Virei a cabeça então, só o suficiente para vê-lo pelo canto do olho. Ele estava vestido como sempre, calça cinza-escura impecável, camisa branca aberta no colarinho. Parecia descansado. Intocado. A raiva em mim era limpa, quente, afiada como vidro. Eu queria quebrar aquela calma. A outra mão dele veio ao meu maxilar, forçando meu rosto a se virar. O aperto era firme, a pressão no limite da dor. Os olhos dele vasculharam os meus, procurando o quê? Medo? Submissão? Tudo o que encontraria era a raiva, clara, exposta. — Não — eu disse. A palavra foi baixa, mas cortou o silêncio. O sorriso dele foi fino. Cruel. — Não o quê, Ivy? Não te tocar? Não falar com você? Me diga o que você quer. Eu não respondi. Apenas sustentei o olhar. Deixei o silêncio se esticar, tenso, vibrando. O polegar dele deslizou pela minha linha do maxilar num ritmo lento, possessivo. O controle era um ato. Eu via agora. Uma máscara cuidadosa sobre algo revolto. Aqueles quatro dias não tinham sido sobre me ensinar uma lição. Tinham sido sobre ele se segurar. Ele se inclinou, o rosto muito perto do meu. O hálito cheirava a menta e café. — Você sentiu minha falta. Outra afirmação. Outro teste. Eu não lhe dei a satisfação de responder. Em vez disso, inclinei-me um centímetro à frente, fechando o último espaço entre nossas bocas. Não era um convite. Era um desafio. Meu olhar não vacilou. Ele não me beijou. Apenas me manteve ali, nossos lábios a um sopro de distância. O ar nos meus pulmões ficou pesado, espesso. Os dedos dele apertaram meu maxilar. A máscara escorregava. Eu vi um lampejo de algo cru nos olhos dele. Algo que parecia, de forma alarmante, desespero. Então ele empurrou. Com força. Caí contra as almofadas do sofá, o ar escapando dos meus pulmões. Ele estava sobre mim em um segundo, um joelho no sofá entre minhas pernas, as mãos prendendo meus pulsos contra a almofada acima da minha cabeça. O peso dele era sólido, inamovível. — É isso que você quer? — rosnou, a voz áspera, perdendo o polimento. A raiva agora transbordava. Eu não lutei. Apenas olhei para ele, o peito subindo e descendo. O desejo estava ali, um pulso traiçoeiro baixo no ventre, quente e vergonhoso. Mas a raiva era mais quente ainda. — É isso que você quer, Matteo? Ele respondeu não com palavras, mas com um beijo esmagador. Não era prazer. Era marcação. Reivindicação. Os dentes dele rasparam meu lábio inferior, e eu senti gosto de sangue, metálico e afiado. Beijei de volta com a mesma força, mordendo, minhas mãos ainda presas no aperto dele. Senti o corpo dele endurecer, um som abafado na garganta. Ele soltou meus pulsos apenas para agarrar a barra da minha camisola, puxando-a para cima das coxas, do ventre. Os movimentos eram bruscos, descoordenados. O controle tinha se despedaçado. Ele empurrou o tecido até a altura do meu peito, me deixando exposta ao ar frio da manhã. Os olhos dele percorreram meu corpo, escuros, famintos. Então ele estava no chão, ajoelhado diante do sofá. As mãos se fecharam em volta das minhas coxas, me puxando até a borda, me mantendo aberta. O hálito quente tocou minha pele um segundo antes da boca dele me atingir. Sem provocação. Sem espera. Apenas pressão dura, insistente, a língua trabalhando em mim num ritmo desesperado, quase punitivo. Minhas costas se arquearam, um gemido arrancado da minha garganta. O prazer foi imediato, cortante, avassalador. Enrosquei os dedos no cabelo dele, puxando, não guiando, apenas me segurando. O aperto nas minhas coxas se intensificou, quase doloroso, um contraponto silencioso ao movimento implacável da boca dele. O orgasmo me atingiu como um golpe físico, uma onda intensa que me deixou trêmula, sem ar. Ele não esperou que eu me recuperasse. Num movimento fluido, já estava de pé e sobre mim, empurrando a calça para baixo o suficiente. Ele entrou em mim com uma única investida dura, profunda. Sem cuidado. Sem suavidade. Apenas uma necessidade crua, primal. Um grito curto escapou dos meus lábios, mistura de dor e choque. Ele ficou imóvel por um instante, o corpo tenso sobre o meu, a testa encostada na minha. Nossos hálitos se misturavam, ásperos. Os olhos dele estavam abertos, presos nos meus. Eu vi tudo ali, a fúria, o medo, a necessidade desesperada de apagar os últimos dias, de reafirmar controle, de sentir qualquer coisa além da precariedade do próprio domínio sobre si. Ele começou a se mover, investidas profundas, punitivas, roubando meu fôlego a cada movimento. Minha raiva ainda estava ali, um fio incandescente sob as ondas de prazer, mas agora vinha acompanhada de uma clareza estranha, aterradora. Eu estava vendo ele. De verdade. E ele estava permitindo. Enrolei as pernas na cintura dele, encontrando cada investida, as unhas cravando nas costas dele por cima da camisa. Eu não era apenas receptáculo da raiva dele, da necessidade dele. Eu devolvia tudo. Igualava a intensidade. A desordem. O desespero. O poder não mudava de mãos, mas se distorcia, eu me tornava um espelho, refletindo as partes quebradas que ele escondia com tanto esforço. O ritmo dele acelerou, a respiração cada vez mais irregular, os movimentos perdendo precisão. Os olhos continuavam presos nos meus, abertos demais, quase vulneráveis. A máscara tinha caído por completo. Aquilo não era o Matteo controlado. Era outra coisa. Algo fraturado. — Ivy — ele arfou, a voz falhando. O corpo dele estremeceu. Os movimentos vacilaram. Ele desviou o olhar por um segundo, um lampejo de pânico atravessando os olhos, antes de me encarar de novo. Abriu a boca para falar. Algo cru, sem roteiro, à beira de escapar. Algo que soava como “eu não consigo” ou “me desculpa” ou talvez algo pior. Algo mais verdadeiro. O maxilar dele se fechou. As palavras morreram. Ele esmagou a boca contra a minha, engolindo o que quer que estivesse prestes a sair. O beijo foi brutal, uma forma de me silenciar tanto quanto de se silenciar. Ele investiu em mim uma última vez, profunda, trêmula, uma onda final de prazer me atravessando, e então desabou sobre mim, o corpo pesado, imóvel, o rosto enterrado na curva do meu pescoço. O silêncio que veio depois era mais pesado do que antes. Cheio de tudo o que ele não disse.
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