O almoço tinha terminado sem despedidas verdadeiras.
Levantei-me da mesa com o mesmo sorriso controlado com que me tinha sentado, a coluna direita, o queixo firme, como se nada do que tinha sido dito, insinuado ou atirado à minha direção tivesse realmente entrado debaixo da pele. As mulheres continuaram a falar entre si assim que dei dois passos para trás, vozes baixas demais para serem educadas, altas demais para serem inocentes. Não precisei ouvir as palavras para saber quais eram. Já as tinha ouvido antes. Noutras mesas. Noutras salas. Noutras versões da mesma humilhação.
A noiva do Ricardo não olhou para trás.
Isso foi quase pior.
O motorista já me esperava à porta, postura rígida, profissional, como se aquele fosse apenas mais um compromisso do dia. Entrei no carro sem hesitar, fechando a porta atrás de mim com cuidado, como se qualquer gesto brusco fosse uma confissão de fraqueza. O interior cheirava a couro e limpeza recente. Um espaço neutro. Seguro.
Ou pelo menos era suposto ser.
O carro arrancou suavemente, integrando-se no trânsito sem chamar atenção. Apoiei a cabeça no encosto por um segundo, fechando os olhos apenas o tempo suficiente para permitir que o corpo começasse a sentir o que a mente tinha recusado durante toda a refeição. O aperto no estômago. A tensão nos ombros. A sensação persistente de estar a ser observada mesmo agora, longe daquelas mesas, daquelas bocas sorridentes.
Foi então que notei o primeiro detalhe fora do lugar.
O trajeto.
Não era o habitual.
Abri os olhos e observei pela janela. Ruas mais estreitas. Menos movimento. Prédios antigos, fachadas gastas, sombras longas projetadas pelo sol da tarde. O carro manteve a velocidade constante, mas algo na postura do motorista mudou. Os ombros estavam mais tensos. As mãos no volante, firmes demais.
— Está tudo bem — perguntei, tentando manter a voz neutra.
Ele não respondeu de imediato.
— Apenas um desvio — disse por fim. — Trânsito à frente.
Assenti, mas o nó no estômago apertou-se mais um pouco. Olhei pelo retrovisor interno e vi o segundo segurança no banco da frente virar ligeiramente a cabeça, os olhos atentos demais à rua atrás de nós.
Foi aí que vi o carro preto.
Apareceu no fim da rua, sem pressa, mantendo a distância exata para não parecer perseguição. Vidros escuros. Sem matrícula visível àquela distância.
O meu coração acelerou.
— Estamos a ser seguidos — disse, baixo.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado.
— Sim — respondeu o segurança ao meu lado, sem dramatizar. A mão dele já se movia discretamente em direção ao comunicador preso ao cinto. — Mantenha-se calma.
O carro preto aproximou-se um pouco mais.
Depois outro surgiu à frente, cruzando-se ligeiramente, forçando o nosso a reduzir a velocidade. O movimento foi rápido. Coordenado. Demasiado limpo para ser improvisado.
— Merda — murmurou o motorista.
Tudo aconteceu ao mesmo tempo.
Um impacto seco na traseira.
O mundo perdeu o eixo.
O som de metal a ranger. O carro desviou-se bruscamente para a direita, pneus a chiar, o meu corpo atirado contra o banco apesar do cinto. O mundo inclinou-se por um segundo violento antes de estabilizar.
— Cabeça baixa — ordenou o segurança ao meu lado, empurrando-me para baixo com o antebraço.
Vidro partiu-se.
Ouvi gritos. Vozes masculinas. Passos apressados no asfalto.
O cheiro a pólvora atingiu-me antes do som do primeiro disparo.
Não gritei.
O corpo simplesmente entrou em modo de sobrevivência.
O segurança da frente abriu a porta e saiu num movimento rápido, fluido, arma em punho. O segundo seguiu-o pelo outro lado. Disparos ecoaram na rua estreita, altos, ensurdecedores. Fechei os olhos por reflexo, as mãos tapando a cabeça, o coração a bater tão forte que parecia querer sair do peito.
Houve um grito. Depois outro.
O tempo perdeu forma.
Segundos ou minutos. Não soube dizer.
Senti o carro estremecer novamente quando algo pesado embateu contra a lateral. O vidro da frente estalou, mas não cedeu totalmente. O cheiro a borracha queimada misturou-se com o ar quente da tarde.
— Agora — disse alguém, muito perto de mim.
Uma mão forte agarrou-me pelo braço e puxou-me para fora do carro. Tropecei, quase caí, mas fui sustentada antes de tocar no chão. Os meus pés tocaram o asfalto quente, o vestido sujo de pó, o coração a disparar.
Vi um dos homens no chão.
Não se mexia.
O outro estava caído alguns metros à frente, sangue a espalhar-se pelo pavimento.
O meu estômago revirou-se.
— Não olhe — disse o segurança, colocando-se à minha frente e bloqueando a visão. — Anda.
Fui conduzida rapidamente para outro carro estacionado mais atrás, discreto, como se sempre tivesse estado ali à espera. As portas abriram-se quase em simultâneo. Fui empurrada para o banco de trás, o corpo ainda a tremer, os ouvidos a zumbir.
Um dos seguranças entrou comigo. O outro assumiu o volante.
O terceiro ficou de fora apenas um instante, recolhendo algo do chão, falando rapidamente ao comunicador.
— Ameaças eliminadas — disse, sem emoção. — Temos sirenes.
Como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.
— Sirenes — repetiu o que estava comigo, levando a mão ao auricular. — Temos de sair agora.
O carro arrancou com força.
Olhei para trás pelo vidro traseiro a tempo de ver luzes azuis a refletirem-se nos prédios ao longe, aproximando-se rápido demais.
— A polícia — murmurei.
— Sim — respondeu ele. — E não queremos que a encontrem ali.
— Porquê — perguntei, a voz a falhar finalmente.
Ele olhou-me por um segundo curto.
— Porque a versão oficial ainda não está pronta.
A rua ficou para trás. Depois outra. Depois outra.
As sirenes ficaram mais distantes até desaparecerem por completo.
Encostei a testa ao vidro frio, o corpo finalmente a ceder ao tremor atrasado, à descarga violenta de adrenalina que me deixava vazia, oca por dentro. As mãos tremiam. A respiração vinha em rajadas curtas, irregulares.
Tentaram raptar-me.
Não foi aviso.
Não foi intimidação.
Foi uma tentativa real.
E alguém tinha sido morto ali, a poucos metros de mim, para impedir que isso acontecesse.
Fechei os olhos com força.
Não chorei.
Mas soube, com uma clareza aterradora, que a minha vida tinha acabado de mudar outra vez.
E que, gostasse eu ou não, já não era apenas uma mulher humilhada num almoço elegante.
Era um alvo.
E isso significava que nada, a partir daquele momento, voltaria a ser simples.