Capítulo 15

1056 Palavras
Acordei com o corpo pesado e a mente demasiado desperta, como se tivesse dormido apenas o suficiente para o corpo descansar, mas não o bastante para que a memória se apagasse. Durante alguns segundos permaneci imóvel, de olhos abertos, encarando o teto alto do quarto, enquanto imagens da noite anterior regressavam sem pedir licença. Não fragmentadas. Não confusas. Claras demais. Lembrei-me do peso dele sobre mim, do silêncio carregado depois, do modo como o quarto tinha ficado suspenso naquele instante que não era ternura nem promessa. E, sobretudo, lembrei-me do fim. De Matteo a afastar-se da cama com a mesma naturalidade com que tinha tomado tudo antes, do lençol a deslizar do corpo dele quando se levantou, completamente nu, sem qualquer pressa em cobrir-se, sem olhar para trás, como se a nudez fosse apenas mais uma extensão do poder que exercia sem esforço. Caminhou até à porta assim, absoluto, sem pudor, sem despedida, deixando-me sozinha no meio da cama, ainda quente, ainda presa ao que tinha acontecido, enquanto ele saía como quem encerra um assunto resolvido. Foi essa imagem que me acompanhou quando a porta do quarto se abriu. — Senhorita Ivy. A voz da empregada soou baixa, contida, respeitosa demais para aquela hora. Virei o rosto lentamente na direção dela, sentindo o corpo reclamar em pequenas tensões que não eram dor, mas lembrança. — O Don mandou avisar que deve arranjar-se — disse. — Hoje há um almoço. Sentei-me de imediato. — Um almoço — repeti, sentindo o estômago apertar. — Apenas de senhoras — acrescentou, como se tivesse sido instruída a esclarecer isso. — Mulheres do círculo social. Ele não estará presente. Isso não aliviou. Tornou tudo pior. — Onde ele está? — perguntei. — No escritório. Com o consigliere. Levantei-me sem responder mais nada. Vesti-me à pressa, ainda com o corpo a reagir à lembrança da noite, e saí do quarto com passos decididos, a raiva a organizar-se dentro de mim com uma clareza fria. Desci as escadas sem anunciar, atravessei corredores silenciosos e empurrei a porta do escritório sem bater. Matteo estava de pé junto à secretária, camisa escura arregaçada até aos antebraços, postura relaxada, como se o mundo estivesse exatamente onde ele o tinha deixado. À frente dele, o consigliere mantinha-se rígido, interrompido no meio de uma frase. — Precisamos falar — disse eu. O consigliere olhou para Matteo. — Saia — disse Matteo, sem sequer virar o rosto. O homem recolheu os papéis e saiu. A porta fechou-se. O silêncio ficou. Avancei dois passos. — Por que me manda almoçar com aquelas mulheres? — perguntei. — Sozinha. Como se eu tivesse de me apresentar a um tribunal que eu não escolhi. Matteo inclinou ligeiramente a cabeça. — Porque precisa ir. — Eu não sou sua esposa — atirei. — Não sou sua representante. Então por que me coloca naquela mesa? Ele aproximou-se devagar, parando perto o suficiente para que eu sentisse a presença dele, firme, controlada. — Porque eu decido onde você se senta — respondeu. — E com quem. — Isso não lhe dá o direito de me expor — repliquei. — Não lhe dá o direito de me usar como símbolo. O olhar dele escureceu um tom. — Não estou a expô-la — disse. — Estou a marcá-la. — Eu não pertenço a ninguém — respondi, firme. Matteo aproximou-se apenas mais um centímetro. — Ontem à noite não parecia acreditar nisso. A frase ficou suspensa entre nós, e antes que eu respondesse, ele levantou a mão e passou os dedos de leve pelo meu antebraço, um toque quase distraído, demasiado curto para ser necessário e demasiado preciso para ser inocente. O arrepio subiu imediato, traidor, e ele sentiu. O canto da boca dele curvou-se num sorriso mínimo, satisfeito, como se tivesse acabado de confirmar algo que já sabia. — Não faça isso — disse eu, sem recuar, embora o corpo tivesse reagido antes da vontade. Ele não retirou a mão de imediato. Deslizou o polegar lentamente, desenhando uma linha invisível na minha pele, e inclinou-se o suficiente para falar baixo, perto demais. — Fazer o quê — murmurou. — Lembrá-la de que reage. Soltou uma breve risada, quase silenciosa, mais um sopro de humor do que um riso real, e afastou a mão com a mesma calma com que a tinha colocado. — Ontem à noite não lhe deu poder sobre o meu dia — respondi, reunindo forças. Ele apoiou a mão na secretária ao meu lado, encurralando-me sem tocar. — Dá-lhe posição — corrigiu. — E hoje vai aprender como funciona. Sustentou o meu olhar por um instante mais longo, os dedos batendo uma única vez na madeira, como se estivesse a conter algo. Havia ali uma tensão controlada à força, a mesma que eu tinha sentido no carro, agora concentrada em mim. — É só um almoço — acrescentou. — De mulheres. Observe. Ouça. E não se esqueça de uma coisa. Sustentou o meu olhar. — Mesmo quando não estou presente, continua a falar em meu nome. Aproximou-se mais uma última vez, apenas o suficiente para que o ar entre nós se tornasse denso, e sorriu de novo, leve, perigoso. — E elas vão perceber isso antes mesmo de você dizer uma palavra. Deu-me as costas. — Arrume-se — concluiu. — Tem vinte minutos. Fiquei ali por um instante a mais, o coração acelerado, a pele ainda a arder onde ele me tinha tocado, consciente de que aquele almoço não era um convite social nem um castigo simples. Era um teste. E Matteo tinha acabado de provar, com um único toque e um sorriso contido, que continuava a comandar a situação mesmo quando eu tentava enfrentá-lo de frente. Fiquei ali mais alguns segundos, os dedos fechados ao longo do corpo, tentando recuperar um controlo que sabia ser apenas aparente. O escritório ainda parecia carregado da presença dele, como se o ar tivesse sido moldado à sua passagem. Inspirei fundo, uma vez, duas, sentindo o coração bater rápido demais para uma simples discussão. Não era medo. Também não era desejo puro. Era a consciência desconfortável de que Matteo não precisava levantar a voz nem impor-se fisicamente para me desestabilizar. Bastava um toque breve. Um sorriso contido. Uma ordem dita com calma. E eu já estava a reagir, mesmo quando jurava a mim mesma que não o faria.
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