Pirenópolis, finalmente. Eu olhava pela janela do carro do meu pai como criança que saía mais uma vez de Goiânia para a cidade interiorana olhando tudo com aquele olhar curioso. Estava tudo tão mudado. Tudo um pouco mais moderno. Então lembrei do meu carro.
- Pai, um caminhão trará meu carro. É uma caminhonete nova.
- Tá certo, minha filha! Ele aguenta estrada?
- É uma Toro, pai, se não aguentar, eu mando devolver.
Nós gargalhamos e conversamos muito até chegar a Pirenópolis. Ao passarmos pela fazenda Rancho do Toco, vi um homem muito bonito, sem camisa, consertando uma caminhonete na estrada. Eu senti o carro parar e vi meu pai descer para ir conversar com o rapaz. Não ouvi nada.- Quem é, mãe?
- Ah o Eric, filho do Narciso, lembra dele?
- O nosso ex-inimigo? - Perguntei rindo. - Ele é o mais velho?
Eu perguntava analisando o homem de cima a baixo. Ele vestia uma calça jeans bem apertada e botas, mas estava sem camisa, com um chapéu cowboy na cabeça.
- Ele é o do meio, igual você, não deve se lembrar dele.
- Não lembro mesmo. - Analisei de cima a baixo sentindo que havia algo nele que chamava minha atenção. A barba? A pele morena que brilhava de suor sob o Sol? Aquilo me pareceu tão piegas. Eu tinha olhar de escritora e já pensava coisas sobre ele.
Tomei uma decisão, não olhar mais e então me virei para a frente.
- Seu pai sempre tem que perguntar o que houve, isso me irrita.
- Já são melhores amigos?
- É, ele cuida dos cavalos que seu pai comprou há um ano.
- Cavalos? Meu pai?
- Sim, só para distração, mas como não conhecia, comprou um mangalarga chucro que está dando trabalho.
- Ah sim... - Olhei as unhas - Pai adora fazer essas coisas.
O retrovisor estava bem a minha frente e então a curiosidade foi maior. Dei uma olhadela por ele para ver o homem que eu cheguei a conhecer muito pouco quando era adolescente. Em minha mente, já fazia ninho cada ideia de história sobre aquele homem que eu precisava parar imediatamente pois queria escrever algo sobre as histórias da família.
- Por que ele está cuidando do cavalo do papai?
- Ah ele fez equino... alguma coisa que não sei o nome, filha.
- Equinocultura?
- Isso mesmo! Por isso gosto da minha filha estudada.
- Ah mãe, eu fiz faculdade de Letras, não é grande coisa. Ainda tem muita chácara pobre por aqui?
Minha mãe rapidamente olhou para trás e me examinou os olhos.
- Você não me venha com essas coisas de dar aula aqui, Alice. Essa gente não vai te pagar nada.
Eu sabia que ela seria contra pois só pensavam em lucros.
- Mâe, a vida não é somente dinheiro, as vezes podemos fazer algo pelos outros.
- Eu sou totalmente contra, eles não querem aprender, são uns chucros iletrados e você é uma escritora.
Ela adorava esse status embora na cidade não valesse muita coisa, mas ali, para os meus pais, eu era comparada a uma Clarice Lispector ou Jorge Amado. m*l sabiam eles que a realidade era totalmente outra e para ser um escritor de sucesso se leva uns bons anos, pessoas que estendam a mão e muito dinheiro para investir. E foi daquele jeito que conheci o Breno, o editor chefe que foi meu marido. Pensava em tudo isso quando parei de olhar para trás ao menor sinal de que meu pai voltava a nosso carro.
- Está tudo bem lá? - Perguntou minha mãe.
- Sim, ele não precisava de ajuda, esses filhos do Narciso são cheios de si, não gostam de ajuda. Então fique aí na estrada.
Girei meu tronco para olhar para trás e o homem estava me olhando, com ar curioso. Desviei o olhar e voltei a olhar para frente, pensando no quanto tinha ficado bonito aquele filho do Narciso. Eu lembrava pouco de um rapaz franzino, chatinho e meio feio mas o que eu vi naquela hora foi uma mistura de Apollo com garoto de programa e agroboy. Eu ri e meus pais olharam pelo retrovisor. Deviam me achar mais louca agora que voltei do que quando parti.
Ao chegar à fazenda, lá estava a imponente casa de dois andares, com batentes de janelas de madeira pintadas de azul sem qualquer grade. Era tão gostoso encontrar aconchego em um local longe dos perigos das grandes cidades, onde se anda com as mãos grudadas à bolsa, com medo, olhando para todos os lados. A casa era branca, com uma varanda em torno de toda a casa, assoalho de madeira e redes de gabardine feitas pela minha mãe. A sala era grande e havia baús de madeira ali, um sofá rústico de seis lugares e outro de quatro lugares, cristaleira e cortinas amarelo queimado penduradas em todas as janelas. O que mais me trouxe lágrimas aos olhos foi o cheiro de bolo de milho que circulava pela casa.
- Mãe, a senhora fez o bolo para mim?!
- Claro, anjo meu!
- Ela esqueceu o que é um bom bolo de milho da roça. - Implicou o meu pai.
A casa estava mais moderna do que quando parti. Notei, antes de entrar, uma antena via satélite para internet, o que não existia quando eu tinha dezenove anos. Aquela internet nem era cara e meu pai podia pagar por ela, aquilo ia salvar minha vida, com certeza. Ao entrar na cozinha me deparei com o fogão a lenha e um outro muito moderno. Minha mãe gostava de preservar as coisas antigas que lhe traziam lembranças de seus pais. Acredito que todos tem alguma relíquia que gosta de conservar e que lhe traga aconchego nos dias saudosos. Minha mãe andou na minha frente para pegar o bolo no forno enquanto eu me sentava à mesa.
- Seus irmãos logo vão estar aqui para te ver.
- Ah eu estou doida para ver os dois.
A madura senhora me olhou dentro dos olhos enquanto colocava o bolo sobre a mesa e hesitou um pouco antes de começar seu interrogatório.
- Filha, estou levando suas malas para seu quarto! - Gritou meu pai.
- Obrigada, pai!
- Olhe para mim, Alice... - Disse ela
Eu cortava um pedaço de bolo enquanto evitava seu olhar. Ergui a cabeça lentamente lambendo os dedos melados do bolo e sorri com tristeza.
- Diga, dona Alma.
- Está realmente feliz em ter se separado? Eu não acho isso certo.
- Mãe? Ele me traiu muitas vezes.
Eu não entendia como ela não conseguia compreender esse sentimento, afinal sentir ciúme era algo tão visceral e tão profundo. Romper com o contrato de fidelidade do casamento era algo muito sério para a maioria das mulheres. Ao longo dos anos em que soube das traições dele, comecei a questionar a própria instituição do casamento e os conceitos sobre monogamia. Nunca mais queria me entregar a algo assim tão forte novamente. Puro sexo estava ótimo para mim quando acontecesse. Eu voltaria para casa feliz e sozinha carregando toda a independência do mundo nas costas, levando comigo a sensação de que eu me bastava e de que minha solidão seria profícua para o meu trabalho e que ele era o que mais devia importar no mundo para mim. O meu trabalho. Escrever histórias, falar de pessoas, mostrar vidas, concepções de mundo. Era, a partir dali, a única coisa que importava para mim.
- Todos os homens traem, Alice. O que importa é se ele era bom para você.
Olhei nos olhos dela com um ar de deboche, sem nenhuma compreensão.
- Minha mãe, alguém que machuca seu coração e trai sua confiança pode ser bom para você? Ele podia ter me trazido uma doença.
- Seu pai fez isso inúmeras vezes e brigamos muito até eu entender que os homens não conseguem ser fiéis e se ele estiver ao meu lado numa cama de hospital então terá sido um bom marido para mim. A amizade deve vir antes de tudo, Alice.
- Pensamos muito diferente mãe, a senhora é submissa e eu não.
- Eu acho isso errado mas coma seu bolo e depois vá descansar. Pode ser que mude de opinião.
- Não vou mudar, mãe.
Ela meneou a cabeça limpando as mãos em um pano de prato e depois se retirou, sem um abraço e subiu as escadas para seu quarto, devia estar cansada de ir a Goiânia.