Segredos da cachoeira

1626 Palavras
Capítulo III Segredos da cachoeira O barulho de caminhonete era inconfundível. Eu movi minha cabeça na direção do barulho do motor e vi que minha caminhonete estava chegando finalmente. - Minha caminhonete! - Gritei e fui em direção a caminhonete. - Hoje nós vamos tomar uma cerveja no centro da cidade, Eric! - Isso ai, Alice! Alma me olhou com raiva e foi até mim. A jovem senhora apressou o passo até me alcançar e segurar meu braço. - Você não vai sair com homens aqui e desonrar sua família, Alice. Soltei meu braço com rapidez e sorri. - Mamãe, vai ficar muito difícil superar meu sofrimento se a senhora ficar me dizendo o que fazer! Eric se aproximava da situação e tratou de jogar um balde de água gelada na discussão. - Dona Alma, eu convidei Alice para distrair um pouco na cidade, se a senhora permitir, eu sou um amigo conhecido, ou não? - A voz era mansa e gostosa. Ela o olhou de cima a baixo. - Eu conheço você, rapaz, gosta de passar todas na cara, mas não a minha filha! Eric me olhou e jogou a guia do cavalo no chão saindo a passos largos e apressados, pisando duro, com profunda raiva. Olhei minha mãe com tanta raiva e revolta que minha vontade era refazer minhas malas e voltar para São Paulo. Voltei meu rosto para ele e vi que montava um cavalo para em seguida partir nele. A minha vontade era ir atrás mas eu repensei e também precisava receber meu carro. Olhei minha mãe como se saíssem faíscas dos meus olhos. - A senhora foi grossa e desrespeitosa com ele! O meu pai não é assim! - Eu sei que você sempre gostou mais do seu pai, aliás se parece muito com ele, será que não foi você quem traiu no casamento?! Ela jogou aquela bomba na minha frente e saiu para a casa. Aquilo era tão injusto e c***l que senti ódio da minha mãe. Quando iriam respeitar a vontade de outra mulher não permanecer sendo traída em um casamento? Quando iriam respeitar a sexualidade das outras mulheres? Quando eu seria respeitada por ser quem eu era? Do jeito que eu era. As lágrimas da mágoa desceram enquanto eu recebia meu carro. O homem da transportadora baixou a cabeça e apenas guardou minha assinatura no bolso para em seguida voltar a sua caminhonete. Olhei para meu carro e fui até ele. Acariciei a lataria da única coisa que lembrava meu casamento ali, tão longe de tudo. Quando olhei para trás, vi minha mãe na janela da cozinha me olhando. Assim que a vi decidi entrar no carro e sair dali. Ainda a ouvi gritar meu nome, talvez arrependida ou talvez ainda tentando me controlar. O fato é que ela nunca tinha conseguido. Quando eu era mais jovem, ela cerceava meu direito de ir e vir com medo dos filhos do Narciso. Ela sempre achou que algo aconteceria entre os filhos dela e os filhos dele e seu temor era de que fôssemos influenciados de tal forma e passássemos a gostar uns dos outros sempre temendo que os Capuleto e Montechio se aproximassem. Era assim que eu enxergava o temor da minha mãe, como um dramalhão ao estilo mexicano. Acho que foi por isso que decidi ir embora e só voltei achando que ela tinha amadurecido enquanto mulher. A cachoeira ficava para o lado das terras do Narciso, mas sempre íamos até lá quando mais novos. Embrenhei meu carro no mato até onde deu, depois segui a pé. E lá estava ela, imponente, linda; uma cascata de água gelada que descia do alto de uns quatro metros batendo fortemente contra a água calma do lago. O barulho era delicioso e relaxante. Eu estava de volta aquele refúgio, exatamente como há dez anos, quando me sentia perdida, pressionada ou triste. Quando me sentei em uma pedra na relva alta, ouvi um barulho no meio do mato. Congelei. Assim como meus irmão, eu sempre tive medo das histórias da roça. Meu corpo congelou e meus olhos pararam de se mover com medo de olhar para os lados. Quando finalmente alguém apareceu no alto da cachoeira ameaçando pular. Era Eric e aquele corpo escultural, somente de calça jeans, sorrindo para mim. Eu sorri de volta e senti o corpo esquentar de novo. Então o susto veio forte quando o vi pular para dentro da água como fazíamos quando crianças. - Não! Ainda gritei, sem sucesso. Temi por sua vida já que eu e meus irmãos éramos pequenos quando fazíamos aquilo e eu sempre achei que a profundidade não era bastante para um homem de um metro e oitenta, o que deveria ser a altura dele. Logo, ele surgiu do fundo sorrindo. Que dentes brancos! Que rosto! Ele saiu da cachoeira e veio em minha direção. Até que o dia estava ficando interessante. - Por que não? - Ele ria - Se preocupa comigo? - É né! Porque eu achei que era raso, não lembrava bem. - É água suficiente para mim e para você, entra lá! - Tá doido? - Olhei para seus gominhos do abdome e tive que fazer uma força enorme para não correr os olhos pelo corpo todo dele enquanto ele me observava - Tá frio! - Ish virou mesmo uma mulher da cidade! - Virei sim, mas me diz, teve a mesma ideia que eu, foi? Ele chacoalhava os cabelos com as mãos para tirar o excesso de água e sorria. - Sua mãe é osso duro, viu. Ela deixa qualquer um com raiva! - Eu sei, me desculpe. - Você não me deve desculpas, é tão vítima quanto eu. - Isso é verdade. Mas eu queria ir atrás de você, te pedir desculpas por ela e não sabia nem para onde ir, que coincidência... A expressão dele se tornou séria e até sensual. - Parece que o destino queria que nos encontrássemos... Baixei os olhos envergonhada, tentando resistir àquela tentação de homem mas meu gestual demonstrava tudo se ele fosse bom observador. Joguei os cabelos para trás da orelha e mordi os lábios. - Eu acredito que sim... - O olhei sentindo minha respiração ficar ofegante e aquilo não me acontecia há tanto tempo... - Não acredita na sua mãe, não é? - Não me importa o que ela pensa ou o que você faz, não acredito em homens bonitos que não pegam todas. - Instintivamente meu alarme de autoproteção tinha sido ativado, mas ao mesmo tempo deixei escapar o elogio. - Que ótimo! Bom que a família inteira pensa o mesmo. Ele fechou a cara e foi se retirando. O que eu tinha feito?! i****a, não era nada disso, eu só estava me protegendo. Então segurei no braço dele. - Eric, meu deus, me perdoa. Ele olhou para a minha mão em seu braço esperando que eu o soltasse, mas eu o segurei com a outra. - Não precisa... - Precisa. - Subi mais um pouco o pequenino vale e fiquei na altura dele. - Eu separei há pouco tempo e estou uma bomba-relógio, com medo dos homens, não leve para o lado pessoal. Eu quero que sejamos amigos, por favor. Ele me olhava enquanto desciam gotas de água do cabelo até os seus lábios fazendo com que meus olhos as acompanhassem até aquela linda boca que me convidava. Foi impossível resistir, então em um ímpeto louco eu o beijei. Ele se assustou, porém não se moveu e como eu já tinha atacado, forcei minha língua naquela boca linda adentro e ele respondeu me abraçando forte. O beijo foi gostoso e demorado. Não conseguimos nos desgrudar e os beijos foram se intensificando. A boca macia e a língua quente não pediram passagem; simplesmente invadiram minha boca, brincaram comigo e terminaram em uma mordida fraca e gostosa nos lábios. Ele me olhou, se afastando um pouco, afrouxando o abraço apertado por aqueles braços fortes. - Isso está errado, Alice. Meu santo Deus! O que podia estar errado em duas pessoas que sentiram t***o uma pela outra se beijarem? - Por quê? - Eu não namoro e você vai se machucar e muito menos namoraria uma filha da Alma. - Eu te pedi em namoro, Eric? Eu cheguei literalmente ontem e hoje te dei um beijo. - Ainda assim, isso vai terminar m*l. Eu sou o lobo mau da sua mãe. - E o que eu tenho a ver com minha mãe mesmo? Ele ia se afastando e eu o segurava, sem qualquer vergonha na cara, sem nenhuma compostura. - Eu quero continuar trabalhando com os cavalos do seu pai e não quero perder sua amizade. - Não podemos manter segredo? Ele sorriu com um ar sacana. Os m*****s do peito dele começaram a enrijecer de frio mas olhando mais abaixo, algo mais estava rijo também. Talvez pelos beijos e pela palavra “segredo”. - Gosta disso? - Gostei de você. Ele coçou a cabeça rindo. A risada baixa mais linda que já ouvi. Era perfeito como se movia, de forma viril, como observava as coisas ao redor, como me olhava, comendo meu corpo com os olhos, se perdendo na minha boca e voltando o olhar verde de sobrancelhas castanho escuras aos meus olhos. - Tudo bem, na sua fazenda fingimos, é isso? - Eu finjo que te odeio se quiser... - Me sentia a cadelinha dele. Estava tão morta de desejo naquele homem que tomava atitudes estranhas, hora me protegendo e hora me jogando em sua boca. - Eu adoraria... - Ele riu. - Seja bem-vinda de volta, Alice Santos Oliveira... Ele disse aquilo com um sorriso safado no rosto e foi para o cavalo que eu nem tinha visto que estava ali quando cheguei.
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